30 junho 2009

Sumo de Laranja

A tarde fria arrasta-nos para dentro da cama.
Aos poucos deixamo-nos ficar... ...por ali.


Fixo a fraca coluna de sol mergulhar pelo vidro da janela
e sustentar-se friamente no soalho silencioso.
As tuas costas flutuam amparadas no colchão.


Lentamente deixas cair o braço para fora da cama.
Sorrio não só por te sentir adormecida
mas também por a tua pulsação ser como uma balada,
- o seu refrão será sempre um refresco -
e as suas melodias ainda que electrónicas
estarão sempre à nossa espera
nos head-phones abandonados
sobre a mesa de cabeceira.

João Miguel Queirós

in POETAS SEM QUALIDADES 1994-2002, Averno, Novembro de 2002

27 junho 2009

Cantiga

as palavras repousam fermentadas
na geometria do meu lugar


é uma guerra e está dentro de mim
como um bicho emboscado


agora já tenho quatro versos turvos
e uma dor longínqua no intervalo
dos ossos


com o que sobra
invento outra mitologia


Rui Pires Cabral


de Geografia das Estações, Vila Real, Edição do Autor, 1994
in POETAS SEM QUALIDADES 1994-2002, Averno, Novembro 2002

25 junho 2009

o tamanho e o peso das frases

Chego à janela com palavras românticas
O mar é um azulejo, fecho-a.
As lágrimas, que porra, as lágrimas
Já não sinto os pés.
Bailado de quem tem a cabeça aureolada.


Fala e não ouço senão louça, televisores.
Ruídos que me chegam pela janela
Como se fossem diálogos
Mas que não passam de desprezo
De desprezo, de abreviaturas.


As mãos, para que servem as mãos nesse linguajar
As mãos são preconceitos, abismos, promessas.


Carlos Luís Bessa


de Termómetro-Diário
in POETAS SEM QUALIDADES 1994-2002, Averno, Novembro de 2002

14 junho 2009

[queria que me acompanhasses]

queria que me acompanhasses
vida fora
como uma vela
que me descobrisse o mundo
mas situo-me no lado incerto
onde bate o vento
e só te posso ensinar
nomes de árvores
cujo fruto se colhe numa próxima estação
por onde os comboios estendem
silvos aflitos


Ana Paula Inácio


de Vago Pressentimento Azul por Cima, Porto, Ilhas, 2000
in POETAS SEM QUALIDADES 1994-2002, Averno, Novembro de 2002

11 junho 2009

[Trago no bolso]

Trago no bolso
os meus tesouros:
Cabeça de Boi
Cabeça de Vaca
Contra-Mundo
e Papa.
Licenças e
Abafadores.
Pequenos
universos
de vidro
à deriva.


Carlos Alberto Machado


de Mundo de Aventuras, Évora, Ataegina, 2000
in POETAS SEM QUALIDADES 1994-2000, Averno, Novembro de 2002

08 junho 2009

[põe um disco a correr. a chuva não demora]

põe um disco a correr. a chuva não demora
mais que o esvaziar das nuvens se te
confessasse as coisas que já atirei ao mar
(o revólver do crime palavras numa garrafa)


não darei nome ao poema seria como quem
coloca legenda aos dias e eu: sou como
água (tomando forma nos lugares que molha)


vou repetir (para quem só agora ligou
este poema:) no cesto de frutos da mãe
as estações do ano sucedem-se e o disco


era um disco tão antigo tão antigo que
a certa alturantigo tão antigo que a
certa alturantigo tão antigo que a certa
alturantigo tão antigo que


João Luís Barreto Guimarães


in ESTE LADO PARA CIMA, Editora LIMIAR, Novembro 1994

03 junho 2009

TROCOS

há casas que não ouço, protejo-me
no vão das portas
rua a rua


no bolso dois grãos de trigo
para que o vento pare




João Almeida


in Telhados de Vidro, n.º 11. Novembro. 2008, Averno