29 julho 2009

EPITÁFIO PARA VAMPIROS

Sob estas pedras jazem os vampiros!


A vida foi-lhes pródiga por séculos;
pisaram sempre a relva; mas agora,
finalmente, banidos, no silêncio,
mergulhados entre vermes e poeiras,
transformaram-se no húmus que não foram.


Os homens amavam sem serenidade;
as mulheres não tinham filhos sem remorsos.


Sob estas pedras jazem. Com o sangue
bebido aos que buscavam as estrelas,
inventaram alguns Deuses protectores,
fizeram sobretudos contra o ódio,
gizaram itinerários de assassínio.


A vida era alguns pássaros, por vezes,
logo engolidos pelo pesadelo.


A morte veio, fulminante, certa,
com os olhos inflexíveis dos famintos.
Violenta, como a Deusa da Vingança,
extinguiu no ar, por uma vez,
o grito de rapina dos seus voos.


É doce a hora
de que os ponteiros já não ceifam sonhos.




Egito Gonçalves


in SONHAR A TERRA LIVRE E INSUBMISSA..., Editorial Inova, Porto, Fevereiro de 1973

26 julho 2009

6. OS LÁBIOS DO TEMPO

Regresso às coisas simples
como se aprendesse o alfabeto
e tu me ensinasses a soletrar
a árvore onde damos sombra
o fruto que alimentamos com os lábios.
Ao meio-dia
o entardecer cavalga sobre nós
e à mesma hora
a noite chega com um traço
que afaga as cores da sombra.
É assim que alimentamos o tempo
e os animais sentam-se à espera das sobras
para escreverem a nossa história.




Rosa Alice Branco


in "O ÚNICO TRAÇO DO PINCEL", Editora LIMIAR, Abril 1997

Prosa para 2006

Eco-Doppler: trombose, flebite,
coágulo venoso e tutti quanti
(a prosa que me tira o apetite,
com o peso pesado da semântica);


descaso, verso torto, pé-quebrado,
e a veia oclusiva, sem gramática,
rima a desmemória do passado
co'a perna pensativa, sorumbática;


o stresse, a gastrite, a luxação,
a dor de cotovelo, a miopia
ameaçam trazer à colação
o risco de fazer uma embolia.


E apesar de tantos desenganos
bem-vindos sejam os meus sessenta anos.




Domingos da Mota


(a partir da leitura do POEMA PARA 2002, de Antonio Carlos Secchin, in Todos os Ventos, Quasi Edições, Novembro de 2005), e publicado na revista DiVersos - Poesia e Tradução: N.º 15 - Junho de 2009, Edições Sempre-em-Pé

14 julho 2009

TUBO DE ENSAIO

Ponho meu sonho
Dentro do frasco
De vidro. A vida,
No fundo, fica.


Um outro pranto
Quer vir à tona.
Aquela dúvida
Que tanto apronta?


Todo meu mundo
Torna-se visto,
Quando, no filtro
De papel, brilho.


Adriano Nunes


(inédito)


para um melhor conhecimento deste poeta brasileiro, veja-se o seu blog http://astripasdoverso.blogspot.com/ QUEFAÇOCOMOQUENÃOFAÇO, e a entrevista que deu, no blog
http://peneiradorato.blogspot.com/ POEIRA DE SEBO

08 julho 2009

QUEBRADA

Hora da alcateia na praça.
Sigo
o hálito transbordante
da desordem.


Uma lua de cobre
em sua órbita pedestre
poderia.


Inscrito  na linhagem
do círculo,
salto possibilidades e geometria.


Invado a zona secreta
da casa da intolerância,
turva escrita de decretos
para burla e tédio.


Encurralado no escuro,
derrubo o rumor de qualquer traçado.


Órbita pessoal possível:
à deriva, ao léu, ilegível,
apenas o imprevisto por caminho.


José Antônio Cavalcanti


Retirado, com a devida autorização do autor, do seu blog http://poemargens.blogspot.com/

06 julho 2009

[Finalmente um poema?]

Quando nos deitamos, amor,
sobre a cama fofa dos séculos
eu não olho para a lua
nem penso em livros complicados.


Sinto a tua pele, o teu buço
e o fim da história no púbis.
Depois enrolamo-nos, fingimos
que esta vida é nossa
ou que um cronometrado orgasmo
redime a pobreza simples dos dias.


É a altura, amor, em que dou
por mim a acender os cigarros
solicitamente uns nos outros,
à espera que tudo acabe
- os poemas, a vidinha, o mais -
e que o arroto seja teu,
minha ânfora de cetim tão roxa.


ANÓNIMO (?)


de Bardamerda - Poemas Citacionistas Contemporâneos, Lisboa & etc, 1999
in POETAS SEM QUALIDADES 1994-2002, Averno, Novembro de 2002

05 julho 2009

y_

ypslom, xis, zê, como na antiguidade de alfa a omega as
                                                                                [pestanas
dos
olhos dos deuses caem como grandes pedregulhos
ouvindo-se em todo o universo e a folia
de andar de bicicleta num precipício faz
lembrar o quão relativo é o ser humano na deambulação
desesperada à frente da última versão da
play-station


Vindeirinho


in POETAS SEM QUALIDADES 1994-2002, Averno, Novembro de 2002

04 julho 2009

Não é tarde

O amor é como o fogo, não se propaga
onde o ar escasseia. Mas não te preocupes,
eu fecho mais a porta.


Gestos e paveias, acendalhas, o isqueiro
funciona! Poderoso combustível
é o corpo. Acende deste lado.


Ainda não é tarde, foi agora anunciado
pela rádio, são dezoito e vinte e cinco.
Respira-nos, repara, a ilusão


de que a vida não se esgota, como os saldos
de verão. E a morte, à medida que te despes,
vai perdendo o nosso número de telefone.


José Miguel Silva


de Ulisses Já Não Mora Aqui, Lisboa, & etc, 2002
in POETAS SEM QUALIDADES 1994-2002, Averno, Novembro de 2002