10 de Junho de 2011

Correm turvas as águas deste rio

Correm turvas as águas deste rio
Que as do céu e as do monte as enturbaram;
Os campos florescidos se secaram;
Intratável se fez o vale, e frio.

Passou o verão, passou o ardente estio;
Umas cousas por outras se trocaram;
Os fementidos Fados já deixaram
Do mundo o regimento, ou desvario.

Tem o tempo sua ordem já sabida;
O mundo, não; mas anda tão confuso,
Que parece que dele Deus se esquece.

Casos, opiniões, natura e uso
Fazem que nos pareça desta vida
Que não há nela mais que o que parece.

Luís de Camões

com a devida vénia, de Sonetos de Luis de Camões, escolhidos por Eugénio de Andrade, Assírio & Alvim, Julho de 2000

3 comentários:

carmen silvia presotto disse...

A grande poesia é atemporal, por isso trabalhamos, estudamos, escrevemos, para um dia quem sabe ficarmos vivo num verso, num poema.

Gracias por Camões, por esta Linguagem Poética que nos une um beijo e bom final de semana.

Carmen.

DM disse...

Cara Carmen,

Obrigado, e retribuo com os votos de uma boa semana.

BAR DO BARDO disse...

Basta que o sigamos - e aprenderemos. Muito devo a ti (ou a vós?): Camões.