03 outubro 2011

02 outubro 2011

IMITAÇÃO DE OVÍDIO

nós somos um par de instrumentos solitários
também solidários
o nosso papel é pequeno
começa e acaba aí.

uma falha
como as há em todos os sistemas
uma doença talvez desconhecida
ou pelo menos
não nomeada:
parece uma faca
a traçar a nossa fronteira
na pele, já quase dentro.

impossível apagar.

à nossa frente
alinham outros
em passo grave.
transportam as suas ideias
como andores,
ideias que
ao nascer
já não são nascentes
e
vão todas em direcção ao poente.

(...)

Alberto Pimenta

com a devida vénia, de IMITAÇÃO DE OVÍDIO, & etc, Abril de 2006

10 setembro 2011

AO CONTRÁRIO DE ULISSES

Infeliz quem, ao contrário
de Ulisses, volte a casa
e nem sequer um cão, nem
um cão morto sequer, ladre.

Pedro Mexia

com a devida vénia, de Menos por Menos, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Abril de 2011

04 maio 2011

HASSASIN

A mão que atira a pedra
sabe que as carícias diluem os corpos,
que o desejo enrola os seus caminhos sem os ter percorrido.
Também a sede escreve em cadernos sem páginas.
Vestidos de abismo, fazemos do fumo um único pijama;
tudo quanto sonhamos hoje, amanhã será um cinzeiro.
Noite é o nome da árvore mais alta sobre a terra.
A sua infinita sombra faz-se de todas as cinzas.
Entre os seus ramos mais altos engordam os nossos assassinos.

Jesús Jiménez Domínguez

com a devida vénia de criatura - N.º 5 . OUTUBRO . 2010, Selecção e tradução de Diogo Vaz Pinto e Luís Filipe Parrado

08 dezembro 2010

CASTELO DE AGROMONTE

À distância da alta janela
era uma mulher sem idade. Estou em crer
era ainda rapariga
sob a trovoada e a chuva
seguia por entre os jazigos - góticas
capelas imperfeitas -
  ia pelo caminho de saibro
ao encontro dos amados mortos. Abriu a torneira, a água
correu, lavou a jarra,
água para amarelos crisântemos. Água
límpida para os seus amados mortos
em véspera de todos-os-santos (amanhã é feriado,
reclamam-na os vivos
bem menos amados - dos vivos não pode dizer seus não
pode pousar
sobre a pedra branda dos leitos
a jarra, roxos crisântemos amarelos)

- Como se chama o cemitério, além
- Agromonte, senhor

João Miguel Fernandes Jorge

com a devida vénia, de SOBRE MÁRMORE, Edição Teatro de Vila Real, Outubro de 2010

28 novembro 2010

[partir]

partir

correr
horizontes

sair
do corpo
efémero

e voar

Xavier Zarco

com a devida vénia, de O Livro dos Murmúrios, Palimage Editores, Viseu, 1998

23 novembro 2010

[do mundo que malmolha ou desolha não me defendo]

do mundo que malmolha ou desolha não me defendo,
nem de mim mesmo, à força
de morrer de mim na minha própria língua,
porque eu, o mundo e a língua
somos um só
desentendimento

Herberto Helder

neste dia de aniversário do Poeta, com a devida vénia, de A FACA NÃO CORTA O FOGO, Assírio & Alvim, Setembro de 2008

17 novembro 2010

O QUE SE FOI

O que se foi se foi.
Se algo ainda perdura
é só a amarga marca
na paisagem escura.

Se o que se foi regressa,
traz um erro fatal:
falta-lhe simplesmente
ser real.

Portanto, o que se foi,
se volta, é feito morte.

Então por que me faz
o coração bater tão forte?

Ferreira Gullar

com a devida vénia, de Em alguma parte alguma, Ulisseia, Edição Babel, Lisboa, Outubro de 2010

06 novembro 2010

[Um homem na Bélgica foi morto a tiro]

Um homem na Bélgica foi morto a tiro
Pelo cão fiel quando viajava para a caça,
Segundo noticiava um jornal nas Curiosidades.

O belga seguia na altura ao volante do jipe,
Descontraído, enquanto no banco de trás,
Espingarda ao lado, seguia descontraidamente o cão.

Como sempre, olhavam ambos na mesma direcção,
Lá para onde a floresta se estendia, - calado o homem,
O cão de caça arfando, porque ia quente, o Verão.

Foi o último Verão para o homem. Assustado
Pelo terreno irregular, o cão saltou do assento
E provocou um disparo que matou o dono.

Ah, ainda hoje os dois belgas podiam estar a caminho,
O par ideal, não tivesse um buraco na estrada
Desfeito a amizade com um baque. Foi pena.

Durs Grünbein

com a devida vénia, de Aos Queridos Mortos, 33 Epitáfios, Editora Angelus Novus, Lda., Coimbra, 2003

03 novembro 2010

O ANO DA MORTE DE JOSÉ SARAMAGO

(...)

Vejo-me como um homem calado, vejo assim os poetas,
vemo-nos como homens calados que não podem estar calados,
ou que estão cegos e não podem estar cegos,
ou que não podem deixar de deambular pela cidade,
porque há uma pedra a levantar do chão,
um povo a levantar,
uma infância a levantar

(...)

Amadeu Baptista

com a devida vénia, de O ANO DA MORTE DE JOSÉ SARAMAGO, &etc, Setembro de 2010

18 outubro 2010

[Se perguntarem: das artes do mundo?]

Se perguntarem: das artes do mundo?
Das artes do mundo escolho a de ver cometas
despenharem-se
nas grandes massas de água; depois, as brasas pelos recantos,
charcos entre elas.
Quero na escuridão revolvida pelas luzes
ganhar baptismo, ofício.
Queimado nas orlas de fogo das poças.
O meu nome é esse.
E os dias atravessam as noites até aos outros dias, as noites
          caem dentro dos dias - e eu estudo
          astros desmoronados, mananciais, o segredo.

Herberto Helder

com a devida vénia, de DO MUNDO, Assírio & Alvim, Lisboa, Outubro de 1994

02 outubro 2010

PERSPECTIVAS

Há uma estranha persistência da vontade
nos dias que correm. Como efeitos dos (ou só a pele!) caminhos bifurcados,
organizamos falsas geometrias.

As nossas janelas dão para outras janelas,
em cidades que não se deixam habitar facilmente. São plácidas as tardes e
existes
no perfeito ponto para
onde fogem
todas as linhas que teimamos em não ver.

Queiras
ou não (há sempre duas passagens!), a rede da melancolia
tem servido também
para inventar o ponto de vista.

Dália Dias

(Inédito)

15 setembro 2010

19 junho 2010

ROÇAGURES

Roçagures era palavra que não tinha pouso,
casa-sobrado, avarandados. Roçagures
só tinha canto, recanto, desvão
sob pilares tão ermos, e aranhas
vinham (das bojudas)
fazer da palavra roçagures
o pior dos desmazelos: riam
dela (aqueles risotes das aranhas),
riam da roupagem léxica
da palavra roçagures, riam
da sua impossibilidade para frases.

Paulinho Assunção

com a devida autorização do autor, colhido no seu blogue cidades escritas

19 maio 2010

RELAÇÃO DE ALGUNS BENS DO POETA

uma pilha de poemas impressos
outra dos que foram perdidos
e mais outra dos que ficaram por escrever
uma prateleira com sonhos queimados
quarenta e cinco amores frustrados
um relógio sem ponteiros
um gato imaginário que mia em silêncio
um pássaro empalhado com a asa esquerda partida
uma mala de couro pronta para a viagem sem volta


                                                              17-05-10
Júlio Saraiva

mais poemas do autor, aqui

05 maio 2010

Errata

.

Na pág. 81, onde se lê mulher,
Deverá ler-se feitiço.
Tendo em atenção a isso
Ilude-se apenas quem quiser.

Mário Osório

com a devida autorização do autor, de Fumo do Meu Cigarro

31 março 2010

[Tem o poeta uma fisga]

Tem  o poeta uma fisga
E um caroço de azeitona
E dele ninguém se pisga
Sem levar uma na mona

O poeta é como um puto
Não há muros que não salte
Nem árvore cujo fruto
Lhe negue o sabor de malte

E mesmo que o tempo passe
E na barba nasça neve
Em cada dia ele faz-se
E desfaz-se no que escreve

Xavier Zarco

13 janeiro 2010

Dobrada à moda do Porto

Um dia, num restaurante, fora do espaço e do tempo,
Serviram-me o amor como dobrada fria.
Disse delicadamente ao missionário da cozinha
Que a preferia quente,
Que a dobrada (e era à moda do Porto) nunca se come fria.


Impacientaram-se comigo.
Nunca se pode ter razão, nem num restaurante.
Não comi, não pedi outra coisa, paguei a conta,
E vim passear para a rua.


Quem sabe o que isto quer dizer?
Eu não sei, e foi comigo...


(Sei muito bem que na infância de toda a gente houve um jardim,
Particular ou público, ou o do vizinho.
Sei muito bem que brincarmos era o dono dele.
E que a tristeza é de hoje.)


Sei isso muitas vezes,
Mas, se eu pedi amor, porque é que me trouxeram
Dobrada à moda do Porto fria?
Não é prato que se possa comer frio,
Mas trouxeram-mo frio.
Não me queixei, mas estava frio,
Nunca se pode comer frio, mas veio frio.

Álvaro de Campos

com a devida vénia, de POEMAS DE FERNANDO PESSOA, selecção, prefácio e posfácio de Eduardo Lourenço, Visão - JL, Fevereiro de 2006

05 janeiro 2010

GEOLOGIA

Às vezes são homens de bem
empurrados para esta vida,
resquícios da erosão da montanha,
paisagens antigas
enterradas sob o gelo.

Nada está garantido
numa geologia tão frágil. Este chão
pode virar-se sem aviso.
Ainda assim, sejam bem-vindos,
fiquem tristes à vontade.

Vítor Nogueira

com a devida vénia, de MAR LARGO, &etc, Lisboa, Setembro de 2009

02 janeiro 2010

ENDECHA DOS MAIS NOVOS

Enquanto o nosso coração voraz
bate a descompasso com o da Terra,
não queremos ripostar demais à guerra,
fugimos de apostar demais na paz.

Compêndios de nojo, actas de festa,
são escrita tremida para nós,
mas não se lembrem autores de erguer a voz
a dizer o que purga e o que molesta.

Só a voz do sangue ouvimos bem
quando ao leme do ventre almareámos;
fomos inocentes, já nos naufragámos,
corpos de delito, almas de refém.

Luiza Neto Jorge

com a devida vénia, de A LUME, Assírio & Alvim, Lisboa, Maio de 1989

01 janeiro 2010

Calle Principe, 25

Perdemos repentinamente
a profundidade dos campos
os enigmas singulares
a claridade que juramos
conservar

mas levamos anos
a esquecer alguém
que apenas nos olhou

José Tolentino Mendonça

com a devida vénia, de BALDIOS, Assírio & Alvim, Lisboa, Setembro de 1999

31 dezembro 2009

Outra Despedida

O canto, no momento decisivo,
por surgido espasmo
encalha, pára,
mesmo onde trepa
e a ebriedade
solta obsessão, insipiência.

- como se, ao chamar-se pelo nome,
tivesse tentado um gesto
e tivesse chegado ao centro
de um vazio ilimitado:
de lá, mexendo braços ou brânquias,
detém a orla
de uma terra friável.

- como se o fôlego viesse
de retículos nunca explorados
(e ele, o cantor,
andasse vísceras e pés)
rumo a um bem que já não tem nome
ou a um mal que desse bem
esfomeia e respira.

- como se a voz
fosse um deus solitário
sem mais trono nem aljava
e andasse rumo a lugares apagados
à procura de outras medidas.

- como um vórtice
enroscando-se se desfaz
num meandro
de vidro imponderável.

Elio Pecora

com a devida vénia, de POEMAS ESCOLHIDOS, Edições Quasi, Setembro de 2008

16 dezembro 2009

Sob epígrafe de T.S. Eliot - 1

     Let us go, through certain half-desert streets,
     The muttering retreats
     Of retless nights in one-night cheap hotels


     T.S. Eliot


1.


vem e desce comigo ao coração
da noite onde os teus sonhos se recolhem
e se dissolvem
como sal na água dos teus olhos


outra é a noite que sentes
como tua


não esta que pulsa na morte
das cegonhas


essoutra que te chama por teresa
inês julieta eurídice
que enfim te nomeia eterna


porque eterno o amor julgas


é uma noite de espelhos
onde o reverso te ilumina
como no verso de ungaretti
de imenso


porque tudo
tudo nela é ilusão


Xavier Zarco

29 outubro 2009

INCUBADORA

Era tão pequena a mão   que
Nem o seu dedo mendinho

Conseguia agarrar. Pesava
Quinhentos gramas e respirava

Sem a ajuda do ventilador
O coração da sua mãe quase

Que não batia    com receio de
Que ele sufocasse sob o peso

Do seu amor

Jorge Sousa Braga

com a devida vénia, de A FERIDA ABERTA, Assírio & Alvim, Lisboa, 2001

20 outubro 2009

Versões do mundo

Se tiveres de escolher um reino
escolhe o relento
a noite tem a brancura do alabastro
ou mais extraordinária ainda


Ao que vem depois de ti
cede o instante
sem pronunciar
seu nome

José Tolentino Mendonça

com a devida vénia, de O VIAJANTE SEM SONO, Assírio & Alvim, Lisboa, Setembro de 2009


15 outubro 2009

A Contraluz

Desnudo o meu olhar, este
olhar cerzido com longos,


longos fios num tear de luz:
nesse corpo aceso, ateado,


vivo, que amadura o fogo
e o fulgor - reluz: rútila


vertigem que amotina o trigo,
alucina o sol, e mesmo a


contraluz, ai dos olhos ávidos
(ai de mim cativo), quando chego


ao cimo de teus seios nus.


Domingos da Mota

14 outubro 2009

PORTO DE ABRIGO

É esta a cidade que o destino
te reservou. Uma cidade de


gente dura cuja maior
extravagância é um vaso


de sardinheiras na janela
de um ou outro edifício.


Tinhas sonhado com uma
cidade branca mais a sul...


Esta cidade não é uma cida-
de é um vício.


Jorge Sousa Braga


com a devida vénia, de PORTO DE ABRIGO, Assírio & Alvim, 2005

12 outubro 2009

Um poema de Álvaro de Campos

...
Dá-me lírios, lírios
E rosas também.
Dá-me rosas, rosas
E lírios também,
Crisântemos, dálias,
Violetas, e os girassóis
Acima de todas as flores...


com a devida vénia, de A RELIGIÃO DO GIRASSOL, uma antologia organizada por Jorge Sousa Braga, editora Assírio & Alvim, 2000

09 outubro 2009

A Era dos Vivos

Os vivos
não desistem
de viver
Os mortos também


Mohammed Al-As'Ad


com a devida vénia, de Pequena Antologia da Poesia Palestiniana Contemporânea, Edições Asa, Fevereiro de 2004

03 outubro 2009

Legenda

Quando a dor se levanta,
ergue o teu rosto:
as estrelas só nascem
a seguir ao sol-posto.


Glória de Sant'Anna

in Música ausente, 1954
com a devida vénia, de DiVersos - Poesia e Tradução: N.º 15 - Junho de 2009

17 setembro 2009

AOS VINDOUROS, SE OS HOUVER...

Vós que trabalhais só duas horas
a ver trabalhar a cibernética,
que não deixais o átomo a desoras
na gandaia, pois tendes uma ética;


que do amor sabeis o ponto e a vírgula
e vos engalfinhais livres de medo,
sem peçários, calendários, Pílula,
jaculatórias fora, tarde ou cedo;


computai, computai a nossa falha
sem perfurar demais vossa memória,
que nós fomos pràqui uma gentalha
a fazer passamanes com a história;


que nós fomos (fatal necessidade!)
quadrúmanos da vossa humanidade.


Alexandre O'Neill

com a devida vénia, de  DE OMBRO NA OMBREIRA, Publicações Dom Quixote, Setembro de 1969

12 setembro 2009

SOU UMA CRIATURA

Como esta pedra
de São Miguel
assim fria
assim dura
assim enxuta
assim refractária
assim totalmente
desanimada


Como esta pedra
é o meu pranto
que se não vê


A morte
desconta-se
vivendo


Giuseppe Ungaretti


com a devida vénia, de Sentimento do Tempo, Publicações Dom Quixote, Fevereiro de 1971

07 setembro 2009

A UM POETA

Não reveleis o sonho. A luz do dia
fere demais a alma, e oculta
a face esquece a sua chaga rubra.


A dor, amordaçando, purifica:
que ela te dê no sangue o novo alento
para outros voos de que sairás vencido


(mas entretanto vives...). E procura
haurir na solidão a graça, o prémio
daquele instante puro, essencial


a que não chega o vão rumor do tempo
desfigurado e vil... E já liberto
conhecerás tua verdade inteira


ouvindo alguém, sem corpo nem memória,
segredar-te as palavras invisíveis
de que é tecida a Noite - tua esperança.


Luís Amaro


com a devida vénia, de DIÁRIO ÍNTIMO, DÁDIVA E OUTROS POEMAS, &etc, 2006