23 maio 2009

O TRISTE

Guardou esta manhã
para chorar longamente,
o que não fazia há muito.


Não porque setembro,
não por um fato específico,
um isto que fosse. Ou,


de tão antigo, seria um motivo que
não recordava e agora o hálito de seu abraço
frio e sem rosto?


Guardou, para tal manhã,
olhos e boca. Mas o rápido,
repentino sumo de uma luz


pelas frestas veio dar  nos livros,
o telefone, crianças lá fora, jornais
e talvez, e ainda.


Manhã tão breve.
Quem sabe, depois, outubro.
Hoje, não houve tempo.




Eucanaã Ferraz


in Rua do Mundo, Quasi Edições, Janeiro 2007

10 maio 2009

LAGARTIXA

Corro colada ao chão
um discurso sem pernas
e em busca do calor
ligo o solo e o sol.


Depois de morta mexo.
Mas sei que logo após
a ponta do meu corpo
também se queda morta.


Ergo a cabeça azul
ao azul e ao brilho
e rojo pelo pó
o pó que vou andando.


No frio do meu sangue
tenho a premonição
do lixo que na terra
em terra se fará.


Meneio, pois: meneio
qual se tivesse rins.
Mas de nada me escapo,
nem mesmo do buraco.




Pedro Tamen


in Analogia e Dedos, Oceanos, ASA Editores, 2006

02 maio 2009

O SR. LOPES E A PLACA

Raro o dia em que não passam a polir
a placa nova à
porta do gabinete do que agora
é director. Há nome novo na chapa. Nem
um halo embaciado (sequer
uma mancha opaca)
há-de rasurar o brilho que ofusca
o corredor: o
Lopes  foi a director.
De tanto afagar a lápide (de a
lamberem com o pano)
o próprio nome se gasta:
já não estará
lá para o ano.




João Luís Barreto Guimarães

in A Parte pelo Todo, edições Quasi, Março 2009