Correm turvas as águas deste rio
Que as do céu e as do monte as enturbaram;
Os campos florescidos se secaram;
Intratável se fez o vale, e frio.
Passou o verão, passou o ardente estio;
Umas cousas por outras se trocaram;
Os fementidos Fados já deixaram
Do mundo o regimento, ou desvario.
Tem o tempo sua ordem já sabida;
O mundo, não; mas anda tão confuso,
Que parece que dele Deus se esquece.
Casos, opiniões, natura e uso
Fazem que nos pareça desta vida
Que não há nela mais que o que parece.
Luís de Camões
com a devida vénia, de Sonetos de Luis de Camões, escolhidos por Eugénio de Andrade, Assírio & Alvim, Julho de 2000
3 comentários:
A grande poesia é atemporal, por isso trabalhamos, estudamos, escrevemos, para um dia quem sabe ficarmos vivo num verso, num poema.
Gracias por Camões, por esta Linguagem Poética que nos une um beijo e bom final de semana.
Carmen.
Cara Carmen,
Obrigado, e retribuo com os votos de uma boa semana.
Basta que o sigamos - e aprenderemos. Muito devo a ti (ou a vós?): Camões.
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