28/04/2009

[Azimuto a minha barca]

Azimuto a minha barca
e o porto é onde já estou.
Esta chuva que me encharca
é a que nunca pingou.


Olho pra trás desasado
das asas que nunca tive.
Não há mudanças de estado
na descida do declive.


Pedro que sou, reduzo
o sapato em que me meto
a moído parafuso
e a desgosto secreto.


Desalimento a certeza,
aperto a chave ao sorriso,
lavo a loiça, ponho a mesa,
falo faceto, agonizo.




Pedro Tamen


in Memória Indescritível, Gótica, Lisboa / 2000, Setembro de 2000

27/04/2009

[Extingue-se o dia]

Extingue-se o dia
mas não o canto
da cotovia


Matsuo Bashô


in O GOSTO SOLITÁRIO DO ORVALHO, versões de Jorge  de Sousa Braga, editora Assírio & Alvim, Fevereiro de 1986

25/04/2009

23/04/2009

SE ME DETIVESSE

Se me detivesse
neste quarto     em pleno dia
o rumor do silêncio branco
poderia encher
um tronco
de silêncio
até à fronte
Assim seria a curva
branca
do dia
do poema




António Ramos Rosa


in NOS SEUS OLHOS DE SILÊNCIO, publicações dom quixote, Setembro de 1970

20/04/2009

MULHER

Metade mulher  metade pássaro
Metade anémona  metade névoa

Metade água  metade mágoa
Metade silêncio  metade búzio

Metade manhã  metade fogo
Metade jade  metade tarde

Metade mulher  metade sonho


Jorge Sousa Braga

in A FERIDA ABERTA, editora Assírio & Alvim, Maio 2001

BREVE PARÁBOLA CATALÃ

O elevador para Barcino
é igual à vida: apenas desce.




Manuel de Freitas


in Telhados de Vidro, N.º 8 . Maio . 2007, Averno

16/04/2009

A avó

Tinha ao colo o gato velho
cansadamente passando
a sua branca mão pelo
pêlo dele preto e brando


Sentada ao pé da janela
olhando a rua ou sonhando-a
todo o passado passando
a passos lentos por ela


Dormiram ambos enquanto
a tarde se ia acabando
o gato dormindo por fora
a avó dormindo por dentro




Manuel António Pina


in OS LIVROS, editora Assírio & Alvim, Novembro 2003