25 de Junho de 2011

Quebra-luz

Desconfio dos poetas
que falam muito de luz, das
manhãs e das árvores
na sua obsessão hospedeira
de frutos e aves e
folhas. Desconfio dos que cantam
lareiras e vozes mansas, tentando
apaziguar o poema com a sua
indústria de incensos. Eles
encenam como velhos profetas
tardias formas de beleza
extinta - e fazem do verso
um ritual nado-morto
de pequenos afectos,
indiferentes à faca
incandescente que separa
o corpo das palavras
da substância do mundo.

Inês Lourenço

com a devida vénia, de LOGROS CONSENTIDOS, &etc, 2005

2 comentários:

carmen silvia presotto disse...

Quanto temos que trabalhar para um dia ter um poema assim, tecido assim..

Beijos e bom final de semana.

Carmen.

Domingos da Mota disse...

Mais uma vez obrigado pela visita e pelo comentário.

Boa semana.