Hoje os gatos não comeram.
Foram-se juntando aos poucos no telhado
e nem a chuva os fez abrir a língua.
Nem a água desaguou a voz, ou os gatos miaram.
Aquelas passadas que só os gatos sabem
afastaram-nos das palavras incisas em mármore
ou no granito deitado. Do plástico florido.
Das flores que a ausência perpetua.
Hoje as campas estão silenciosas
e os gatos com as garras espalmadas contra as telhas,
com o olhar que só os gatos olham,
não sabem ainda se perderam a fé na vida
ou mais na morte. Sentem um nó
inominado na garganta como todos nós.
No cimo do telhado dizem não ao céu.
Querem afirmá-lo de perto.
Rosa Alice Branco
com a devida vénia, de GADO DO SENHOR, & etc, 2011
2 comentários:
Lembrei-me de William S.Burroughs em O gato por dentro... e também do abandono da noite.
Um beijo e boa semana, gosto de estar aqui conhecendo e aprendendo com a boa poesia que aqui publicas.
Carmen.
O livro onde colhi este poema de Rosa Alice Branco, penso ser o mais recente da autora.
Já o li e recomendo-o.
Retribuo os votos de uma boa semana.
Obrigado.
DM
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