21 junho 2010

"VERSOS SOLTOS DE CADA DIA"

(Excertos)

7.

Hoje, tudo o que escrevo é para ti
e não é preciso
dizer o teu nome:
se digo céu,
rosa,
terra,
Revolução,
ar, mar, poesia...
é a ti que nomeio.

Rafael Alberti

com a devida vénia, de ANTOLOGIA POÉTICA, Selecção e Tradução de Albano Martins, Campo das Letras Editores, S. A., Abril de 1998

19 junho 2010

ROÇAGURES

Roçagures era palavra que não tinha pouso,
casa-sobrado, avarandados. Roçagures
só tinha canto, recanto, desvão
sob pilares tão ermos, e aranhas
vinham (das bojudas)
fazer da palavra roçagures
o pior dos desmazelos: riam
dela (aqueles risotes das aranhas),
riam da roupagem léxica
da palavra roçagures, riam
da sua impossibilidade para frases.

Paulinho Assunção

com a devida autorização do autor, colhido no seu blogue cidades escritas

13 junho 2010

MEDITAÇÃO FINAL

Ignoro se avanço ou se parei,
Se volto atrás pra  repetir os passos:
O tempo dos cansaços
Chegou com dura lei.

E ainda me pedem um sinal
De novidade:
Se apresentar a certidão de idade,
Cavam a terra, trazem pás de cal.

A pena emperrava na palavra,
O coração nos sentimentos.
Os últimos momentos
Não somos nunca nós, mas Deus, quem lavra.

Irei deixar um livro em branco
(Tanto faz esse ou outro que hoje escreva!).
Ninguém se atreva
A abri-lo, a procurar-lhe a comoção de um canto,

Pois vai doer-lhe a página vazia,
Como doem agora os meus cansaços.
Eu avanço, parei, ou repito os meus passos?
Não sei. Mas sei que a alma é cada vez mais fria.

António Manuel Couto Viana

com a devida vénia, de Prefiro Pátria às Rosas, Vega, Limitada, 1998