28 novembro 2010

[partir]

partir

correr
horizontes

sair
do corpo
efémero

e voar

Xavier Zarco

com a devida vénia, de O Livro dos Murmúrios, Palimage Editores, Viseu, 1998

23 novembro 2010

[do mundo que malmolha ou desolha não me defendo]

do mundo que malmolha ou desolha não me defendo,
nem de mim mesmo, à força
de morrer de mim na minha própria língua,
porque eu, o mundo e a língua
somos um só
desentendimento

Herberto Helder

neste dia de aniversário do Poeta, com a devida vénia, de A FACA NÃO CORTA O FOGO, Assírio & Alvim, Setembro de 2008

17 novembro 2010

O QUE SE FOI

O que se foi se foi.
Se algo ainda perdura
é só a amarga marca
na paisagem escura.

Se o que se foi regressa,
traz um erro fatal:
falta-lhe simplesmente
ser real.

Portanto, o que se foi,
se volta, é feito morte.

Então por que me faz
o coração bater tão forte?

Ferreira Gullar

com a devida vénia, de Em alguma parte alguma, Ulisseia, Edição Babel, Lisboa, Outubro de 2010

06 novembro 2010

[Um homem na Bélgica foi morto a tiro]

Um homem na Bélgica foi morto a tiro
Pelo cão fiel quando viajava para a caça,
Segundo noticiava um jornal nas Curiosidades.

O belga seguia na altura ao volante do jipe,
Descontraído, enquanto no banco de trás,
Espingarda ao lado, seguia descontraidamente o cão.

Como sempre, olhavam ambos na mesma direcção,
Lá para onde a floresta se estendia, - calado o homem,
O cão de caça arfando, porque ia quente, o Verão.

Foi o último Verão para o homem. Assustado
Pelo terreno irregular, o cão saltou do assento
E provocou um disparo que matou o dono.

Ah, ainda hoje os dois belgas podiam estar a caminho,
O par ideal, não tivesse um buraco na estrada
Desfeito a amizade com um baque. Foi pena.

Durs Grünbein

com a devida vénia, de Aos Queridos Mortos, 33 Epitáfios, Editora Angelus Novus, Lda., Coimbra, 2003

03 novembro 2010

O ANO DA MORTE DE JOSÉ SARAMAGO

(...)

Vejo-me como um homem calado, vejo assim os poetas,
vemo-nos como homens calados que não podem estar calados,
ou que estão cegos e não podem estar cegos,
ou que não podem deixar de deambular pela cidade,
porque há uma pedra a levantar do chão,
um povo a levantar,
uma infância a levantar

(...)

Amadeu Baptista

com a devida vénia, de O ANO DA MORTE DE JOSÉ SARAMAGO, &etc, Setembro de 2010