31 dezembro 2009

Outra Despedida

O canto, no momento decisivo,
por surgido espasmo
encalha, pára,
mesmo onde trepa
e a ebriedade
solta obsessão, insipiência.

- como se, ao chamar-se pelo nome,
tivesse tentado um gesto
e tivesse chegado ao centro
de um vazio ilimitado:
de lá, mexendo braços ou brânquias,
detém a orla
de uma terra friável.

- como se o fôlego viesse
de retículos nunca explorados
(e ele, o cantor,
andasse vísceras e pés)
rumo a um bem que já não tem nome
ou a um mal que desse bem
esfomeia e respira.

- como se a voz
fosse um deus solitário
sem mais trono nem aljava
e andasse rumo a lugares apagados
à procura de outras medidas.

- como um vórtice
enroscando-se se desfaz
num meandro
de vidro imponderável.

Elio Pecora

com a devida vénia, de POEMAS ESCOLHIDOS, Edições Quasi, Setembro de 2008

16 dezembro 2009

Sob epígrafe de T.S. Eliot - 1

     Let us go, through certain half-desert streets,
     The muttering retreats
     Of retless nights in one-night cheap hotels


     T.S. Eliot


1.


vem e desce comigo ao coração
da noite onde os teus sonhos se recolhem
e se dissolvem
como sal na água dos teus olhos


outra é a noite que sentes
como tua


não esta que pulsa na morte
das cegonhas


essoutra que te chama por teresa
inês julieta eurídice
que enfim te nomeia eterna


porque eterno o amor julgas


é uma noite de espelhos
onde o reverso te ilumina
como no verso de ungaretti
de imenso


porque tudo
tudo nela é ilusão


Xavier Zarco

29 outubro 2009

INCUBADORA

Era tão pequena a mão   que
Nem o seu dedo mendinho

Conseguia agarrar. Pesava
Quinhentos gramas e respirava

Sem a ajuda do ventilador
O coração da sua mãe quase

Que não batia    com receio de
Que ele sufocasse sob o peso

Do seu amor

Jorge Sousa Braga

com a devida vénia, de A FERIDA ABERTA, Assírio & Alvim, Lisboa, 2001

20 outubro 2009

Versões do mundo

Se tiveres de escolher um reino
escolhe o relento
a noite tem a brancura do alabastro
ou mais extraordinária ainda


Ao que vem depois de ti
cede o instante
sem pronunciar
seu nome

José Tolentino Mendonça

com a devida vénia, de O VIAJANTE SEM SONO, Assírio & Alvim, Lisboa, Setembro de 2009


15 outubro 2009

A Contraluz

Desnudo o meu olhar, este
olhar cerzido com longos,


longos fios num tear de luz:
nesse corpo aceso, ateado,


vivo, que amadura o fogo
e o fulgor - reluz: rútila


vertigem que amotina o trigo,
alucina o sol, e mesmo a


contraluz, ai dos olhos ávidos
(ai de mim cativo), quando chego


ao cimo de teus seios nus.


Domingos da Mota

14 outubro 2009

PORTO DE ABRIGO

É esta a cidade que o destino
te reservou. Uma cidade de


gente dura cuja maior
extravagância é um vaso


de sardinheiras na janela
de um ou outro edifício.


Tinhas sonhado com uma
cidade branca mais a sul...


Esta cidade não é uma cida-
de é um vício.


Jorge Sousa Braga


com a devida vénia, de PORTO DE ABRIGO, Assírio & Alvim, 2005

12 outubro 2009

Um poema de Álvaro de Campos

...
Dá-me lírios, lírios
E rosas também.
Dá-me rosas, rosas
E lírios também,
Crisântemos, dálias,
Violetas, e os girassóis
Acima de todas as flores...


com a devida vénia, de A RELIGIÃO DO GIRASSOL, uma antologia organizada por Jorge Sousa Braga, editora Assírio & Alvim, 2000

09 outubro 2009

A Era dos Vivos

Os vivos
não desistem
de viver
Os mortos também


Mohammed Al-As'Ad


com a devida vénia, de Pequena Antologia da Poesia Palestiniana Contemporânea, Edições Asa, Fevereiro de 2004

03 outubro 2009

Legenda

Quando a dor se levanta,
ergue o teu rosto:
as estrelas só nascem
a seguir ao sol-posto.


Glória de Sant'Anna

in Música ausente, 1954
com a devida vénia, de DiVersos - Poesia e Tradução: N.º 15 - Junho de 2009

17 setembro 2009

AOS VINDOUROS, SE OS HOUVER...

Vós que trabalhais só duas horas
a ver trabalhar a cibernética,
que não deixais o átomo a desoras
na gandaia, pois tendes uma ética;


que do amor sabeis o ponto e a vírgula
e vos engalfinhais livres de medo,
sem peçários, calendários, Pílula,
jaculatórias fora, tarde ou cedo;


computai, computai a nossa falha
sem perfurar demais vossa memória,
que nós fomos pràqui uma gentalha
a fazer passamanes com a história;


que nós fomos (fatal necessidade!)
quadrúmanos da vossa humanidade.


Alexandre O'Neill

com a devida vénia, de  DE OMBRO NA OMBREIRA, Publicações Dom Quixote, Setembro de 1969

12 setembro 2009

SOU UMA CRIATURA

Como esta pedra
de São Miguel
assim fria
assim dura
assim enxuta
assim refractária
assim totalmente
desanimada


Como esta pedra
é o meu pranto
que se não vê


A morte
desconta-se
vivendo


Giuseppe Ungaretti


com a devida vénia, de Sentimento do Tempo, Publicações Dom Quixote, Fevereiro de 1971

07 setembro 2009

A UM POETA

Não reveleis o sonho. A luz do dia
fere demais a alma, e oculta
a face esquece a sua chaga rubra.


A dor, amordaçando, purifica:
que ela te dê no sangue o novo alento
para outros voos de que sairás vencido


(mas entretanto vives...). E procura
haurir na solidão a graça, o prémio
daquele instante puro, essencial


a que não chega o vão rumor do tempo
desfigurado e vil... E já liberto
conhecerás tua verdade inteira


ouvindo alguém, sem corpo nem memória,
segredar-te as palavras invisíveis
de que é tecida a Noite - tua esperança.


Luís Amaro


com a devida vénia, de DIÁRIO ÍNTIMO, DÁDIVA E OUTROS POEMAS, &etc, 2006

03 setembro 2009

A Sagração dos Ossos

            a Bruno Tolentino




Considerai estes ossos
- tíbios, inúteis, apócrifos -
que sob a lápide dormem
sem prédica que os conforte.


Considerai: é o que sobra
de quem lhes serviu de invólucro
e agora já não se move
entre as tábuas do sarcófago.


Dormem sem túnica ou toga
e, quando muito, um lençol
lhes cobre as partes mais nobres
(as outras quedam-se à mostra,


não dos que estão aqui fora,
mas dos ácidos que os roem
ou do lodo que lhes molha
até a polpa esponjosa).


De quem foram tais despojos
tão nulos e sem memória,
tão sinistros quanto inglórios
em seu mutismo hiperbólico?


Onde andaram? Em que solo
deitaram sêmem e prole?
Foram químicos, astrólogos,
remendões, físicos, biólogos?


Ou nada foram? Que importa
não haja um só microscópio
lhes cevado a magra forma
ou a mais ínfima nódoa?


Existiram. Esse é o tópico
que aqui, afinal, se aborda.
E eis que o faço porque, ao toque
de meus dedos em seus bordos,


tais ossos como que imploram
a mim que os chore e os recorde,
que jamais os deixe à corda
da solidão que os enforca,


nem à sanha do antropólogo
que os vê, não como o espólio
do que foi amor ou ódio,
lascívia, miséria e glória,


mas como a lívida prova
de que o sonho foi-se embora
e dele só resta a escória
numa urna museológica.


E então me pergunto, a sós:
por que desdenhar o outrora
se nele é que ecoa a voz
do que, no futuro, aflora?


Não bastaria uma rótula
para atestar este cogito,
ergo sum, aqui e agora,
alheio a qualquer prosódia


ou língua em que se desdobre
essa falácia que aposta
no fundo abismo sem orlas
entre o que vive e que morre?


Baixa uma névoa viscosa
sobre as pálpebras da aurora.
E ali, de pé, sob a estola
de um macabro sacerdote,


sagro estes ossos que, póstumos,
recusam-se à própria sorte,
como a dizer-me nos olhos:
a vida é maior que a morte.




Ivan Junqueira


in Poemas Reunidos, Editora Record, 1999.


colhido, com a devida vénia, no blogue Poeira de Sebo, http://peneiradorato.blogspot.com

02 setembro 2009

O COPO DE HERÁCLITO

Serão ainda teus os objectos sobre a mesa?
A surpresa do pão, a evidência do lápis afiado,
aquele fulgor de pássaro sobrevoando a cama
coexistem sobre a mesa e eu pergunto
de quem são agora: o pão sempre fresco
aparece às vezes coberto de bolor e ao amanhecer
a neblina esconde o rio que passa sob a ponte
por onde passo: alguns quilómetros por hora
e deixas de correr em mim. O pão nos dentes
da saliva será teu, tu outro que rondas
os meus dias? O mesmo caderno e esta tinta
quando anoitece os teus olhos de quem são?
Ainda teus e desse outro que se vai tornando visível
e desarruma tudo o que eu sabia e o meu vestido?
Sobre a mesa o copo nunca bebe a mesma água.




Rosa Alice Branco


in O Mundo Não Acaba no Frio dos teus Ossos (pensa ela), Quasi Edições, Maio de 2009

01 setembro 2009

HERODES

                                                     para Miguel Viqueira




Gritam, mijam, cheiram a leite
azedo. Andam por aí
pelos colos das mães, montados
em burros poeirentos. E há um
que aqueles pretos dizem que há-de um dia
sentar no meu coxim o cu borrado.
Não sabem nada, uns e outros,
soltam vagidos que ninguém entende.
Dou-lhes na mona a uns
e os outros que passeiem.




Pedro Tamen


in Analogia e Dedos, Oceanos, ASA Editores, 2006

31 agosto 2009

ALDEBARAN

Toda a tarde colhi amoras num poema de Ginsberg,
mastigando-as com alguns pensamentos desordenados
que em ti se detinham - como numa paragem de autocarro.
Depois fizemos café numa velha cafeteira
arruinada
que Allen encontrara ao limpar as ervas
da sua nova casa de campo
em Berkeley. Enquanto bebíamos
expliquei-lhe as razões que tornavam o teu nome
impronunciável
e o escondiam numa estrela. Falei-lhe disso
e da tua indesmentível energia pélvica.
Sentiamo-nos ambos muito sós
a cortar em fatias sanduiches de realidade.


                                                                                                   25.3.91


Egito Gonçalves


in E NO ENTANTO MOVE-SE, Quetzal Editores, Lisboa, 1995

30 agosto 2009

CORVO

Poderás  ralhar nevermore
nos umbrais da poesia
cobiçar a capoeira
ao galo a cantar pelo menos
desde as cantigas de amigo:
de ti os vindouros sem penas
farão arroz de cabidela
ou quem sabe torpe gralha,
de corvo corruptela.


De ruínas farás sempre
uma torre habitada,
viela, balcão, taberna assombrada,
inútil propesto
de utilíssimo nada.




Rui Lage


in Corvo, Quasi Edições, Outubro de 2008

26 agosto 2009

SUB ROSA

                    para o Herberto Helder




Não somos os últimos, pois se
há coisa que o mundo sempre fez bem
foi acabar. De novo e sempre: acabar.


Mas já não trabalhamos com o ouro
e temos um certo pudor tardio
em falar de deus, do amor ou até do corpo.


As metáforas arrefecem, talvez contrariadas.
São casas devolutas, mães risonhas
ou sombrias cujo grito deixámos de escutar.


Do lixo, porém, temos um vasto
e inútil conhecimento. Possa
ele servir de rosa triste aos
que não cantam sequer, por delicadeza.




Manuel de Freitas


in Telhados de Vidro, N.º 12 . Maio. 2009, Averno

25 agosto 2009

de andrade

Há muitos no mapa. Esta cidade,
por exemplo: Eugénio.


Os barcos mal despertaram e o arado,
é sempre muito cedo, põe-se a escrever,


entre o vento e o milho,
versos de Shakespeare e Vergílio.




Eucanaã Ferraz


in Cinemateca, Quasi Edições, Fevereiro 2009

20 agosto 2009

DEUS EX MACHINA

Farei ainda mais um decassílabo
e mais um soneto e ainda por cima
invocarei, só por questão de rima,
figuras mitológicas, feito Ícaro,


cativo do labirinto que Dédalo,
seu pai, artífice também das asas
que brindariam ao filho, bipétalo,
seu mergulho no azul, arquitectou.


Dédalo explicou a precariedade
do artefacto de papel e casqueira,
geometria mística e goma-arábica


solúveis ao sol. Mas agora é tarde
e rasga a geringonça o céu à beira
do nada
              seu destino
                                 sua dádiva




Antonio Cícero


in A Cidade e os Livros, Quasi Edições, Fevereiro de 2006 (nesta versão, com algumas alterações indicadas pelo poeta)

19 agosto 2009

APANHADOR DE PÉROLAS

Às vezes a noite estende-se através da pele,
mas tu mergulhas até apanhar a pedra
lá no fundo
e uma clareira começa a abrir-se no buraco
por onde esvaziaste a noite.




Rosa Alice Branco


in DA ALMA E DOS ESPÍRITOS ANIMAIS, Campo das Letras - Editores, S.A., Julho de 2001

07 agosto 2009

código de hamurabi

Aos poetas prolixos, um
par de versos como cela.




José Mário Silva


in Luz Indecisa, Oceanos, Abril  2009

06 agosto 2009

TERRA NATAL

A bacia range sob o peso da roupa
que há muito a mãe já não lava
nas águas da terra natal.




Rui Lage


in Berçário, Quasi Edições, Maio de 2004

01 agosto 2009

AS SETE BICAS

O silêncio com as suas sete bicas
ou o lume anunciando a neve
sabem da cumplicidade
do sol e da cal, da boca e da sede.




Eugénio de Andrade


in PEQUENO FORMATO, edição da Fundação Eugénio de Andrade, Fevereiro de 1997

29 julho 2009

EPITÁFIO PARA VAMPIROS

Sob estas pedras jazem os vampiros!


A vida foi-lhes pródiga por séculos;
pisaram sempre a relva; mas agora,
finalmente, banidos, no silêncio,
mergulhados entre vermes e poeiras,
transformaram-se no húmus que não foram.


Os homens amavam sem serenidade;
as mulheres não tinham filhos sem remorsos.


Sob estas pedras jazem. Com o sangue
bebido aos que buscavam as estrelas,
inventaram alguns Deuses protectores,
fizeram sobretudos contra o ódio,
gizaram itinerários de assassínio.


A vida era alguns pássaros, por vezes,
logo engolidos pelo pesadelo.


A morte veio, fulminante, certa,
com os olhos inflexíveis dos famintos.
Violenta, como a Deusa da Vingança,
extinguiu no ar, por uma vez,
o grito de rapina dos seus voos.


É doce a hora
de que os ponteiros já não ceifam sonhos.




Egito Gonçalves


in SONHAR A TERRA LIVRE E INSUBMISSA..., Editorial Inova, Porto, Fevereiro de 1973

26 julho 2009

6. OS LÁBIOS DO TEMPO

Regresso às coisas simples
como se aprendesse o alfabeto
e tu me ensinasses a soletrar
a árvore onde damos sombra
o fruto que alimentamos com os lábios.
Ao meio-dia
o entardecer cavalga sobre nós
e à mesma hora
a noite chega com um traço
que afaga as cores da sombra.
É assim que alimentamos o tempo
e os animais sentam-se à espera das sobras
para escreverem a nossa história.




Rosa Alice Branco


in "O ÚNICO TRAÇO DO PINCEL", Editora LIMIAR, Abril 1997

Prosa para 2006

Eco-Doppler: trombose, flebite,
coágulo venoso e tutti quanti
(a prosa que me tira o apetite,
com o peso pesado da semântica);


descaso, verso torto, pé-quebrado,
e a veia oclusiva, sem gramática,
rima a desmemória do passado
co'a perna pensativa, sorumbática;


o stresse, a gastrite, a luxação,
a dor de cotovelo, a miopia
ameaçam trazer à colação
o risco de fazer uma embolia.


E apesar de tantos desenganos
bem-vindos sejam os meus sessenta anos.




Domingos da Mota


(a partir da leitura do POEMA PARA 2002, de Antonio Carlos Secchin, in Todos os Ventos, Quasi Edições, Novembro de 2005), e publicado na revista DiVersos - Poesia e Tradução: N.º 15 - Junho de 2009, Edições Sempre-em-Pé

14 julho 2009

TUBO DE ENSAIO

Ponho meu sonho
Dentro do frasco
De vidro. A vida,
No fundo, fica.


Um outro pranto
Quer vir à tona.
Aquela dúvida
Que tanto apronta?


Todo meu mundo
Torna-se visto,
Quando, no filtro
De papel, brilho.


Adriano Nunes


(inédito)


para um melhor conhecimento deste poeta brasileiro, veja-se o seu blog http://astripasdoverso.blogspot.com/ QUEFAÇOCOMOQUENÃOFAÇO, e a entrevista que deu, no blog
http://peneiradorato.blogspot.com/ POEIRA DE SEBO

08 julho 2009

QUEBRADA

Hora da alcateia na praça.
Sigo
o hálito transbordante
da desordem.


Uma lua de cobre
em sua órbita pedestre
poderia.


Inscrito  na linhagem
do círculo,
salto possibilidades e geometria.


Invado a zona secreta
da casa da intolerância,
turva escrita de decretos
para burla e tédio.


Encurralado no escuro,
derrubo o rumor de qualquer traçado.


Órbita pessoal possível:
à deriva, ao léu, ilegível,
apenas o imprevisto por caminho.


José Antônio Cavalcanti


Retirado, com a devida autorização do autor, do seu blog http://poemargens.blogspot.com/

06 julho 2009

[Finalmente um poema?]

Quando nos deitamos, amor,
sobre a cama fofa dos séculos
eu não olho para a lua
nem penso em livros complicados.


Sinto a tua pele, o teu buço
e o fim da história no púbis.
Depois enrolamo-nos, fingimos
que esta vida é nossa
ou que um cronometrado orgasmo
redime a pobreza simples dos dias.


É a altura, amor, em que dou
por mim a acender os cigarros
solicitamente uns nos outros,
à espera que tudo acabe
- os poemas, a vidinha, o mais -
e que o arroto seja teu,
minha ânfora de cetim tão roxa.


ANÓNIMO (?)


de Bardamerda - Poemas Citacionistas Contemporâneos, Lisboa & etc, 1999
in POETAS SEM QUALIDADES 1994-2002, Averno, Novembro de 2002

05 julho 2009

y_

ypslom, xis, zê, como na antiguidade de alfa a omega as
                                                                                [pestanas
dos
olhos dos deuses caem como grandes pedregulhos
ouvindo-se em todo o universo e a folia
de andar de bicicleta num precipício faz
lembrar o quão relativo é o ser humano na deambulação
desesperada à frente da última versão da
play-station


Vindeirinho


in POETAS SEM QUALIDADES 1994-2002, Averno, Novembro de 2002

04 julho 2009

Não é tarde

O amor é como o fogo, não se propaga
onde o ar escasseia. Mas não te preocupes,
eu fecho mais a porta.


Gestos e paveias, acendalhas, o isqueiro
funciona! Poderoso combustível
é o corpo. Acende deste lado.


Ainda não é tarde, foi agora anunciado
pela rádio, são dezoito e vinte e cinco.
Respira-nos, repara, a ilusão


de que a vida não se esgota, como os saldos
de verão. E a morte, à medida que te despes,
vai perdendo o nosso número de telefone.


José Miguel Silva


de Ulisses Já Não Mora Aqui, Lisboa, & etc, 2002
in POETAS SEM QUALIDADES 1994-2002, Averno, Novembro de 2002

30 junho 2009

Sumo de Laranja

A tarde fria arrasta-nos para dentro da cama.
Aos poucos deixamo-nos ficar... ...por ali.


Fixo a fraca coluna de sol mergulhar pelo vidro da janela
e sustentar-se friamente no soalho silencioso.
As tuas costas flutuam amparadas no colchão.


Lentamente deixas cair o braço para fora da cama.
Sorrio não só por te sentir adormecida
mas também por a tua pulsação ser como uma balada,
- o seu refrão será sempre um refresco -
e as suas melodias ainda que electrónicas
estarão sempre à nossa espera
nos head-phones abandonados
sobre a mesa de cabeceira.

João Miguel Queirós

in POETAS SEM QUALIDADES 1994-2002, Averno, Novembro de 2002

27 junho 2009

Cantiga

as palavras repousam fermentadas
na geometria do meu lugar


é uma guerra e está dentro de mim
como um bicho emboscado


agora já tenho quatro versos turvos
e uma dor longínqua no intervalo
dos ossos


com o que sobra
invento outra mitologia


Rui Pires Cabral


de Geografia das Estações, Vila Real, Edição do Autor, 1994
in POETAS SEM QUALIDADES 1994-2002, Averno, Novembro 2002

25 junho 2009

o tamanho e o peso das frases

Chego à janela com palavras românticas
O mar é um azulejo, fecho-a.
As lágrimas, que porra, as lágrimas
Já não sinto os pés.
Bailado de quem tem a cabeça aureolada.


Fala e não ouço senão louça, televisores.
Ruídos que me chegam pela janela
Como se fossem diálogos
Mas que não passam de desprezo
De desprezo, de abreviaturas.


As mãos, para que servem as mãos nesse linguajar
As mãos são preconceitos, abismos, promessas.


Carlos Luís Bessa


de Termómetro-Diário
in POETAS SEM QUALIDADES 1994-2002, Averno, Novembro de 2002

14 junho 2009

[queria que me acompanhasses]

queria que me acompanhasses
vida fora
como uma vela
que me descobrisse o mundo
mas situo-me no lado incerto
onde bate o vento
e só te posso ensinar
nomes de árvores
cujo fruto se colhe numa próxima estação
por onde os comboios estendem
silvos aflitos


Ana Paula Inácio


de Vago Pressentimento Azul por Cima, Porto, Ilhas, 2000
in POETAS SEM QUALIDADES 1994-2002, Averno, Novembro de 2002

11 junho 2009

[Trago no bolso]

Trago no bolso
os meus tesouros:
Cabeça de Boi
Cabeça de Vaca
Contra-Mundo
e Papa.
Licenças e
Abafadores.
Pequenos
universos
de vidro
à deriva.


Carlos Alberto Machado


de Mundo de Aventuras, Évora, Ataegina, 2000
in POETAS SEM QUALIDADES 1994-2000, Averno, Novembro de 2002

08 junho 2009

[põe um disco a correr. a chuva não demora]

põe um disco a correr. a chuva não demora
mais que o esvaziar das nuvens se te
confessasse as coisas que já atirei ao mar
(o revólver do crime palavras numa garrafa)


não darei nome ao poema seria como quem
coloca legenda aos dias e eu: sou como
água (tomando forma nos lugares que molha)


vou repetir (para quem só agora ligou
este poema:) no cesto de frutos da mãe
as estações do ano sucedem-se e o disco


era um disco tão antigo tão antigo que
a certa alturantigo tão antigo que a
certa alturantigo tão antigo que a certa
alturantigo tão antigo que


João Luís Barreto Guimarães


in ESTE LADO PARA CIMA, Editora LIMIAR, Novembro 1994

03 junho 2009

TROCOS

há casas que não ouço, protejo-me
no vão das portas
rua a rua


no bolso dois grãos de trigo
para que o vento pare




João Almeida


in Telhados de Vidro, n.º 11. Novembro. 2008, Averno

23 maio 2009

O TRISTE

Guardou esta manhã
para chorar longamente,
o que não fazia há muito.


Não porque setembro,
não por um fato específico,
um isto que fosse. Ou,


de tão antigo, seria um motivo que
não recordava e agora o hálito de seu abraço
frio e sem rosto?


Guardou, para tal manhã,
olhos e boca. Mas o rápido,
repentino sumo de uma luz


pelas frestas veio dar  nos livros,
o telefone, crianças lá fora, jornais
e talvez, e ainda.


Manhã tão breve.
Quem sabe, depois, outubro.
Hoje, não houve tempo.




Eucanaã Ferraz


in Rua do Mundo, Quasi Edições, Janeiro 2007

10 maio 2009

LAGARTIXA

Corro colada ao chão
um discurso sem pernas
e em busca do calor
ligo o solo e o sol.


Depois de morta mexo.
Mas sei que logo após
a ponta do meu corpo
também se queda morta.


Ergo a cabeça azul
ao azul e ao brilho
e rojo pelo pó
o pó que vou andando.


No frio do meu sangue
tenho a premonição
do lixo que na terra
em terra se fará.


Meneio, pois: meneio
qual se tivesse rins.
Mas de nada me escapo,
nem mesmo do buraco.




Pedro Tamen


in Analogia e Dedos, Oceanos, ASA Editores, 2006

02 maio 2009

O SR. LOPES E A PLACA

Raro o dia em que não passam a polir
a placa nova à
porta do gabinete do que agora
é director. Há nome novo na chapa. Nem
um halo embaciado (sequer
uma mancha opaca)
há-de rasurar o brilho que ofusca
o corredor: o
Lopes  foi a director.
De tanto afagar a lápide (de a
lamberem com o pano)
o próprio nome se gasta:
já não estará
lá para o ano.




João Luís Barreto Guimarães

in A Parte pelo Todo, edições Quasi, Março 2009

28 abril 2009

[Azimuto a minha barca]

Azimuto a minha barca
e o porto é onde já estou.
Esta chuva que me encharca
é a que nunca pingou.


Olho pra trás desasado
das asas que nunca tive.
Não há mudanças de estado
na descida do declive.


Pedro que sou, reduzo
o sapato em que me meto
a moído parafuso
e a desgosto secreto.


Desalimento a certeza,
aperto a chave ao sorriso,
lavo a loiça, ponho a mesa,
falo faceto, agonizo.




Pedro Tamen


in Memória Indescritível, Gótica, Lisboa / 2000, Setembro de 2000

27 abril 2009

[Extingue-se o dia]

Extingue-se o dia
mas não o canto
da cotovia


Matsuo Bashô


in O GOSTO SOLITÁRIO DO ORVALHO, versões de Jorge  de Sousa Braga, editora Assírio & Alvim, Fevereiro de 1986

25 abril 2009

magnum opus

Um verso apenas - ou menos ainda.




José Mário Silva


in Luz Indecisa, Oceanos, Abril  2009

23 abril 2009

SE ME DETIVESSE

Se me detivesse
neste quarto     em pleno dia
o rumor do silêncio branco
poderia encher
um tronco
de silêncio
até à fronte
Assim seria a curva
branca
do dia
do poema




António Ramos Rosa


in NOS SEUS OLHOS DE SILÊNCIO, publicações dom quixote, Setembro de 1970

20 abril 2009

MULHER

Metade mulher  metade pássaro
Metade anémona  metade névoa

Metade água  metade mágoa
Metade silêncio  metade búzio

Metade manhã  metade fogo
Metade jade  metade tarde

Metade mulher  metade sonho


Jorge Sousa Braga

in A FERIDA ABERTA, editora Assírio & Alvim, Maio 2001

BREVE PARÁBOLA CATALÃ

O elevador para Barcino
é igual à vida: apenas desce.




Manuel de Freitas


in Telhados de Vidro, N.º 8 . Maio . 2007, Averno

16 abril 2009

A avó

Tinha ao colo o gato velho
cansadamente passando
a sua branca mão pelo
pêlo dele preto e brando


Sentada ao pé da janela
olhando a rua ou sonhando-a
todo o passado passando
a passos lentos por ela


Dormiram ambos enquanto
a tarde se ia acabando
o gato dormindo por fora
a avó dormindo por dentro




Manuel António Pina


in OS LIVROS, editora Assírio & Alvim, Novembro 2003

15 abril 2009

GATO DOMÉSTICO

«Agrada-me estar entre mulheres bonitas.
Para quê mentir sobre coisas destas?
Volto a dizê-lo:
Agrada-me conversar com mulheres bonitas
Embora não digamos senão tolices.


O ronronar das invisíveis antenas
É estimulante e delicioso ao mesmo tempo.»


Ezra Pound


in ASSINAR A PELE, antologia de poesia contemporânea sobre gatos, organização, João Luís Barreto Guimarães, editora Assírio & Alvim, Novembro 2001

13 abril 2009

A SECRETA IDADE

Atravessei as dilaceradas lâmpadas da insónia
Conheci o amargo amargo do livro cego
E os andrajosos pássaros da adolescência
Cheguei à secreta idade da ignorância
E a poeira da dança cobre os meus cabelos
Como se fosse um deus desfeito E o perfume do prodígio
Liberta-se por vezes não como uma cinza última
Mas como um sopro mais alto do que o mar
No alento do livro toco os ardentes limites
Da terra Já não sei se vivi Estou no círculo branco
Rodeado de musicais andaimes A minha voz é o corpo
Que adere à redondez profunda
Do intacto




António Ramos Rosa


in António Ramos Rosa e Casimiro de Brito, DUAS ÁGUAS, UM RIO, edições Quasi, 2002

[Branco no branco, cantou]

Branco no branco, cantou
Bashô. Despes o vestido,
dispo o teu corpo.
A tua sombra na parede
branca. Sorris.
Apagas a luz.
Sabes que a tela da tua pele
me vai iluminar.
Debruças-te no meu peito:
sabes  que o teu hálito me vai
acender. Branco
no branco.
Derramados
um no outro. Quem é luz?
Quem é sombra?
A cotovia
começa a cantar.




Casimiro de Brito


in 69 Poemas de  Amor, 2009

12 abril 2009

APENAS AREIA

Sou o pó
E vou no vento

Através de rios
E montes
Vou no vento

E talvez eu pouse
Talvez encontre

O mel as areias
Do teu corpo
Trazidas pelo vento.


Casimiro de Brito

in António Ramos Rosa e Casimiro de Brito, DUAS ÁGUAS, UM RIO, edições Quasi, 2002