03/06/2009

TROCOS

há casas que não ouço, protejo-me
no vão das portas
rua a rua


no bolso dois grãos de trigo
para que o vento pare




João Almeida


in Telhados de Vidro, n.º 11. Novembro. 2008, Averno

23/05/2009

O TRISTE

Guardou esta manhã
para chorar longamente,
o que não fazia há muito.


Não porque setembro,
não por um fato específico,
um isto que fosse. Ou,


de tão antigo, seria um motivo que
não recordava e agora o hálito de seu abraço
frio e sem rosto?


Guardou, para tal manhã,
olhos e boca. Mas o rápido,
repentino sumo de uma luz


pelas frestas veio dar  nos livros,
o telefone, crianças lá fora, jornais
e talvez, e ainda.


Manhã tão breve.
Quem sabe, depois, outubro.
Hoje, não houve tempo.




Eucanaã Ferraz


in Rua do Mundo, Quasi Edições, Janeiro 2007

10/05/2009

[entropia]

a vida
nasce
da vida
e cresce

esbarra
apruma
escora
esfola

e
escava
a cova

que
ao fim
arruma



Domingos da Mota

LAGARTIXA

Corro colada ao chão
um discurso sem pernas
e em busca do calor
ligo o solo e o sol.


Depois de morta mexo.
Mas sei que logo após
a ponta do meu corpo
também se queda morta.


Ergo a cabeça azul
ao azul e ao brilho
e rojo pelo pó
o pó que vou andando.


No frio do meu sangue
tenho a premonição
do lixo que na terra
em terra se fará.


Meneio, pois: meneio
qual se tivesse rins.
Mas de nada me escapo,
nem mesmo do buraco.




Pedro Tamen


in Analogia e Dedos, Oceanos, ASA Editores, 2006

02/05/2009

O SR. LOPES E A PLACA

Raro o dia em que não passam a polir
a placa nova à
porta do gabinete do que agora
é director. Há nome novo na chapa. Nem
um halo embaciado (sequer
uma mancha opaca)
há-de rasurar o brilho que ofusca
o corredor: o
Lopes  foi a director.
De tanto afagar a lápide (de a
lamberem com o pano)
o próprio nome se gasta:
já não estará
lá para o ano.




João Luís Barreto Guimarães

in A Parte pelo Todo, edições Quasi, Março 2009

28/04/2009

[Azimuto a minha barca]

Azimuto a minha barca
e o porto é onde já estou.
Esta chuva que me encharca
é a que nunca pingou.


Olho pra trás desasado
das asas que nunca tive.
Não há mudanças de estado
na descida do declive.


Pedro que sou, reduzo
o sapato em que me meto
a moído parafuso
e a desgosto secreto.


Desalimento a certeza,
aperto a chave ao sorriso,
lavo a loiça, ponho a mesa,
falo faceto, agonizo.




Pedro Tamen


in Memória Indescritível, Gótica, Lisboa / 2000, Setembro de 2000

27/04/2009

[Extingue-se o dia]

Extingue-se o dia
mas não o canto
da cotovia


Matsuo Bashô


in O GOSTO SOLITÁRIO DO ORVALHO, versões de Jorge  de Sousa Braga, editora Assírio & Alvim, Fevereiro de 1986

25/04/2009

magnum opus

Um verso apenas - ou menos ainda.




José Mário Silva


in Luz Indecisa, Oceanos, Abril  2009

23/04/2009

SE ME DETIVESSE

Se me detivesse
neste quarto     em pleno dia
o rumor do silêncio branco
poderia encher
um tronco
de silêncio
até à fronte
Assim seria a curva
branca
do dia
do poema




António Ramos Rosa


in NOS SEUS OLHOS DE SILÊNCIO, publicações dom quixote, Setembro de 1970

20/04/2009

MULHER

Metade mulher  metade pássaro
Metade anémona  metade névoa

Metade água  metade mágoa
Metade silêncio  metade búzio

Metade manhã  metade fogo
Metade jade  metade tarde

Metade mulher  metade sonho


Jorge Sousa Braga

in A FERIDA ABERTA, editora Assírio & Alvim, Maio 2001

BREVE PARÁBOLA CATALÃ

O elevador para Barcino
é igual à vida: apenas desce.




Manuel de Freitas


in Telhados de Vidro, N.º 8 . Maio . 2007, Averno

16/04/2009

A avó

Tinha ao colo o gato velho
cansadamente passando
a sua branca mão pelo
pêlo dele preto e brando


Sentada ao pé da janela
olhando a rua ou sonhando-a
todo o passado passando
a passos lentos por ela


Dormiram ambos enquanto
a tarde se ia acabando
o gato dormindo por fora
a avó dormindo por dentro




Manuel António Pina


in OS LIVROS, editora Assírio & Alvim, Novembro 2003