11/06/2009

[Trago no bolso]

Trago no bolso
os meus tesouros:
Cabeça de Boi
Cabeça de Vaca
Contra-Mundo
e Papa.
Licenças e
Abafadores.
Pequenos
universos
de vidro
à deriva.


Carlos Alberto Machado


de Mundo de Aventuras, Évora, Ataegina, 2000
in POETAS SEM QUALIDADES 1994-2000, Averno, Novembro de 2002

08/06/2009

[põe um disco a correr. a chuva não demora]

põe um disco a correr. a chuva não demora
mais que o esvaziar das nuvens se te
confessasse as coisas que já atirei ao mar
(o revólver do crime palavras numa garrafa)


não darei nome ao poema seria como quem
coloca legenda aos dias e eu: sou como
água (tomando forma nos lugares que molha)


vou repetir (para quem só agora ligou
este poema:) no cesto de frutos da mãe
as estações do ano sucedem-se e o disco


era um disco tão antigo tão antigo que
a certa alturantigo tão antigo que a
certa alturantigo tão antigo que a certa
alturantigo tão antigo que


João Luís Barreto Guimarães


in ESTE LADO PARA CIMA, Editora LIMIAR, Novembro 1994

03/06/2009

TROCOS

há casas que não ouço, protejo-me
no vão das portas
rua a rua


no bolso dois grãos de trigo
para que o vento pare




João Almeida


in Telhados de Vidro, n.º 11. Novembro. 2008, Averno

23/05/2009

O TRISTE

Guardou esta manhã
para chorar longamente,
o que não fazia há muito.


Não porque setembro,
não por um fato específico,
um isto que fosse. Ou,


de tão antigo, seria um motivo que
não recordava e agora o hálito de seu abraço
frio e sem rosto?


Guardou, para tal manhã,
olhos e boca. Mas o rápido,
repentino sumo de uma luz


pelas frestas veio dar  nos livros,
o telefone, crianças lá fora, jornais
e talvez, e ainda.


Manhã tão breve.
Quem sabe, depois, outubro.
Hoje, não houve tempo.




Eucanaã Ferraz


in Rua do Mundo, Quasi Edições, Janeiro 2007

10/05/2009

[entropia]

a vida
nasce
da vida
e cresce

esbarra
apruma
escora
esfola

e
escava
a cova

que
ao fim
arruma



Domingos da Mota

LAGARTIXA

Corro colada ao chão
um discurso sem pernas
e em busca do calor
ligo o solo e o sol.


Depois de morta mexo.
Mas sei que logo após
a ponta do meu corpo
também se queda morta.


Ergo a cabeça azul
ao azul e ao brilho
e rojo pelo pó
o pó que vou andando.


No frio do meu sangue
tenho a premonição
do lixo que na terra
em terra se fará.


Meneio, pois: meneio
qual se tivesse rins.
Mas de nada me escapo,
nem mesmo do buraco.




Pedro Tamen


in Analogia e Dedos, Oceanos, ASA Editores, 2006

02/05/2009

O SR. LOPES E A PLACA

Raro o dia em que não passam a polir
a placa nova à
porta do gabinete do que agora
é director. Há nome novo na chapa. Nem
um halo embaciado (sequer
uma mancha opaca)
há-de rasurar o brilho que ofusca
o corredor: o
Lopes  foi a director.
De tanto afagar a lápide (de a
lamberem com o pano)
o próprio nome se gasta:
já não estará
lá para o ano.




João Luís Barreto Guimarães

in A Parte pelo Todo, edições Quasi, Março 2009

28/04/2009

[Azimuto a minha barca]

Azimuto a minha barca
e o porto é onde já estou.
Esta chuva que me encharca
é a que nunca pingou.


Olho pra trás desasado
das asas que nunca tive.
Não há mudanças de estado
na descida do declive.


Pedro que sou, reduzo
o sapato em que me meto
a moído parafuso
e a desgosto secreto.


Desalimento a certeza,
aperto a chave ao sorriso,
lavo a loiça, ponho a mesa,
falo faceto, agonizo.




Pedro Tamen


in Memória Indescritível, Gótica, Lisboa / 2000, Setembro de 2000

27/04/2009

[Extingue-se o dia]

Extingue-se o dia
mas não o canto
da cotovia


Matsuo Bashô


in O GOSTO SOLITÁRIO DO ORVALHO, versões de Jorge  de Sousa Braga, editora Assírio & Alvim, Fevereiro de 1986

25/04/2009

magnum opus

Um verso apenas - ou menos ainda.




José Mário Silva


in Luz Indecisa, Oceanos, Abril  2009

23/04/2009

SE ME DETIVESSE

Se me detivesse
neste quarto     em pleno dia
o rumor do silêncio branco
poderia encher
um tronco
de silêncio
até à fronte
Assim seria a curva
branca
do dia
do poema




António Ramos Rosa


in NOS SEUS OLHOS DE SILÊNCIO, publicações dom quixote, Setembro de 1970

20/04/2009

MULHER

Metade mulher  metade pássaro
Metade anémona  metade névoa

Metade água  metade mágoa
Metade silêncio  metade búzio

Metade manhã  metade fogo
Metade jade  metade tarde

Metade mulher  metade sonho


Jorge Sousa Braga

in A FERIDA ABERTA, editora Assírio & Alvim, Maio 2001

BREVE PARÁBOLA CATALÃ

O elevador para Barcino
é igual à vida: apenas desce.




Manuel de Freitas


in Telhados de Vidro, N.º 8 . Maio . 2007, Averno

16/04/2009

A avó

Tinha ao colo o gato velho
cansadamente passando
a sua branca mão pelo
pêlo dele preto e brando


Sentada ao pé da janela
olhando a rua ou sonhando-a
todo o passado passando
a passos lentos por ela


Dormiram ambos enquanto
a tarde se ia acabando
o gato dormindo por fora
a avó dormindo por dentro




Manuel António Pina


in OS LIVROS, editora Assírio & Alvim, Novembro 2003

15/04/2009

GATO DOMÉSTICO

Agrada-me estar entre mulheres bonitas.
Para quê mentir sobre coisas destas?
Volto a dizê-lo:
Agrada-me conversar com mulheres bonitas
Embora não digamos senão tolices.


O ronronar das invisíveis antenas
É estimulante e delicioso ao mesmo tempo.


Ezra Pound


in ASSINAR A PELE, antologia de poesia contemporânea sobre gatos, organização, João Luís Barreto Guimarães, editora Assírio & Alvim, Novembro 2001

13/04/2009

A SECRETA IDADE

Atravessei as dilaceradas lâmpadas da insónia
Conheci o amargo amargo do livro cego
E os andrajosos pássaros da adolescência
Cheguei à secreta idade da ignorância
E a poeira da dança cobre os meus cabelos
Como se fosse um deus desfeito E o perfume do prodígio
Liberta-se por vezes não como uma cinza última
Mas como um sopro mais alto do que o mar
No alento do livro toco os ardentes limites
Da terra Já não sei se vivi Estou no círculo branco
Rodeado de musicais andaimes A minha voz é o corpo
Que adere à redondez profunda
Do intacto




António Ramos Rosa


in António Ramos Rosa e Casimiro de Brito, DUAS ÁGUAS, UM RIO, edições Quasi, 2002

[Branco no branco, cantou]

Branco no branco, cantou
Bashô. Despes o vestido,
dispo o teu corpo.
A tua sombra na parede
branca. Sorris.
Apagas a luz.
Sabes que a tela da tua pele
me vai iluminar.
Debruças-te no meu peito:
sabes  que o teu hálito me vai
acender. Branco
no branco.
Derramados
um no outro. Quem é luz?
Quem é sombra?
A cotovia
começa a cantar.




Casimiro de Brito


in 69 Poemas de  Amor, 2009

12/04/2009

APENAS AREIA

Sou o pó
E vou no vento

Através de rios
E montes
Vou no vento

E talvez eu pouse
Talvez encontre

O mel as areias
Do teu corpo
Trazidas pelo vento.


Casimiro de Brito

in António Ramos Rosa e Casimiro de Brito, DUAS ÁGUAS, UM RIO, edições Quasi, 2002

Poema da interrogação

Deus abençoou o sétimo dia e
santificou-o, visto ter sido nesse
dia que Ele repousou de toda a
obra da criação.




Génesis






Deus de tudo e do nada, se existes,
uno e trino, suprema omnisciência,
trabalhaste seis dias e resistes
impassível no céu, com paciência;


se em vez da criação numa semana
tivesses operado um mês a eito
e moldasses o barro com mais gana
e fizesses um mundo mais perfeito;


(repara, por exemplo, vê o homem
que se diz ser à tua semelhança
e que mata e devasta e cria a fome,
em nome do poder e da abastança);


perdoa-me a pergunta impertinente:
existes como O Ser, ou como ente?




Domingos da Mota

11/04/2009

ANTONIO CICERO "MERDE DE POÈTE"

Quem gosta de poesia "visceral",
ou seja, porca, preguiçosa, lerda,
que vá ao fundo e seja literal,
pedindo ao poeta, em vez de poemas, merda.


Antonio Cicero,


in A Cidade e os Livros, prefácio de José Miguel Wisnik, edições Quasi, Fevereiro de 2006