05/04/2009

Inquérito

«Um dos dois mente, o escritor ou o livro,
acerca de qual deles escreve o outro.
Qual, ilegível, é Um. Qual é Mistério dividido?
Qual é espectro? Qual é corpo?


«Que culpa inconclusa se oculta
na leitura, a do esquecimento ou a da loucura?
Que voz irresoluta aí murmura?
Que mesma voz outramente escuta?


«E que eco de evidência
fala na impossibilidade de falar?
Será prudente - perguntou ele - confiar
o Verdadeiro a tanta ausência?»


Manuel António Pina


in OS LIVROS, editora Assírio & Alvim, Novembro 2003

Os talentos do sr. Lopes

Nunca conheci talentos como os tinha
o sr. Lopes. Pérfido
sonso
mesquinho o filho-da-puta mexia-se
tal um verme
na matilha
(insinuando-se frouxo em seu
bojo indistinto)
urdindo-as pela calada naquela
orla de pulhas. Ah,
fero monte de esterco em cima
do qual sorris
já merecias ser estátua

pedias um poema.


João Luís Barreto Guimarães


in LUZ ÚLTIMA, Edições Cotovia, Lda., Lisboa, 2006

03/04/2009

NESTE PRECISO TEMPO, NESTE PRECISO LUGAR

No princípio era o Verbo
(e os açúcares
e os aminoácidos).
Depois foi o que se sabe.
Agora estou debruçado
da varanda de um 3.º  andar
e todo o Passado
vem exactamente desaguar
neste preciso tempo, neste preciso lugar,
no meu preciso modo e no meu preciso estado!


Todavia em vez de metafísica
ou de biologia
dá-me para a mais  inespecífica
forma de melancolia:
poesia nem por isso lírica
nem por isso provavelmente poesia.
Pois que farei eu com tanto Passado
senão passar-lhe ao lado,
deitando-lhe o enviezado
olhar da ironia?


Por onde vens, Passado,
pelo vivido ou pelo sonhado?
Que parte de ti me pertence,
a que se lembra ou a que se esquece?
Lá em baixo, na rua,  passa para sempre
gente indefinidamente presente,
entrando na minha vida
por uma porta de saída
que dá já para a memória.
Também  eu (isto) não tenho história
senão a de uma ausência
entre indiferença e indeferença.


Manuel António Pina


in NENHUMA PALAVRA NENHUMA LEMBRANÇA, editora Assírio & Alvim, Setembro 1999

31/03/2009

MANUEL ANTÓNIO PINA "A POESIA VAI"

A poesia vai acabar, os poetas
vão ser colocados em lugares mais úteis.
Por exemplo observadores dos pássaros
enquanto os pássaros não
acabarem.  Esta certeza  tive-a hoje ao
entrar numa  repartição pública,
um senhor míope atendia devagar
ao balcão, eu perguntei:  «Que fez  algum
poeta por este senhor?»  E a pergunta
afligiu-me tanto por dentro e por
fora da cabeça que tive que voltar a ler
toda a poesia desde o princípio do mundo.
Uma pergunta numa cabeça  como uma co-
roa de espinhos:  estão todos
a ver onde o autor quer chegar?


Manuel António Pina


de  AINDA NÃO É O FIM NEM O PRINCÍPIO  DO MUNDO CALMA É APENAS UM POUCO TARDE, 2.ª edição, a erva daninha, Novembro de 1982

28/03/2009

ANTONIO CÍCERO "A MULHER DOS CRISÂNTEMOS"

As flores transbordam do seu vaso à mesa,
um pouco à esquerda da tela cujas beiras
por pouco elas não ultrapassam, invadindo
a moldura. Também o seu colorido
quase abandona a paleta da pintura
(é que o jovem mestre ostenta sprezzatura),
mas apenas quase. O olhar passa por elas,
pousa aqui, pousa ali, hesitante abelha,
visita, à esquerda do vaso, um jarro d'água,
nota um lenço largado sobre a toalha
bordada da mesa e ruma ao lado oposto
da tela, para uma mulher cujos olhos
o ignoram, distraída talvez por algo
que se acha fora não somente do quadro
em que é percebida, mas também daquele
em que nos perceberia, se quisesse.
Sem saber por que, o olhar não mais a quer
largar. Diga-se a verdade: essa mulher
deixa a desejar. Ela não se compara
aos crisântemos que lhe deram a fama
a que mal faz jus, já que se encontra à margem
do quadro e nem sequer inteira, só em parte.
Dela está bem mais presente ali a ausência
que a presença. E, dado que a ausência é protéica
e tudo nada, o olhar mal mergulha em sua
vertiginosa superfície e flutua
de volta às flores sobre o fundo castanho
do papel de parede; depois, da capo.


ANTONIO CÍCERO



     O tempo que se leva para fazer uma obra de arte é um tempo concreto que não se deixa reduzir a um tempo abstrato, mensurável, pois o tempo concreto é singular, irreprodutível, incomensurável. É por isso que não se pode calcular quanto tempo se vai levar para pintar um quadro ou fazer um poema.. Dado que é também num tempo concreto que se aprecia uma obra de arte, não se pode calcular quanto tempo se vai levar para apreciá-la: seja para ver de verdade uma pintura, seja para ler de verdade um poema. Tanto num quanto noutro caso, é preciso passar e repassar, parar e seguir pelos mesmos pontos e por outros. Sugiro que é da mesma natureza o ato de apreciação de uma pintura e o ato de apreciação de um poema.






in relâmpago, Revista de Poesia, Poesia e Artes Visuais, n.º 23  10/2008 (com  variações posteriores à publicação na Revista, por indicação do poeta)

29/12/2008

Etimologia

quanta força em "mãe"
quanta força em "pai"


quanto debussy em "acaso"
quantas estações em "momento"
quantos relógios derretidos em "memória"


quanta pele em "emoção"
quanto ópio em "intimidade"
quanto teatro em "corpo"
quantas overdoses em "beleza"


quantos filmes em "fotograma"


quanto beethoven em "surdez"
quanta razão dourada em "caos"
quantos medos em "tigre"
quantas flores em "mal"
quantos anjos mudos em "medo"
quanto pollock em "violência"
quanto munch em "grito"
quanto basquiat em "loucura"
quanto kerouac em "jazz"
quantas cinzas em "brasa"
quantos kafkas em "metamorfose"
quanta nova orleães em "morte"


quantas narrativas em "fotografia"


quantos amores em "lupanar"
quanto cesariny em "ruas"
quantos confortos em "chuva"
quantas falésias em "onda"
quanta embriaguez em "barco"
quanto o'neill em "imaginação"
quanta alice em "maravilha"
quanto llorca em "duende"


quantas telas em "cor"
quanto magritte em "imagem"
quanto poetas contínuo em "herberto"


quantos impérios em "luz"
quantos ecos em "olhar"
quantos firmamentos em "ave"
quantas longitudes em "estase"
quantos labirintos em "saudade"
quantas cervejas em "inferno"


quanto al berto em "noite"
quanto camus em "homem"
quanto ian curtis em "solidão"
quantos hortos em "incêndio"
quanto antónio antunes em "lobo"
quanto fernando em "pessoa"
quantas árvores em "raiz"
quantos frutos em "mãos"


quanto piazzola em "gesto"
quanto d.quixote em "vento"
quantos ventos em "pégaso"
quantos pégasos em "sopro"
quantas albas em "sebastião"


quanto cesário em "verde"
quanto whitman em "erva"


quantas searas em "semente"
quantas crianças em "poeta"
quantos deuses em "criança"
quanto rimbaud em "deserto"
quanto borges em "cegueira"
quantos relâmpagos em "silêncio"


quantos livros em "palavra"


quantas palavras em "sílaba":


eu.




Bruno Sousa Villar


retirado de http://nomadaonirico.blogspot.com/, e aqui republicado com a devida autorização do autor.