«Um dos dois mente, o escritor ou o livro,
acerca de qual deles escreve o outro.
Qual, ilegível, é Um. Qual é Mistério dividido?
Qual é espectro? Qual é corpo?
«Que culpa inconclusa se oculta
na leitura, a do esquecimento ou a da loucura?
Que voz irresoluta aí murmura?
Que mesma voz outramente escuta?
«E que eco de evidência
fala na impossibilidade de falar?
Será prudente - perguntou ele - confiar
o Verdadeiro a tanta ausência?»
Manuel António Pina
in OS LIVROS, editora Assírio & Alvim, Novembro 2003
05/04/2009
Os talentos do sr. Lopes
Nunca conheci talentos como os tinha
o sr. Lopes. Pérfido
sonso
mesquinho o filho-da-puta mexia-se
tal um verme
na matilha
(insinuando-se frouxo em seu
bojo indistinto)
urdindo-as pela calada naquela
orla de pulhas. Ah,
fero monte de esterco em cima
do qual sorris
já merecias ser estátua
já
pedias um poema.
João Luís Barreto Guimarães
in LUZ ÚLTIMA, Edições Cotovia, Lda., Lisboa, 2006
o sr. Lopes. Pérfido
sonso
mesquinho o filho-da-puta mexia-se
tal um verme
na matilha
(insinuando-se frouxo em seu
bojo indistinto)
urdindo-as pela calada naquela
orla de pulhas. Ah,
fero monte de esterco em cima
do qual sorris
já merecias ser estátua
já
pedias um poema.
João Luís Barreto Guimarães
in LUZ ÚLTIMA, Edições Cotovia, Lda., Lisboa, 2006
03/04/2009
NESTE PRECISO TEMPO, NESTE PRECISO LUGAR
No princípio era o Verbo
(e os açúcares
e os aminoácidos).
Depois foi o que se sabe.
Agora estou debruçado
da varanda de um 3.º andar
e todo o Passado
vem exactamente desaguar
neste preciso tempo, neste preciso lugar,
no meu preciso modo e no meu preciso estado!
Todavia em vez de metafísica
ou de biologia
dá-me para a mais inespecífica
forma de melancolia:
poesia nem por isso lírica
nem por isso provavelmente poesia.
Pois que farei eu com tanto Passado
senão passar-lhe ao lado,
deitando-lhe o enviezado
olhar da ironia?
Por onde vens, Passado,
pelo vivido ou pelo sonhado?
Que parte de ti me pertence,
a que se lembra ou a que se esquece?
Lá em baixo, na rua, passa para sempre
gente indefinidamente presente,
entrando na minha vida
por uma porta de saída
que dá já para a memória.
Também eu (isto) não tenho história
senão a de uma ausência
entre indiferença e indeferença.
Manuel António Pina
in NENHUMA PALAVRA NENHUMA LEMBRANÇA, editora Assírio & Alvim, Setembro 1999
(e os açúcares
e os aminoácidos).
Depois foi o que se sabe.
Agora estou debruçado
da varanda de um 3.º andar
e todo o Passado
vem exactamente desaguar
neste preciso tempo, neste preciso lugar,
no meu preciso modo e no meu preciso estado!
Todavia em vez de metafísica
ou de biologia
dá-me para a mais inespecífica
forma de melancolia:
poesia nem por isso lírica
nem por isso provavelmente poesia.
Pois que farei eu com tanto Passado
senão passar-lhe ao lado,
deitando-lhe o enviezado
olhar da ironia?
Por onde vens, Passado,
pelo vivido ou pelo sonhado?
Que parte de ti me pertence,
a que se lembra ou a que se esquece?
Lá em baixo, na rua, passa para sempre
gente indefinidamente presente,
entrando na minha vida
por uma porta de saída
que dá já para a memória.
Também eu (isto) não tenho história
senão a de uma ausência
entre indiferença e indeferença.
Manuel António Pina
in NENHUMA PALAVRA NENHUMA LEMBRANÇA, editora Assírio & Alvim, Setembro 1999
31/03/2009
MANUEL ANTÓNIO PINA "A POESIA VAI"
A poesia vai acabar, os poetas
vão ser colocados em lugares mais úteis.
Por exemplo observadores dos pássaros
enquanto os pássaros não
acabarem. Esta certeza tive-a hoje ao
entrar numa repartição pública,
um senhor míope atendia devagar
ao balcão, eu perguntei: «Que fez algum
poeta por este senhor?» E a pergunta
afligiu-me tanto por dentro e por
fora da cabeça que tive que voltar a ler
toda a poesia desde o princípio do mundo.
Uma pergunta numa cabeça como uma co-
roa de espinhos: estão todos
a ver onde o autor quer chegar?
Manuel António Pina
de AINDA NÃO É O FIM NEM O PRINCÍPIO DO MUNDO CALMA É APENAS UM POUCO TARDE, 2.ª edição, a erva daninha, Novembro de 1982
vão ser colocados em lugares mais úteis.
Por exemplo observadores dos pássaros
enquanto os pássaros não
acabarem. Esta certeza tive-a hoje ao
entrar numa repartição pública,
um senhor míope atendia devagar
ao balcão, eu perguntei: «Que fez algum
poeta por este senhor?» E a pergunta
afligiu-me tanto por dentro e por
fora da cabeça que tive que voltar a ler
toda a poesia desde o princípio do mundo.
Uma pergunta numa cabeça como uma co-
roa de espinhos: estão todos
a ver onde o autor quer chegar?
Manuel António Pina
de AINDA NÃO É O FIM NEM O PRINCÍPIO DO MUNDO CALMA É APENAS UM POUCO TARDE, 2.ª edição, a erva daninha, Novembro de 1982
29/03/2009
28/03/2009
ANTONIO CICERO "A MULHER DOS CRISÂNTEMOS"
As flores transbordam do seu vaso à mesa,
um pouco à esquerda da tela cujas beiras
por pouco elas não ultrapassam, invadindo
a moldura. Também o seu colorido
quase abandona a paleta da pintura
(é que o jovem mestre ostenta sprezzatura),
mas apenas quase. O olhar passa por elas,
pousa aqui, pousa ali, hesitante abelha,
visita, à esquerda do vaso, um jarro d'água,
nota um lenço largado sobre a toalha
bordada da mesa e ruma ao lado oposto
da tela, para uma mulher cujos olhos
o ignoram, distraída talvez por algo
que se acha fora não somente do quadro
em que é percebida, mas também daquele
em que nos perceberia, se quisesse.
Sem saber por que, o olhar não mais a quer
largar. Diga-se a verdade: essa mulher
deixa a desejar. Ela não se compara
aos crisântemos que lhe deram a fama
a que mal faz jus, já que se encontra à margem
do quadro e nem sequer inteira, só em parte.
Dela está bem mais presente ali a ausência
que a presença. E, dado que a ausência é protéica
e tudo nada, o olhar mal mergulha em sua
e tudo nada, o olhar mal mergulha em sua
vertiginosa superfície e flutua
de volta às flores sobre o fundo castanho
do papel de parede; depois, da capo.
ANTONIO CICERO
O tempo que se leva para fazer uma obra de arte é um tempo concreto que não se deixa reduzir a um tempo abstrato, mensurável, pois o tempo concreto é singular, irreprodutível, incomensurável. É por isso que não se pode calcular quanto tempo se vai levar para pintar um quadro ou fazer um poema.. Dado que é também num tempo concreto que se aprecia uma obra de arte, não se pode calcular quanto tempo se vai levar para apreciá-la: seja para ver de verdade uma pintura, seja para ler de verdade um poema. Tanto num quanto noutro caso, é preciso passar e repassar, parar e seguir pelos mesmos pontos e por outros. Sugiro que é da mesma natureza o ato de apreciação de uma pintura e o ato de apreciação de um poema.
in relâmpago, Revista de Poesia, Poesia e Artes Visuais, n.º 23 10/2008 (com variações posteriores à publicação na Revista, por indicação do poeta)
01/03/2009
ANTONIO CICERO "O GRITO"
Estou acorrentado a este penhasco
logo eu que roubei o fogo dos céus.
Há muito tempo sei que este penhasco
não existe, como tampouco há um deus
a me punir, mas sigo acorrentado.
Aguardam-me amplos caminhos no mar
e urbes formigantes a engendrar
cruzamentos febris e inopinados.
Artur diz "claro" e recomenda um amigo
que parcela pacotes de excursões.
Abutres devoram-me as decisões
e uma ponta de fígado mas digo
E daí? Dia desses com um só grito
eu estraçalho todos os grilhões.
Antonio Cicero
in A Cidade e os Livros, Antonio Cícero, prefácio de José Miguel Wisnik, edições Quasi, 2006
18/02/2009
ANTONIO CICERO "AUFKLÄRUNG"
A propósito do costume
talionador de executarem-se
os condenados nos lugares
em que se sabe ou se presume
terem cometido algum crime,
Montaigne pensa que os pobres-diabos
a caminho do cadafalso
mal tenham olhos para o tigre
da alvorada, a saltar do fundo
da noite e a afundar na pintura
do dia.
Eis o sol: com a cara
na vidraça da van, calculo
o ouro diáfano e a doçura
dessa manhã que me afanaram.
Antonio Cicero
in A Cidade e os Livros, Antonio Cícero, prefácio de José Miguel Wisnik, edições Quasi, 2006
29/12/2008
Etimologia
quanta força em "mãe"
quanta força em "pai"
quanto debussy em "acaso"
quantas estações em "momento"
quantos relógios derretidos em "memória"
quanta pele em "emoção"
quanto ópio em "intimidade"
quanto teatro em "corpo"
quantas overdoses em "beleza"
quantos filmes em "fotograma"
quanto beethoven em "surdez"
quanta razão dourada em "caos"
quantos medos em "tigre"
quantas flores em "mal"
quantos anjos mudos em "medo"
quanto pollock em "violência"
quanto munch em "grito"
quanto basquiat em "loucura"
quanto kerouac em "jazz"
quantas cinzas em "brasa"
quantos kafkas em "metamorfose"
quanta nova orleães em "morte"
quantas narrativas em "fotografia"
quantos amores em "lupanar"
quanto cesariny em "ruas"
quantos confortos em "chuva"
quantas falésias em "onda"
quanta embriaguez em "barco"
quanto o'neill em "imaginação"
quanta alice em "maravilha"
quanto llorca em "duende"
quantas telas em "cor"
quanto magritte em "imagem"
quanto poetas contínuo em "herberto"
quantos impérios em "luz"
quantos ecos em "olhar"
quantos firmamentos em "ave"
quantas longitudes em "estase"
quantos labirintos em "saudade"
quantas cervejas em "inferno"
quanto al berto em "noite"
quanto camus em "homem"
quanto ian curtis em "solidão"
quantos hortos em "incêndio"
quanto antónio antunes em "lobo"
quanto fernando em "pessoa"
quantas árvores em "raiz"
quantos frutos em "mãos"
quanto piazzola em "gesto"
quanto d.quixote em "vento"
quantos ventos em "pégaso"
quantos pégasos em "sopro"
quantas albas em "sebastião"
quanto cesário em "verde"
quanto whitman em "erva"
quantas searas em "semente"
quantas crianças em "poeta"
quantos deuses em "criança"
quanto rimbaud em "deserto"
quanto borges em "cegueira"
quantos relâmpagos em "silêncio"
quantos livros em "palavra"
quantas palavras em "sílaba":
eu.
Bruno Sousa Villar
retirado de http://nomadaonirico.blogspot.com/, e aqui republicado com a devida autorização do autor.
quanta força em "pai"
quanto debussy em "acaso"
quantas estações em "momento"
quantos relógios derretidos em "memória"
quanta pele em "emoção"
quanto ópio em "intimidade"
quanto teatro em "corpo"
quantas overdoses em "beleza"
quantos filmes em "fotograma"
quanto beethoven em "surdez"
quanta razão dourada em "caos"
quantos medos em "tigre"
quantas flores em "mal"
quantos anjos mudos em "medo"
quanto pollock em "violência"
quanto munch em "grito"
quanto basquiat em "loucura"
quanto kerouac em "jazz"
quantas cinzas em "brasa"
quantos kafkas em "metamorfose"
quanta nova orleães em "morte"
quantas narrativas em "fotografia"
quantos amores em "lupanar"
quanto cesariny em "ruas"
quantos confortos em "chuva"
quantas falésias em "onda"
quanta embriaguez em "barco"
quanto o'neill em "imaginação"
quanta alice em "maravilha"
quanto llorca em "duende"
quantas telas em "cor"
quanto magritte em "imagem"
quanto poetas contínuo em "herberto"
quantos impérios em "luz"
quantos ecos em "olhar"
quantos firmamentos em "ave"
quantas longitudes em "estase"
quantos labirintos em "saudade"
quantas cervejas em "inferno"
quanto al berto em "noite"
quanto camus em "homem"
quanto ian curtis em "solidão"
quantos hortos em "incêndio"
quanto antónio antunes em "lobo"
quanto fernando em "pessoa"
quantas árvores em "raiz"
quantos frutos em "mãos"
quanto piazzola em "gesto"
quanto d.quixote em "vento"
quantos ventos em "pégaso"
quantos pégasos em "sopro"
quantas albas em "sebastião"
quanto cesário em "verde"
quanto whitman em "erva"
quantas searas em "semente"
quantas crianças em "poeta"
quantos deuses em "criança"
quanto rimbaud em "deserto"
quanto borges em "cegueira"
quantos relâmpagos em "silêncio"
quantos livros em "palavra"
quantas palavras em "sílaba":
eu.
Bruno Sousa Villar
retirado de http://nomadaonirico.blogspot.com/, e aqui republicado com a devida autorização do autor.
28/09/2008
VOGANDO SOBRE O DOURO
escolhi esboçar este poema para uma grande festa
onde estivesse presente um livro glorioso
na vitrina do rio.
mas voltei-lhe as costas, fui até à Ribeira
e encontrei o Douro
rodeado de silêncios nascituros
num berço embalado.
nessa festa o livro refulgia à tona de água
como se nunca tivesse feito surf
e pediu-me atenção às frases feitas
e pediu perdão à vida por ainda estar aceso.
outros livros vieram acompanhá-lo desde Braga
e cada um entoava uma canção nocturna
e a lua não cessava de obscurecer a Ponte
que o Douro ganhou recentemente...
Fernando Morais
13.09.2008 (poema inédito)
onde estivesse presente um livro glorioso
na vitrina do rio.
mas voltei-lhe as costas, fui até à Ribeira
e encontrei o Douro
rodeado de silêncios nascituros
num berço embalado.
nessa festa o livro refulgia à tona de água
como se nunca tivesse feito surf
e pediu-me atenção às frases feitas
e pediu perdão à vida por ainda estar aceso.
outros livros vieram acompanhá-lo desde Braga
e cada um entoava uma canção nocturna
e a lua não cessava de obscurecer a Ponte
que o Douro ganhou recentemente...
Fernando Morais
13.09.2008 (poema inédito)
03/09/2008
"ALMA ATÉ ALMEIDA"
Depois de Rimbaud
não se deve escrever
romântico
porque o seu canto
é o cântico do querer
a nova realidade
A "alma" passou a ser
como disse Saguenail
o que faz viver o intestino
o coração e as tripas
a mão e o raciocínio
Fernando Morais
in Um Estalo na Modorra, Poemas Insubmissos, Edição Palavra em Mutação, 2003
não se deve escrever
romântico
porque o seu canto
é o cântico do querer
a nova realidade
A "alma" passou a ser
como disse Saguenail
o que faz viver o intestino
o coração e as tripas
a mão e o raciocínio
Fernando Morais
in Um Estalo na Modorra, Poemas Insubmissos, Edição Palavra em Mutação, 2003
01/09/2008
No Vazio
Dou um salto no vazio
em cada passo que dou
num constante desafio
sem saber para onde vou.
Acerto o passo e caminho
na direcção pretendida
à procura do meu ninho
onde mora a minha vida...
Se chego já não está lá
se não chego nunca sei
para quê a caminhada...
a vida está mesmo má
e com os passos que dei
na vida não andei nada!
Silvestre Bastos Oliveira
in Meu Nascente, edição do Autor, 1997
em cada passo que dou
num constante desafio
sem saber para onde vou.
Acerto o passo e caminho
na direcção pretendida
à procura do meu ninho
onde mora a minha vida...
Se chego já não está lá
se não chego nunca sei
para quê a caminhada...
a vida está mesmo má
e com os passos que dei
na vida não andei nada!
Silvestre Bastos Oliveira
in Meu Nascente, edição do Autor, 1997
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