19 de Junho de 2011

Arte poética

Vai pois, poema, procura
a voz literal
que desocultadamente fala
sob tanta literatura.

Se a escutares, porém, tapa os ouvidos,
porque pela primeira vez estás sozinho.
Regressa então, se puderes, pelo caminho
das interpretações e dos sentidos.

Mas não olhes para trás, não olhes para trás,
ou jamais te perderás;
e teu canto, insensato, será feito
só de melancolia e de despeito.

E de discórdia. E todavia
sob tanto passado insepulto
o que encontraste senão tumulto,
senão de novo ressentimento e ironia?

Manuel António Pina

com a devida vénia, de POESIA, SAUDADE DA PROSA uma antologia pessoal, Assírio & Alvim, Maio 2011

4 comentários:

Ozias Filho disse...

que belíssima escolha!!!!

Domingos da Mota disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blogue.
Domingos da Mota disse...

Caríssimo Poeta, Ozias Filho,

é uma honra recebê-lo neste blogue.

Obrigado.

carmen silvia presotto disse...

Perder-se para se encontrar... que sempre tenhamos estes poetas a nos tecer os caminhos...gracias!

Beijos
Carmen.