02/10/2011

IMITAÇÃO DE OVÍDIO

nós somos um par de instrumentos solitários
também solidários
o nosso papel é pequeno
começa e acaba aí.

uma falha
como as há em todos os sistemas
uma doença talvez desconhecida
ou pelo menos
não nomeada:
parece uma faca
a traçar a nossa fronteira
na pele, já quase dentro.

impossível apagar.

à nossa frente
alinham outros
em passo grave.
transportam as suas ideias
como andores,
ideias que
ao nascer
já não são nascentes
e
vão todas em direcção ao poente.

(...)

Alberto Pimenta

com a devida vénia, de IMITAÇÃO DE OVÍDIO, & etc, Abril de 2006

10/09/2011

AO CONTRÁRIO DE ULISSES

Infeliz quem, ao contrário
de Ulisses, volte a casa
e nem sequer um cão, nem
um cão morto sequer, ladre.

Pedro Mexia

com a devida vénia, de Menos por Menos, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Abril de 2011

04/05/2011

HASSASIN

A mão que atira a pedra
sabe que as carícias diluem os corpos,
que o desejo enrola os seus caminhos sem os ter percorrido.
Também a sede escreve em cadernos sem páginas.
Vestidos de abismo, fazemos do fumo um único pijama;
tudo quanto sonhamos hoje, amanhã será um cinzeiro.
Noite é o nome da árvore mais alta sobre a terra.
A sua infinita sombra faz-se de todas as cinzas.
Entre os seus ramos mais altos engordam os nossos assassinos.

Jesús Jiménez Domínguez

com a devida vénia de criatura - N.º 5 . OUTUBRO . 2010, Selecção e tradução de Diogo Vaz Pinto e Luís Filipe Parrado

23/02/2011

[As mulheres que surgem no navio]

(...)

As mulheres que surgem no navio
esqueceram o amor e a indignação,

são fogos de Santelmo,
aparecem no sono,
e fingimos que o barco chega
à Ilha dos Amores, e aí nos deixa,

raparigas nuas e perfeitas,
e todas diferentes,
embora com os mesmos papos-de-anjo
do Caminho Marítimo para a Índia,
os olhos cintilantes,
o corpo doido prestes a chamar a si
a polução nocturna.

(...)

Nuno Dempster

com a devida vénia, de K3, & etc, 2011

08/12/2010

CASTELO DE AGROMONTE

À distância da alta janela
era uma mulher sem idade. Estou em crer
era ainda rapariga
sob a trovoada e a chuva
seguia por entre os jazigos - góticas
capelas imperfeitas -
  ia pelo caminho de saibro
ao encontro dos amados mortos. Abriu a torneira, a água
correu, lavou a jarra,
água para amarelos crisântemos. Água
límpida para os seus amados mortos
em véspera de todos-os-santos (amanhã é feriado,
reclamam-na os vivos
bem menos amados - dos vivos não pode dizer seus não
pode pousar
sobre a pedra branda dos leitos
a jarra, roxos crisântemos amarelos)

- Como se chama o cemitério, além
- Agromonte, senhor

João Miguel Fernandes Jorge

com a devida vénia, de SOBRE MÁRMORE, Edição Teatro de Vila Real, Outubro de 2010

28/11/2010

[partir]

partir

correr
horizontes

sair
do corpo
efémero

e voar

Xavier Zarco

com a devida vénia, de O Livro dos Murmúrios, Palimage Editores, Viseu, 1998

23/11/2010

[do mundo que malmolha ou desolha não me defendo]

do mundo que malmolha ou desolha não me defendo,
nem de mim mesmo, à força
de morrer de mim na minha própria língua,
porque eu, o mundo e a língua
somos um só
desentendimento

Herberto Helder

neste dia de aniversário do Poeta, com a devida vénia, de A FACA NÃO CORTA O FOGO, Assírio & Alvim, Setembro de 2008

17/11/2010

O QUE SE FOI

O que se foi se foi.
Se algo ainda perdura
é só a amarga marca
na paisagem escura.

Se o que se foi regressa,
traz um erro fatal:
falta-lhe simplesmente
ser real.

Portanto, o que se foi,
se volta, é feito morte.

Então por que me faz
o coração bater tão forte?

Ferreira Gullar

com a devida vénia, de Em alguma parte alguma, Ulisseia, Edição Babel, Lisboa, Outubro de 2010

06/11/2010

[Um homem na Bélgica foi morto a tiro]

Um homem na Bélgica foi morto a tiro
Pelo cão fiel quando viajava para a caça,
Segundo noticiava um jornal nas Curiosidades.

O belga seguia na altura ao volante do jipe,
Descontraído, enquanto no banco de trás,
Espingarda ao lado, seguia descontraidamente o cão.

Como sempre, olhavam ambos na mesma direcção,
Lá para onde a floresta se estendia, - calado o homem,
O cão de caça arfando, porque ia quente, o Verão.

Foi o último Verão para o homem. Assustado
Pelo terreno irregular, o cão saltou do assento
E provocou um disparo que matou o dono.

Ah, ainda hoje os dois belgas podiam estar a caminho,
O par ideal, não tivesse um buraco na estrada
Desfeito a amizade com um baque. Foi pena.

Durs Grünbein

com a devida vénia, de Aos Queridos Mortos, 33 Epitáfios, Editora Angelus Novus, Lda., Coimbra, 2003