29 agosto 2008

AUTÓPSIA DO POEMA

     "O poema, senhores,
      não fede
      nem cheira"


      Ferreira Gullar




o poema em seu todo
pode às vezes vir da flor
como pode vir do lodo


pode vir do olho do cu
mas também vem do sacrário
vem do vôo do urubu
ou do canto do canário


o poema é brinquedo
é recreio da palavra
o poema vem dos olhos
encovados de quem lavra
o chão a terra que não tem
o poema está a dez
o poema está a cem
bem no meio dos escolhos
ou na noite do meu bem (*)


o poema em qualquer parte
pouco importa onde está
pouco importa de onde vem
pode ser de deus a arte
praga do demo também


Júlio Saraiva


(*) "noite do meu bem" - alusão feita a uma canção composta e gravada por Dolores Duran, compositora e cantora brasileira da década de 1950.


(Poema publicado no blogue Luso-Poemas, e aqui transcrito, com a devida autorização do autor)


DM