18 outubro 2010

[Se perguntarem: das artes do mundo?]

Se perguntarem: das artes do mundo?
Das artes do mundo escolho a de ver cometas
despenharem-se
nas grandes massas de água; depois, as brasas pelos recantos,
charcos entre elas.
Quero na escuridão revolvida pelas luzes
ganhar baptismo, ofício.
Queimado nas orlas de fogo das poças.
O meu nome é esse.
E os dias atravessam as noites até aos outros dias, as noites
          caem dentro dos dias - e eu estudo
          astros desmoronados, mananciais, o segredo.

Herberto Helder

com a devida vénia, de DO MUNDO, Assírio & Alvim, Lisboa, Outubro de 1994

02 outubro 2010

PERSPECTIVAS

Há uma estranha persistência da vontade
nos dias que correm. Como efeitos dos (ou só a pele!) caminhos bifurcados,
organizamos falsas geometrias.

As nossas janelas dão para outras janelas,
em cidades que não se deixam habitar facilmente. São plácidas as tardes e
existes
no perfeito ponto para
onde fogem
todas as linhas que teimamos em não ver.

Queiras
ou não (há sempre duas passagens!), a rede da melancolia
tem servido também
para inventar o ponto de vista.

Dália Dias

(Inédito)