29/12/2008

Etimologia

quanta força em "mãe"
quanta força em "pai"


quanto debussy em "acaso"
quantas estações em "momento"
quantos relógios derretidos em "memória"


quanta pele em "emoção"
quanto ópio em "intimidade"
quanto teatro em "corpo"
quantas overdoses em "beleza"


quantos filmes em "fotograma"


quanto beethoven em "surdez"
quanta razão dourada em "caos"
quantos medos em "tigre"
quantas flores em "mal"
quantos anjos mudos em "medo"
quanto pollock em "violência"
quanto munch em "grito"
quanto basquiat em "loucura"
quanto kerouac em "jazz"
quantas cinzas em "brasa"
quantos kafkas em "metamorfose"
quanta nova orleães em "morte"


quantas narrativas em "fotografia"


quantos amores em "lupanar"
quanto cesariny em "ruas"
quantos confortos em "chuva"
quantas falésias em "onda"
quanta embriaguez em "barco"
quanto o'neill em "imaginação"
quanta alice em "maravilha"
quanto llorca em "duende"


quantas telas em "cor"
quanto magritte em "imagem"
quanto poetas contínuo em "herberto"


quantos impérios em "luz"
quantos ecos em "olhar"
quantos firmamentos em "ave"
quantas longitudes em "estase"
quantos labirintos em "saudade"
quantas cervejas em "inferno"


quanto al berto em "noite"
quanto camus em "homem"
quanto ian curtis em "solidão"
quantos hortos em "incêndio"
quanto antónio antunes em "lobo"
quanto fernando em "pessoa"
quantas árvores em "raiz"
quantos frutos em "mãos"


quanto piazzola em "gesto"
quanto d.quixote em "vento"
quantos ventos em "pégaso"
quantos pégasos em "sopro"
quantas albas em "sebastião"


quanto cesário em "verde"
quanto whitman em "erva"


quantas searas em "semente"
quantas crianças em "poeta"
quantos deuses em "criança"
quanto rimbaud em "deserto"
quanto borges em "cegueira"
quantos relâmpagos em "silêncio"


quantos livros em "palavra"


quantas palavras em "sílaba":


eu.




Bruno Sousa Villar


retirado de http://nomadaonirico.blogspot.com/, e aqui republicado com a devida autorização do autor.

15/12/2008

Prosa para 2008

O ferrete cruel de desvalido
aumenta a depressão e o descompasso
e a nítida noção de ter perdido
uma vida inteira de cansaço


com tarefas inúteis, sem sentido,
levado pelo chão desembaraço
de fazer impossíveis, perseguido
pelo peso das horas, a compasso.


E mau grado a prosa destes dias
com hérnias, miopia, cataratas
e artroses, cefaleias, disforias
que me deixam até quase de gatas,


uma vez que não sei se mais depois,
bem-vindos sejam os meus sessenta e dois. 


Domingos da Mota

22/11/2008

Pintura quase abstracta

      Besouros não trepam no abstrato.


      Manoel de Barros
    




Um círculo de fogo: posto
ao centro um buraco negro
de infinito: adentro do buraco


a placenta de mundos paralelos
que se fitam através dos espelhos
da matéria (negra fria escura tal


o breu)
entre rectas e curvas e espirais
algum mar tanto ar e muito céu:


um quadro gigante sem moldura
mas com bichos minerais e vegetais.
E no canto esquerdo bem no cimo


da tela pintada pelos olhos
vê-se um rabo de fora que gatinha
em busca de algum rato (a desoras)


pois um gato não caça no abstracto.


Domingos da Mota

05/10/2008

Ensaio sobre o amor

O amor dura sempre enquanto arde
e mesmo quando as cinzas já estão frias
o amor nem é cedo nem é tarde
o amor nunca tem as mãos vazias


o amor qual relâmpago à solta
atravessa a galope o coração
(e deixa tantas vezes a revolta
na boca e na lava do vulcão)


o amor pode ser o desengano
ou o delta de um rio até ao mar
o amor que se veste sem um pano
e apetece despir e mergulhar


o amor permanece enquanto houver
sede e fome entre o homem e a mulher




Domingos da Mota

28/09/2008

VOGANDO SOBRE O DOURO

escolhi esboçar este poema para uma grande festa
onde estivesse presente um livro glorioso
na vitrina do rio.
mas voltei-lhe as costas, fui até à Ribeira
e encontrei o Douro
rodeado de silêncios nascituros
num berço embalado.
nessa festa o livro refulgia à tona de água
como se nunca tivesse feito surf
e pediu-me atenção às frases feitas
e pediu perdão à vida por ainda estar aceso.
outros livros vieram acompanhá-lo desde Braga
e cada um entoava uma canção nocturna
e a lua não cessava de obscurecer a Ponte
que o Douro ganhou recentemente...


Fernando Morais


13.09.2008 (poema inédito)

03/09/2008

"ALMA ATÉ ALMEIDA"

Depois de Rimbaud
não se deve escrever
                   romântico
porque o seu canto
é o cântico do querer
a nova realidade


A "alma" passou a ser
como disse  Saguenail
o que faz viver o intestino
o coração  e as tripas
a mão e o raciocínio


Fernando Morais

in Um Estalo na Modorra, Poemas Insubmissos, Edição Palavra em Mutação, 2003

01/09/2008

No Vazio

Dou um salto no vazio
em cada passo que dou
num constante desafio
sem saber para onde vou.


Acerto o passo e caminho
na direcção pretendida
à procura do meu ninho
onde mora a minha vida...


Se chego já não está lá
se não chego nunca sei
para quê a caminhada...


a vida está mesmo má
e com os passos que dei
na vida não andei nada!


Silvestre Bastos Oliveira


in Meu Nascente, edição do Autor, 1997

29/08/2008

AUTÓPSIA DO POEMA

     "O poema, senhores,
      não fede
      nem cheira"


      Ferreira Gullar




o poema em seu todo
pode às vezes vir da flor
como pode vir do lodo


pode vir do olho do cu
mas também vem do sacrário
vem do vôo do urubu
ou do canto do canário


o poema é brinquedo
é recreio da palavra
o poema vem dos olhos
encovados de quem lavra
o chão a terra que não tem
o poema está a dez
o poema está a cem
bem no meio dos escolhos
ou na noite do meu bem (*)


o poema em qualquer parte
pouco importa onde está
pouco importa de onde vem
pode ser de deus a arte
praga do demo também


Júlio Saraiva


(*) "noite do meu bem" - alusão feita a uma canção composta e gravada por Dolores Duran, compositora e cantora brasileira da década de 1950.


(Poema publicado no blogue Luso-Poemas, e aqui transcrito, com a devida autorização do autor)


DM

30/07/2008

Quase Prece

que seja o poema
uivo de lobo
gorgeio de pássaro
arfar de montanha
rugido de mar
espinha cravada na garganta
dor nas costas
suor de cavador
aperto de mão
jogo de sueca
água
pão
noites de amor
desespero de náufrago
homem
mulher
suspeita de traição
notícia de chegada
anúncio de filho
surpresa de ser poema
angústia de ser poema
alegria de ser poema


Francisco Gonçalves de Oliveira


a carne e o sangue das palavras, Edição do Autor, Porto, 2001

29/07/2008

Código de Barras

era abril de 1974
soltavam-se as amarras.
hoje os políticos são só retrato
nós um código de barras.


Eduardo Roseira


a colheita íntima, lavra..., Boletim de Poesia, 2003