04 julho 2009

Não é tarde

O amor é como o fogo, não se propaga
onde o ar escasseia. Mas não te preocupes,
eu fecho mais a porta.


Gestos e paveias, acendalhas, o isqueiro
funciona! Poderoso combustível
é o corpo. Acende deste lado.


Ainda não é tarde, foi agora anunciado
pela rádio, são dezoito e vinte e cinco.
Respira-nos, repara, a ilusão


de que a vida não se esgota, como os saldos
de verão. E a morte, à medida que te despes,
vai perdendo o nosso número de telefone.


José Miguel Silva


de Ulisses Já Não Mora Aqui, Lisboa, & etc, 2002
in POETAS SEM QUALIDADES 1994-2002, Averno, Novembro de 2002

1 comentário:

CECILE PETROVISK disse...

Domingo,

Que belíssimo poema! Um dia, posta-lo-ei em meu blog! Com a devida citação e permissão!


Abraços,
Cecile