Fogo Maduro
«Entre a taça e o lábio muitas coisas acontecem.» Páladas de Alexandria
03 Outubro 2011
02 Outubro 2011
IMITAÇÃO DE OVÍDIO
nós somos um par de instrumentos solitários
também solidários
o nosso papel é pequeno
começa e acaba aí.
uma falha
como as há em todos os sistemas
uma doença talvez desconhecida
ou pelo menos
não nomeada:
parece uma faca
a traçar a nossa fronteira
na pele, já quase dentro.
impossível apagar.
à nossa frente
alinham outros
em passo grave.
transportam as suas ideias
como andores,
ideias que
ao nascer
já não são nascentes
e
vão todas em direcção ao poente.
(...)
Alberto Pimenta
com a devida vénia, de IMITAÇÃO DE OVÍDIO, & etc, Abril de 2006
10 Setembro 2011
AO CONTRÁRIO DE ULISSES
Infeliz quem, ao contrário
de Ulisses, volte a casa
e nem sequer um cão, nem
um cão morto sequer, ladre.
Pedro Mexia
com a devida vénia, de Menos por Menos, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Abril de 2011
04 Setembro 2011
A LITERATURA
3.
Será sensato
descobrir o momento
em que se deve
deixar de escrever
e apenas
passar a limpo?
José Alberto Oliveira
com a devida vénia, de Telhados de Vidro - N.º 15 . Junho . 2011
Será sensato
descobrir o momento
em que se deve
deixar de escrever
e apenas
passar a limpo?
José Alberto Oliveira
com a devida vénia, de Telhados de Vidro - N.º 15 . Junho . 2011
01 Setembro 2011
O TESTEMUNHO
O que de nós esperam? Junto aos olhos
maiores foram os campos cultivados
de basalto, de escórias - as palavras
estéreis, o poema que recolhe
tudo o que mal existe, para darmos
o que era nosso, e deles recebemos
o último gesto, a fuga que regressa
ao ponto de partida: o nascimento
doloroso. Mais nada. Assim o ciclo
há-de ficar completo. Poderemos
agora retomá-lo? Nestas sílabas
pouco mais há que a voz incendiada
capaz de nos chamar para que chegue
de outra respiração a que se extingue.
Fernando Guimarães
com a devida vénia, de As Raízes Diferentes, Relógio D'Água Editores, Lisboa, Junho de 2011
maiores foram os campos cultivados
de basalto, de escórias - as palavras
estéreis, o poema que recolhe
tudo o que mal existe, para darmos
o que era nosso, e deles recebemos
o último gesto, a fuga que regressa
ao ponto de partida: o nascimento
doloroso. Mais nada. Assim o ciclo
há-de ficar completo. Poderemos
agora retomá-lo? Nestas sílabas
pouco mais há que a voz incendiada
capaz de nos chamar para que chegue
de outra respiração a que se extingue.
Fernando Guimarães
com a devida vénia, de As Raízes Diferentes, Relógio D'Água Editores, Lisboa, Junho de 2011
22 Agosto 2011
PEDRA-FINAL
Tanta gente,
tantos enredos
até ficarmos para sempre
quedos!
Para sempre? Não!
Que outros (mínimos) seres
já trabalham na nossa remoção.
Alexandre O'Neill
com a devida vénia, de DE OMBRO NA OMBREIRA, Publicações Dom Quixote, Setembro de 1969
11 Agosto 2011
[Tudo é divino e trágico]
1.
Tudo é divino e trágico,
saboreia-se o fel do verbo
o leito do delírio, a sílaba.
João Rasteiro
com a devida vénia, de A DIVINA PESTILÊNCIA, Assírio & Alvim, Lisboa, Março 2001
07 Agosto 2011
[A boca diz o lume. A língua, a chama.]
A boca diz o lume. A língua, a chama.
Albano Martins
com a devida vénia, de TRÊS POEMAS DE AMOR SEGUIDOS DE LIVRO QUARTO, edições Quasi, Fevereiro de 2004
06 Agosto 2011
POÉTICA (II)
COM as lágrimas do tempo
E a cal do meu dia
Eu fiz o cimento
Da minha poesia
E na perspectiva
Da vida futura
Ergui em carne viva
Sua arquitetura.
Não sei bem se é casa
Se é torre ou se é templo.
(Um templo sem Deus.)
Mas é grande e clara
Pertence ao seu tempo
... Entrai, irmãos meus!
Vinicius de Moraes
com a devida vénia, de O OPERÁRIO EM CONSTRUÇÃO e outros poemas, Selecção e prefácio de Alexandre O'Neill, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1986
03 Agosto 2011
ASTROLÁBIO
Guardei o recibo, que não serve para nada.
Dados impessoais: o nosso subtotal foi de 6.35
- pediste uma água mineral, um café
e umas sandes de ovo (em que nem tocaste);
pagámos caro por estarmos ali os dois,
na cafetaria do aeroporto com uma hora inteira
só para dizer uma palavra. Tudo
processado por computador, IVA incluído.
Uma operação que teve início precisamente
às 00:45 da madrugada. Agora
temos muito tempo para nos contentarmos
por já não termos que disputar as contas,
tu pagas os teus cafés, e eu sem ti
passo bem sem café.
Diogo Vaz Pinto
com a devida vénia, de NERVO, Averno, 2011
Dados impessoais: o nosso subtotal foi de 6.35
- pediste uma água mineral, um café
e umas sandes de ovo (em que nem tocaste);
pagámos caro por estarmos ali os dois,
na cafetaria do aeroporto com uma hora inteira
só para dizer uma palavra. Tudo
processado por computador, IVA incluído.
Uma operação que teve início precisamente
às 00:45 da madrugada. Agora
temos muito tempo para nos contentarmos
por já não termos que disputar as contas,
tu pagas os teus cafés, e eu sem ti
passo bem sem café.
Diogo Vaz Pinto
com a devida vénia, de NERVO, Averno, 2011
31 Julho 2011
CONSOANTES ÁTONAS
Emudecer o afe[c]to português?
Amputar a consoante que anima
a vibração exa[c]ta
do abraço, a urgência
tá[c]til do beijo? Eu não nasci
nos Trópicos; preciso desta interna
consoante para iluminar a névoa
do meu dile[c]to norte.
Inês Lourenço
com a devida vénia, de COISAS QUE NUNCA, & etc, 2010
Amputar a consoante que anima
a vibração exa[c]ta
do abraço, a urgência
tá[c]til do beijo? Eu não nasci
nos Trópicos; preciso desta interna
consoante para iluminar a névoa
do meu dile[c]to norte.
Inês Lourenço
com a devida vénia, de COISAS QUE NUNCA, & etc, 2010
30 Julho 2011
ARTE POÉTICA I
Ao escrever ave
não estou a escrever
cigarro,
tinteiro,
vazio.
O real é contundente,
de acordo,
mas que dizer das palavras?
(De resto, será o "real"
assim tão real?)
Tinteiro é coisa que já
não se usa, ave ainda
- mas nem sempre bem.
E o cigarro entretanto ardeu.
Manuel de Freitas
com a devida vénia, de GAME OVER, &etc, 2002
não estou a escrever
cigarro,
tinteiro,
vazio.
O real é contundente,
de acordo,
mas que dizer das palavras?
(De resto, será o "real"
assim tão real?)
Tinteiro é coisa que já
não se usa, ave ainda
- mas nem sempre bem.
E o cigarro entretanto ardeu.
Manuel de Freitas
com a devida vénia, de GAME OVER, &etc, 2002
20 Julho 2011
NOCTURNAS PORTAS
Portas, imensas e nocturnas portas, quando o que desejamos é
um rasgão luminoso.
Mário Rui de Oliveira
com a devida vénia, de O VENTO DA NOITE, Assírio & Alvim, Março de 2002
17 Julho 2011
OS ALEGRES PROPÓSITOS
Os sátrapas
pincharam para fora.
Está vazia a gamela?
É o que há.
Vamos ferver o osso da pobreza,
que é, desta vez, alegremente nossa?
É que a mesa corrida já está posta.
1975
Alexandre O'Neill
com a devida vénia, de POESIAS COMPLETAS, Assírio & Alvim, Maio de 2007
12 Julho 2011
[Não param as buzinas]
Não param as buzinas
da usura num canto de sereia
sobre o fio da navalha
e os nus e os mortos
que, à míngua, não pagaram
ficam sem acesso ao paraíso,
como se isso lhes pudesse
agora interessar.
Paulo da Costa Domingos
com a devida vénia, de AVERBAMENTO, & etc, 2011
06 Julho 2011
RUA EM NOVA DELI
Pequenos templos,
com deuses toscos que sorriem,
incenso e bosta de vaca
ou apenas a imagem doutros deuses
no oco da árvore da esquina.
Os seres simples
não têm necessariamente o coração puro:
mas a arrogância do mundo
parece não morar nesta rua.
Luís Filipe Castro Mendes
com a devida vénia, de Lendas da Índia, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Junho de 2011
com deuses toscos que sorriem,
incenso e bosta de vaca
ou apenas a imagem doutros deuses
no oco da árvore da esquina.
Os seres simples
não têm necessariamente o coração puro:
mas a arrogância do mundo
parece não morar nesta rua.
Luís Filipe Castro Mendes
com a devida vénia, de Lendas da Índia, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Junho de 2011
02 Julho 2011
Auto-retrato I
Sem ser o verdadeiro poeta, o bom Timóteo
ou dever alguma coisa a uma inteligência naturalista,
trago em mim a soberba
de um narciso selvagem (Narcissus pseudonarcissus)
e a obediência de uma ovelha.
Tenho esta capacidade de cair e partir os dentes
e falar ainda com a boca cheia
de pólvora e falhas de concordância
tenho 436 amigos no hi5
e uma alma com um n.º
que é uma linha verde
Ana Paula Inácio
com a devida vénia, de 2010-2011, Averno, Junho de 2011
ou dever alguma coisa a uma inteligência naturalista,
trago em mim a soberba
de um narciso selvagem (Narcissus pseudonarcissus)
e a obediência de uma ovelha.
Tenho esta capacidade de cair e partir os dentes
e falar ainda com a boca cheia
de pólvora e falhas de concordância
tenho 436 amigos no hi5
e uma alma com um n.º
que é uma linha verde
Ana Paula Inácio
com a devida vénia, de 2010-2011, Averno, Junho de 2011
25 Junho 2011
Quebra-luz
Desconfio dos poetas
que falam muito de luz, das
manhãs e das árvores
na sua obsessão hospedeira
de frutos e aves e
folhas. Desconfio dos que cantam
lareiras e vozes mansas, tentando
apaziguar o poema com a sua
indústria de incensos. Eles
encenam como velhos profetas
tardias formas de beleza
extinta - e fazem do verso
um ritual nado-morto
de pequenos afectos,
indiferentes à faca
incandescente que separa
o corpo das palavras
da substância do mundo.
Inês Lourenço
com a devida vénia, de LOGROS CONSENTIDOS, &etc, 2005
que falam muito de luz, das
manhãs e das árvores
na sua obsessão hospedeira
de frutos e aves e
folhas. Desconfio dos que cantam
lareiras e vozes mansas, tentando
apaziguar o poema com a sua
indústria de incensos. Eles
encenam como velhos profetas
tardias formas de beleza
extinta - e fazem do verso
um ritual nado-morto
de pequenos afectos,
indiferentes à faca
incandescente que separa
o corpo das palavras
da substância do mundo.
Inês Lourenço
com a devida vénia, de LOGROS CONSENTIDOS, &etc, 2005
19 Junho 2011
Arte poética
Vai pois, poema, procura
a voz literal
que desocultadamente fala
sob tanta literatura.
Se a escutares, porém, tapa os ouvidos,
porque pela primeira vez estás sozinho.
Regressa então, se puderes, pelo caminho
das interpretações e dos sentidos.
Mas não olhes para trás, não olhes para trás,
ou jamais te perderás;
e teu canto, insensato, será feito
só de melancolia e de despeito.
E de discórdia. E todavia
sob tanto passado insepulto
o que encontraste senão tumulto,
senão de novo ressentimento e ironia?
Manuel António Pina
com a devida vénia, de POESIA, SAUDADE DA PROSA uma antologia pessoal, Assírio & Alvim, Maio 2011
a voz literal
que desocultadamente fala
sob tanta literatura.
Se a escutares, porém, tapa os ouvidos,
porque pela primeira vez estás sozinho.
Regressa então, se puderes, pelo caminho
das interpretações e dos sentidos.
Mas não olhes para trás, não olhes para trás,
ou jamais te perderás;
e teu canto, insensato, será feito
só de melancolia e de despeito.
E de discórdia. E todavia
sob tanto passado insepulto
o que encontraste senão tumulto,
senão de novo ressentimento e ironia?
Manuel António Pina
com a devida vénia, de POESIA, SAUDADE DA PROSA uma antologia pessoal, Assírio & Alvim, Maio 2011
13 Junho 2011
Liberdade
Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal
Como tem tempo não tem pressa...
Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.
Quanto é melhor, quando há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!
Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.
O mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...
Fernando Pessoa
com a devida vénia, POEMAS DE FERNANDO PESSOA, Selecção, prefácio e posfácio de Eduardo Lourenço, Visão e JL - Jornal de Letras, Artes e Ideias, 2.ª Edição, Fevereiro de 2006
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal
Como tem tempo não tem pressa...
Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.
Quanto é melhor, quando há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!
Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.
O mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...
Fernando Pessoa
com a devida vénia, POEMAS DE FERNANDO PESSOA, Selecção, prefácio e posfácio de Eduardo Lourenço, Visão e JL - Jornal de Letras, Artes e Ideias, 2.ª Edição, Fevereiro de 2006
10 Junho 2011
Correm turvas as águas deste rio
Correm turvas as águas deste rio
Que as do céu e as do monte as enturbaram;
Os campos florescidos se secaram;
Intratável se fez o vale, e frio.
Passou o verão, passou o ardente estio;
Umas cousas por outras se trocaram;
Os fementidos Fados já deixaram
Do mundo o regimento, ou desvario.
Tem o tempo sua ordem já sabida;
O mundo, não; mas anda tão confuso,
Que parece que dele Deus se esquece.
Casos, opiniões, natura e uso
Fazem que nos pareça desta vida
Que não há nela mais que o que parece.
Luís de Camões
com a devida vénia, de Sonetos de Luis de Camões, escolhidos por Eugénio de Andrade, Assírio & Alvim, Julho de 2000
Que as do céu e as do monte as enturbaram;
Os campos florescidos se secaram;
Intratável se fez o vale, e frio.
Passou o verão, passou o ardente estio;
Umas cousas por outras se trocaram;
Os fementidos Fados já deixaram
Do mundo o regimento, ou desvario.
Tem o tempo sua ordem já sabida;
O mundo, não; mas anda tão confuso,
Que parece que dele Deus se esquece.
Casos, opiniões, natura e uso
Fazem que nos pareça desta vida
Que não há nela mais que o que parece.
Luís de Camões
com a devida vénia, de Sonetos de Luis de Camões, escolhidos por Eugénio de Andrade, Assírio & Alvim, Julho de 2000
04 Junho 2011
[ninguém pode saber que este poema é teu]
ninguém pode saber que este poema é teu.
ninguém pode saber. ninguém pode saber
que este poema. ninguém. este poema é teu.
sou uma coisa da qual se tem vergonha.
José Luís Peixoto
com a devida vénia, de Apeadeiro, Revista de Atitudes Literárias, N.º 1, Primavera 2001, Quasi Edições
25 Maio 2011
[Impenitente criador de mastros]
Impenitente criador de mastros,
quanto a velas nem vê-las
- mais que de fugida
quando me olhas de olhos como estrelas,
minha vida.
Dos astros
desço então à hora parca
que o destino nos deu:
e fecho a arca,
e tapo o céu.
Pedro Tamen
com a devida vénia de Relâmpago, N.º 27, Revista de Poesia, Outubro de 2010
18 Maio 2011
SOLDADOS
Estão como
no outono
nas árvores
as folhas
Giuseppe Ungaretti
com a devida vénia, de SENTIMENTO DO TEMPO, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Fevereiro de 1971
no outono
nas árvores
as folhas
Giuseppe Ungaretti
com a devida vénia, de SENTIMENTO DO TEMPO, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Fevereiro de 1971
14 Maio 2011
SÓ OS GATOS
Hoje os gatos não comeram.
Foram-se juntando aos poucos no telhado
e nem a chuva os fez abrir a língua.
Nem a água desaguou a voz, ou os gatos miaram.
Aquelas passadas que só os gatos sabem
afastaram-nos das palavras incisas em mármore
ou no granito deitado. Do plástico florido.
Das flores que a ausência perpetua.
Hoje as campas estão silenciosas
e os gatos com as garras espalmadas contra as telhas,
com o olhar que só os gatos olham,
não sabem ainda se perderam a fé na vida
ou mais na morte. Sentem um nó
inominado na garganta como todos nós.
No cimo do telhado dizem não ao céu.
Querem afirmá-lo de perto.
Rosa Alice Branco
com a devida vénia, de GADO DO SENHOR, & etc, 2011
13 Maio 2011
A ferida
Real, real, porque me abandonaste?
E, no entanto, às vezes bem preciso
de entregar nas tuas mãos o meu espírito
e que, por um momento, baste
que seja feita a tua vontade
para tudo de novo ter sentido,
não digo a vida, mas ao menos o vivido,
nomes e coisas, livre arbítrio, causalidade.
Oh, juntar os pedaços de todos os livros
e desimaginar o mundo, descriá-lo,
amarrado ao mastro mais altivo
do passado! Mas onde encontrar um passado?
Manuel António Pina
com a devida vénia, de OS LIVROS, Assírio & Alvim, Novembro 2003
04 Maio 2011
HASSASIN
A mão que atira a pedra
sabe que as carícias diluem os corpos,
que o desejo enrola os seus caminhos sem os ter percorrido.
Também a sede escreve em cadernos sem páginas.
Vestidos de abismo, fazemos do fumo um único pijama;
tudo quanto sonhamos hoje, amanhã será um cinzeiro.
Noite é o nome da árvore mais alta sobre a terra.
A sua infinita sombra faz-se de todas as cinzas.
Entre os seus ramos mais altos engordam os nossos assassinos.
Jesús Jiménez Domínguez
com a devida vénia de criatura - N.º 5 . OUTUBRO . 2010, Selecção e tradução de Diogo Vaz Pinto e Luís Filipe Parrado
sabe que as carícias diluem os corpos,
que o desejo enrola os seus caminhos sem os ter percorrido.
Também a sede escreve em cadernos sem páginas.
Vestidos de abismo, fazemos do fumo um único pijama;
tudo quanto sonhamos hoje, amanhã será um cinzeiro.
Noite é o nome da árvore mais alta sobre a terra.
A sua infinita sombra faz-se de todas as cinzas.
Entre os seus ramos mais altos engordam os nossos assassinos.
Jesús Jiménez Domínguez
com a devida vénia de criatura - N.º 5 . OUTUBRO . 2010, Selecção e tradução de Diogo Vaz Pinto e Luís Filipe Parrado
30 Abril 2011
TRAVESSA DOS GATOS
à memória de Eugénio de Andrade
Para quê mais versos?
O poema está feito, cabe
inteiro nestas sílabas de pedra
onde gostei tanto de magoar os pés.
Correm ao sol de Fevereiro
- pretos, quase brancos
e malhados - os príncipes
desta terra, os únicos.
Não te atrevas a segui-los, dona morte.
Manuel de Freitas
com a devida vénia, de JUROS DE DEMORA, Assírio & Alvim, Lisboa, Março de 2007
Subscrever:
Mensagens (Atom)