03 outubro 2011

02 outubro 2011

IMITAÇÃO DE OVÍDIO

nós somos um par de instrumentos solitários
também solidários
o nosso papel é pequeno
começa e acaba aí.

uma falha
como as há em todos os sistemas
uma doença talvez desconhecida
ou pelo menos
não nomeada:
parece uma faca
a traçar a nossa fronteira
na pele, já quase dentro.

impossível apagar.

à nossa frente
alinham outros
em passo grave.
transportam as suas ideias
como andores,
ideias que
ao nascer
já não são nascentes
e
vão todas em direcção ao poente.

(...)

Alberto Pimenta

com a devida vénia, de IMITAÇÃO DE OVÍDIO, & etc, Abril de 2006

04 maio 2011

HASSASIN

A mão que atira a pedra
sabe que as carícias diluem os corpos,
que o desejo enrola os seus caminhos sem os ter percorrido.
Também a sede escreve em cadernos sem páginas.
Vestidos de abismo, fazemos do fumo um único pijama;
tudo quanto sonhamos hoje, amanhã será um cinzeiro.
Noite é o nome da árvore mais alta sobre a terra.
A sua infinita sombra faz-se de todas as cinzas.
Entre os seus ramos mais altos engordam os nossos assassinos.

Jesús Jiménez Domínguez

com a devida vénia de criatura - N.º 5 . OUTUBRO . 2010, Selecção e tradução de Diogo Vaz Pinto e Luís Filipe Parrado

23 fevereiro 2011

[As mulheres que surgem no navio]

(...)

As mulheres que surgem no navio
esqueceram o amor e a indignação,

são fogos de Santelmo,
aparecem no sono,
e fingimos que o barco chega
à Ilha dos Amores, e aí nos deixa,

raparigas nuas e perfeitas,
e todas diferentes,
embora com os mesmos papos-de-anjo
do Caminho Marítimo para a Índia,
os olhos cintilantes,
o corpo doido prestes a chamar a si
a polução nocturna.

(...)

Nuno Dempster

com a devida vénia, de K3, & etc, 2011

08 dezembro 2010

CASTELO DE AGROMONTE

À distância da alta janela
era uma mulher sem idade. Estou em crer
era ainda rapariga
sob a trovoada e a chuva
seguia por entre os jazigos - góticas
capelas imperfeitas -
  ia pelo caminho de saibro
ao encontro dos amados mortos. Abriu a torneira, a água
correu, lavou a jarra,
água para amarelos crisântemos. Água
límpida para os seus amados mortos
em véspera de todos-os-santos (amanhã é feriado,
reclamam-na os vivos
bem menos amados - dos vivos não pode dizer seus não
pode pousar
sobre a pedra branda dos leitos
a jarra, roxos crisântemos amarelos)

- Como se chama o cemitério, além
- Agromonte, senhor

João Miguel Fernandes Jorge

com a devida vénia, de SOBRE MÁRMORE, Edição Teatro de Vila Real, Outubro de 2010

28 novembro 2010

[partir]

partir

correr
horizontes

sair
do corpo
efémero

e voar

Xavier Zarco

com a devida vénia, de O Livro dos Murmúrios, Palimage Editores, Viseu, 1998