31 março 2009

MANUEL ANTÓNIO PINA "A POESIA VAI"

A poesia vai acabar, os poetas
vão ser colocados em lugares mais úteis.
Por exemplo observadores dos pássaros
enquanto os pássaros não
acabarem.  Esta certeza  tive-a hoje ao
entrar numa  repartição pública,
um senhor míope atendia devagar
ao balcão, eu perguntei:  «Que fez  algum
poeta por este senhor?»  E a pergunta
afligiu-me tanto por dentro e por
fora da cabeça que tive que voltar a ler
toda a poesia desde o princípio do mundo.
Uma pergunta numa cabeça  como uma co-
roa de espinhos:  estão todos
a ver onde o autor quer chegar?


Manuel António Pina


de  AINDA NÃO É O FIM NEM O PRINCÍPIO  DO MUNDO CALMA É APENAS UM POUCO TARDE, 2.ª edição, a erva daninha, Novembro de 1982

28 março 2009

ANTONIO CÍCERO "A MULHER DOS CRISÂNTEMOS"

As flores transbordam do seu vaso à mesa,
um pouco à esquerda da tela cujas beiras
por pouco elas não ultrapassam, invadindo
a moldura. Também o seu colorido
quase abandona a paleta da pintura
(é que o jovem mestre ostenta sprezzatura),
mas apenas quase. O olhar passa por elas,
pousa aqui, pousa ali, hesitante abelha,
visita, à esquerda do vaso, um jarro d'água,
nota um lenço largado sobre a toalha
bordada da mesa e ruma ao lado oposto
da tela, para uma mulher cujos olhos
o ignoram, distraída talvez por algo
que se acha fora não somente do quadro
em que é percebida, mas também daquele
em que nos perceberia, se quisesse.
Sem saber por que, o olhar não mais a quer
largar. Diga-se a verdade: essa mulher
deixa a desejar. Ela não se compara
aos crisântemos que lhe deram a fama
a que mal faz jus, já que se encontra à margem
do quadro e nem sequer inteira, só em parte.
Dela está bem mais presente ali a ausência
que a presença. E, dado que a ausência é protéica
e tudo nada, o olhar mal mergulha em sua
vertiginosa superfície e flutua
de volta às flores sobre o fundo castanho
do papel de parede; depois, da capo.


ANTONIO CÍCERO



     O tempo que se leva para fazer uma obra de arte é um tempo concreto que não se deixa reduzir a um tempo abstrato, mensurável, pois o tempo concreto é singular, irreprodutível, incomensurável. É por isso que não se pode calcular quanto tempo se vai levar para pintar um quadro ou fazer um poema.. Dado que é também num tempo concreto que se aprecia uma obra de arte, não se pode calcular quanto tempo se vai levar para apreciá-la: seja para ver de verdade uma pintura, seja para ler de verdade um poema. Tanto num quanto noutro caso, é preciso passar e repassar, parar e seguir pelos mesmos pontos e por outros. Sugiro que é da mesma natureza o ato de apreciação de uma pintura e o ato de apreciação de um poema.






in relâmpago, Revista de Poesia, Poesia e Artes Visuais, n.º 23  10/2008 (com  variações posteriores à publicação na Revista, por indicação do poeta)