17/09/2009

AOS VINDOUROS, SE OS HOUVER...

Vós que trabalhais só duas horas
a ver trabalhar a cibernética,
que não deixais o átomo a desoras
na gandaia, pois tendes uma ética;


que do amor sabeis o ponto e a vírgula
e vos engalfinhais livres de medo,
sem peçários, calendários, Pílula,
jaculatórias fora, tarde ou cedo;


computai, computai a nossa falha
sem perfurar demais vossa memória,
que nós fomos pràqui uma gentalha
a fazer passamanes com a história;


que nós fomos (fatal necessidade!)
quadrúmanos da vossa humanidade.


Alexandre O'Neill

com a devida vénia, de  DE OMBRO NA OMBREIRA, Publicações Dom Quixote, Setembro de 1969

12/09/2009

SOU UMA CRIATURA

Como esta pedra
de São Miguel
assim fria
assim dura
assim enxuta
assim refractária
assim totalmente
desanimada


Como esta pedra
é o meu pranto
que se não vê


A morte
desconta-se
vivendo


Giuseppe Ungaretti


com a devida vénia, de Sentimento do Tempo, Publicações Dom Quixote, Fevereiro de 1971

07/09/2009

A UM POETA

Não reveleis o sonho. A luz do dia
fere demais a alma, e oculta
a face esquece a sua chaga rubra.


A dor, amordaçando, purifica:
que ela te dê no sangue o novo alento
para outros voos de que sairás vencido


(mas entretanto vives...). E procura
haurir na solidão a graça, o prémio
daquele instante puro, essencial


a que não chega o vão rumor do tempo
desfigurado e vil... E já liberto
conhecerás tua verdade inteira


ouvindo alguém, sem corpo nem memória,
segredar-te as palavras invisíveis
de que é tecida a Noite - tua esperança.


Luís Amaro


com a devida vénia, de DIÁRIO ÍNTIMO, DÁDIVA E OUTROS POEMAS, &etc, 2006

03/09/2009

A Sagração dos Ossos

            a Bruno Tolentino




Considerai estes ossos
- tíbios, inúteis, apócrifos -
que sob a lápide dormem
sem prédica que os conforte.


Considerai: é o que sobra
de quem lhes serviu de invólucro
e agora já não se move
entre as tábuas do sarcófago.


Dormem sem túnica ou toga
e, quando muito, um lençol
lhes cobre as partes mais nobres
(as outras quedam-se à mostra,


não dos que estão aqui fora,
mas dos ácidos que os roem
ou do lodo que lhes molha
até a polpa esponjosa).


De quem foram tais despojos
tão nulos e sem memória,
tão sinistros quanto inglórios
em seu mutismo hiperbólico?


Onde andaram? Em que solo
deitaram sêmem e prole?
Foram químicos, astrólogos,
remendões, físicos, biólogos?


Ou nada foram? Que importa
não haja um só microscópio
lhes cevado a magra forma
ou a mais ínfima nódoa?


Existiram. Esse é o tópico
que aqui, afinal, se aborda.
E eis que o faço porque, ao toque
de meus dedos em seus bordos,


tais ossos como que imploram
a mim que os chore e os recorde,
que jamais os deixe à corda
da solidão que os enforca,


nem à sanha do antropólogo
que os vê, não como o espólio
do que foi amor ou ódio,
lascívia, miséria e glória,


mas como a lívida prova
de que o sonho foi-se embora
e dele só resta a escória
numa urna museológica.


E então me pergunto, a sós:
por que desdenhar o outrora
se nele é que ecoa a voz
do que, no futuro, aflora?


Não bastaria uma rótula
para atestar este cogito,
ergo sum, aqui e agora,
alheio a qualquer prosódia


ou língua em que se desdobre
essa falácia que aposta
no fundo abismo sem orlas
entre o que vive e que morre?


Baixa uma névoa viscosa
sobre as pálpebras da aurora.
E ali, de pé, sob a estola
de um macabro sacerdote,


sagro estes ossos que, póstumos,
recusam-se à própria sorte,
como a dizer-me nos olhos:
a vida é maior que a morte.




Ivan Junqueira


in Poemas Reunidos, Editora Record, 1999.


colhido, com a devida vénia, no blogue Poeira de Sebo, http://peneiradorato.blogspot.com

02/09/2009

O COPO DE HERÁCLITO

Serão ainda teus os objectos sobre a mesa?
A surpresa do pão, a evidência do lápis afiado,
aquele fulgor de pássaro sobrevoando a cama
coexistem sobre a mesa e eu pergunto
de quem são agora: o pão sempre fresco
aparece às vezes coberto de bolor e ao amanhecer
a neblina esconde o rio que passa sob a ponte
por onde passo: alguns quilómetros por hora
e deixas de correr em mim. O pão nos dentes
da saliva será teu, tu outro que rondas
os meus dias? O mesmo caderno e esta tinta
quando anoitece os teus olhos de quem são?
Ainda teus e desse outro que se vai tornando visível
e desarruma tudo o que eu sabia e o meu vestido?
Sobre a mesa o copo nunca bebe a mesma água.




Rosa Alice Branco


in O Mundo Não Acaba no Frio dos teus Ossos (pensa ela), Quasi Edições, Maio de 2009

01/09/2009

HERODES

                                                     para Miguel Viqueira




Gritam, mijam, cheiram a leite
azedo. Andam por aí
pelos colos das mães, montados
em burros poeirentos. E há um
que aqueles pretos dizem que há-de um dia
sentar no meu coxim o cu borrado.
Não sabem nada, uns e outros,
soltam vagidos que ninguém entende.
Dou-lhes na mona a uns
e os outros que passeiem.




Pedro Tamen


in Analogia e Dedos, Oceanos, ASA Editores, 2006