20 de Dezembro de 2010

LADAINHA DOS PÓSTUMOS NATAIS

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que se veja à mesa o meu lugar vazio

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que hão-de me lembrar de modo menos nítido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que só uma voz me evoque a sós consigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que não viva já ninguém meu conhecido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem vivo esteja um verso deste livro

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que terei de novo o Nada a sós comigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem o Natal terá qualquer sentido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que o Nada retome a cor do Infinito

David Mourão-Ferreira

com a devida vénia, de OBRA POÉTICA, 1948-1998, Editorial Presença, Lda., Lisboa, Maio de 1997

19 de Dezembro de 2010

Juan Luis Panero - "ARTE POÉTICA"

La larga, lenta lengua de la muerte
ha lamido la mano del que escribe,
lucidez o locura, nadie sabe:
sólo quedan palabras, palabras deshaciéndose.

***

A longa, lenta língua da morte
lambeu a mão daquele que escreve,
lucidez ou loucura, ninguém sabe:
só restam palavras, palavras que se desfazem.

Juan Luis Panero

com a devida vénia, de POEMAS, Tradução e Prefácio de Joaquim Manuel Magalhães, Relógio d'Água Editores, Lisboa, Julho de 2003

18 de Dezembro de 2010

HAI-KAI

Nós temos cinco sentidos:
são dois pares e meio d'asas.

- Como quereis o equilíbrio?

David Mourão-Ferreira

com a devida vénia, de LIRA DE BOLSO, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Novembro de 1969

16 de Dezembro de 2010

[A poesia de cada dia]

A poesia de cada dia
nos dai hoje

Adília Lopes

com a devida vénia, de APANHAR AR, Assírio & Alvim, Outubro 2010

12 de Dezembro de 2010

Antonio Cícero - "O PAÍS DAS MARAVILHAS"

Não se entra no país das maravilhas
pois ele fica do lado de fora,
não do lado de dentro. Se há saídas
que dão nele, estão certamente à orla
iridescente do meu pensamento,
jamais no centro vago do meu eu.
E se me entrego às imagens do espelho
ou da água, tendo no fundo o céu,
não pensem que me apaixonei por mim.
Não: bom é ver-se no espaço diáfano
do mundo, coisa entre coisas que há
no lume do espelho, fora de si:
peixe entre peixes, pássaro entre pássaros,
um dia passo inteiro para lá.

Antonio Cícero

com a devida vénia, de Di Versos 9 - Revista Semestral de Poesia e Tradução, Edições Sempre-em-Pé, Primavera de 2006

8 de Dezembro de 2010

CASTELO DE AGROMONTE

À distância da alta janela
era uma mulher sem idade. Estou em crer
era ainda rapariga
sob a trovoada e a chuva
seguia por entre os jazigos - góticas
capelas imperfeitas -
  ia pelo caminho de saibro
ao encontro dos amados mortos. Abriu a torneira, a água
correu, lavou a jarra,
água para amarelos crisântemos. Água
límpida para os seus amados mortos
em véspera de todos-os-santos (amanhã é feriado,
reclamam-na os vivos
bem menos amados - dos vivos não pode dizer seus não
pode pousar
sobre a pedra branda dos leitos
a jarra, roxos crisântemos amarelos)

- Como se chama o cemitério, além
- Agromonte, senhor

João Miguel Fernandes Jorge

com a devida vénia, de SOBRE MÁRMORE, Edição Teatro de Vila Real, Outubro de 2010

2 de Dezembro de 2010

[Não escolho a cor ou o feitio]

34.

Não escolho a cor ou o feitio,
nem o ponto ideal,
nem o momento
de coser, de colar a quente ou frio.
Não escolho bem nem mal:
tento,
invento.

Pedro Tamen

com a devida vénia, de O LIVRO DO SAPATEIRO, Publicações Dom Quixote, Março de 2010