25 de Abril de 2011

O COMUM DA TERRA

(Vasco Gonçalves)

Nesses dias era sílaba a sílaba que chegavas.
Quem conheça o sul e a sua transparência
também sabe que no verão pelas veredas
da cal a crispação da sombra caminha devagar.
De tanta palavra que disseste algumas
se perdiam, outras duram ainda, são lume
breve arado ceia de pobre roupa remendada.
Habitavas a terra, o comum da terra, e a paixão
era morada e instrumento de alegria.
Esse eras tu: inclinação da água. Na margem,
vento areias mastros lábios, tudo ardia.

14-5-76

Eugénio de Andrade

com a devida vénia, de Homenagens e Outros Epitáfios, Editora Fundação Eugénio de Andrade, Edição 8ª, Setembro, 1993

1 comentários:

carmen silvia presotto disse...

Leio, releio, passeio pelo versos e admiro a paisagem deste poema onde a paixão ao centro comum da terra faz morada.

Um beijo Domingos, boa semana!!

Carmen.