12/04/2009

APENAS AREIA

Sou o pó
E vou no vento

Através de rios
E montes
Vou no vento

E talvez eu pouse
Talvez encontre

O mel as areias
Do teu corpo
Trazidas pelo vento.


Casimiro de Brito

in António Ramos Rosa e Casimiro de Brito, DUAS ÁGUAS, UM RIO, edições Quasi, 2002

Poema da interrogação

Deus abençoou o sétimo dia e
santificou-o, visto ter sido nesse
dia que Ele repousou de toda a
obra da criação.




Génesis






Deus de tudo e do nada, se existes,
uno e trino, suprema omnisciência,
trabalhaste seis dias e resistes
impassível no céu, com paciência;


se em vez da criação numa semana
tivesses operado um mês a eito
e moldasses o barro com mais gana
e fizesses um mundo mais perfeito;


(repara, por exemplo, vê o homem
que se diz ser à tua semelhança
e que mata e devasta e cria a fome,
em nome do poder e da abastança);


perdoa-me a pergunta impertinente:
existes como O Ser, ou como ente?




Domingos da Mota

11/04/2009

ANTONIO CÍCERO "MERDE DE POÈTE"

Quem gosta de poesia "visceral",
ou seja, porca, preguiçosa, lerda,
que vá ao fundo e seja literal,
pedindo ao poeta, em vez de poemas, merda.


Antonio Cícero,


in A Cidade e os Livros, prefácio de José Miguel Wisnik, edições Quasi, Fevereiro de 2006

05/04/2009

CARTA DE AMOR

                                                A Eugénio de Andrade




Um dia destes
vou-te matar.
Uma manhã qualquer em que estejas (como de
             costume)
a medir o tesão das flores
ali no Jardim de S. Lázaro
um tiro de pistola e...
Não te vou dar tempo sequer de me  fixares o rosto
Podes invocar Safo, Cavafy ou S. João da Cruz
todos os poetas celestiais
que ninguém te virá acudir
Comprometidos definitivamente os teus planos de
             eternidade
Adeus pois mares de Setembro e dunas de Fão
Um dia destes vou-te matar...
Uma certeira bala de pólen
mesmo sobre o coração


Jorge de Sousa Braga


in DE MANHÃ VAMOS TODOS ACORDAR COM UMA PÉROLA NO CU, Fenda Edições, 1981

Inquérito

«Um dos dois mente, o escritor ou o livro,
acerca de qual deles escreve o outro.
Qual, ilegível, é Um. Qual é Mistério dividido?
Qual é espectro? Qual é corpo?


«Que culpa inconclusa se oculta
na leitura, a do esquecimento ou a da loucura?
Que voz irresoluta aí murmura?
Que mesma voz outramente escuta?


«E que eco de evidência
fala na impossibilidade de falar?
Será prudente - perguntou ele - confiar
o Verdadeiro a tanta ausência?»


Manuel António Pina


in OS LIVROS, editora Assírio & Alvim, Novembro 2003

Os talentos do sr. Lopes

Nunca conheci talentos como os tinha
o sr. Lopes. Pérfido
sonso
mesquinho o filho-da-puta mexia-se
tal um verme
na matilha
(insinuando-se frouxo em seu
bojo indistinto)
urdindo-as pela calada naquela
orla de pulhas. Ah,
fero monte de esterco em cima
do qual sorris
já merecias ser estátua

pedias um poema.


João Luís Barreto Guimarães


in LUZ ÚLTIMA, Edições Cotovia, Lda., Lisboa, 2006

03/04/2009

NESTE PRECISO TEMPO, NESTE PRECISO LUGAR

No princípio era o Verbo
(e os açúcares
e os aminoácidos).
Depois foi o que se sabe.
Agora estou debruçado
da varanda de um 3.º  andar
e todo o Passado
vem exactamente desaguar
neste preciso tempo, neste preciso lugar,
no meu preciso modo e no meu preciso estado!


Todavia em vez de metafísica
ou de biologia
dá-me para a mais  inespecífica
forma de melancolia:
poesia nem por isso lírica
nem por isso provavelmente poesia.
Pois que farei eu com tanto Passado
senão passar-lhe ao lado,
deitando-lhe o enviezado
olhar da ironia?


Por onde vens, Passado,
pelo vivido ou pelo sonhado?
Que parte de ti me pertence,
a que se lembra ou a que se esquece?
Lá em baixo, na rua,  passa para sempre
gente indefinidamente presente,
entrando na minha vida
por uma porta de saída
que dá já para a memória.
Também  eu (isto) não tenho história
senão a de uma ausência
entre indiferença e indeferença.


Manuel António Pina


in NENHUMA PALAVRA NENHUMA LEMBRANÇA, editora Assírio & Alvim, Setembro 1999