as palavras repousam fermentadas
na geometria do meu lugar
é uma guerra e está dentro de mim
como um bicho emboscado
agora já tenho quatro versos turvos
e uma dor longínqua no intervalo
dos ossos
com o que sobra
invento outra mitologia
Rui Pires Cabral
de Geografia das Estações, Vila Real, Edição do Autor, 1994
in POETAS SEM QUALIDADES 1994-2002, Averno, Novembro 2002
27/06/2009
25/06/2009
o tamanho e o peso das frases
Chego à janela com palavras românticas
O mar é um azulejo, fecho-a.
As lágrimas, que porra, as lágrimas
Já não sinto os pés.
Bailado de quem tem a cabeça aureolada.
Fala e não ouço senão louça, televisores.
Ruídos que me chegam pela janela
Como se fossem diálogos
Mas que não passam de desprezo
De desprezo, de abreviaturas.
As mãos, para que servem as mãos nesse linguajar
As mãos são preconceitos, abismos, promessas.
Carlos Luís Bessa
de Termómetro-Diário
in POETAS SEM QUALIDADES 1994-2002, Averno, Novembro de 2002
O mar é um azulejo, fecho-a.
As lágrimas, que porra, as lágrimas
Já não sinto os pés.
Bailado de quem tem a cabeça aureolada.
Fala e não ouço senão louça, televisores.
Ruídos que me chegam pela janela
Como se fossem diálogos
Mas que não passam de desprezo
De desprezo, de abreviaturas.
As mãos, para que servem as mãos nesse linguajar
As mãos são preconceitos, abismos, promessas.
Carlos Luís Bessa
de Termómetro-Diário
in POETAS SEM QUALIDADES 1994-2002, Averno, Novembro de 2002
14/06/2009
[queria que me acompanhasses]
queria que me acompanhasses
vida fora
como uma vela
que me descobrisse o mundo
mas situo-me no lado incerto
onde bate o vento
e só te posso ensinar
nomes de árvores
cujo fruto se colhe numa próxima estação
por onde os comboios estendem
silvos aflitos
Ana Paula Inácio
de Vago Pressentimento Azul por Cima, Porto, Ilhas, 2000
in POETAS SEM QUALIDADES 1994-2002, Averno, Novembro de 2002
vida fora
como uma vela
que me descobrisse o mundo
mas situo-me no lado incerto
onde bate o vento
e só te posso ensinar
nomes de árvores
cujo fruto se colhe numa próxima estação
por onde os comboios estendem
silvos aflitos
Ana Paula Inácio
de Vago Pressentimento Azul por Cima, Porto, Ilhas, 2000
in POETAS SEM QUALIDADES 1994-2002, Averno, Novembro de 2002
11/06/2009
[Trago no bolso]
Trago no bolso
os meus tesouros:
Cabeça de Boi
Cabeça de Vaca
Contra-Mundo
e Papa.
Licenças e
Abafadores.
Pequenos
universos
de vidro
à deriva.
Carlos Alberto Machado
de Mundo de Aventuras, Évora, Ataegina, 2000
in POETAS SEM QUALIDADES 1994-2000, Averno, Novembro de 2002
os meus tesouros:
Cabeça de Boi
Cabeça de Vaca
Contra-Mundo
e Papa.
Licenças e
Abafadores.
Pequenos
universos
de vidro
à deriva.
Carlos Alberto Machado
de Mundo de Aventuras, Évora, Ataegina, 2000
in POETAS SEM QUALIDADES 1994-2000, Averno, Novembro de 2002
08/06/2009
[põe um disco a correr. a chuva não demora]
põe um disco a correr. a chuva não demora
mais que o esvaziar das nuvens se te
confessasse as coisas que já atirei ao mar
(o revólver do crime palavras numa garrafa)
não darei nome ao poema seria como quem
coloca legenda aos dias e eu: sou como
água (tomando forma nos lugares que molha)
vou repetir (para quem só agora ligou
este poema:) no cesto de frutos da mãe
as estações do ano sucedem-se e o disco
era um disco tão antigo tão antigo que
a certa alturantigo tão antigo que a
certa alturantigo tão antigo que a certa
alturantigo tão antigo que
João Luís Barreto Guimarães
in ESTE LADO PARA CIMA, Editora LIMIAR, Novembro 1994
mais que o esvaziar das nuvens se te
confessasse as coisas que já atirei ao mar
(o revólver do crime palavras numa garrafa)
não darei nome ao poema seria como quem
coloca legenda aos dias e eu: sou como
água (tomando forma nos lugares que molha)
vou repetir (para quem só agora ligou
este poema:) no cesto de frutos da mãe
as estações do ano sucedem-se e o disco
era um disco tão antigo tão antigo que
a certa alturantigo tão antigo que a
certa alturantigo tão antigo que a certa
alturantigo tão antigo que
João Luís Barreto Guimarães
in ESTE LADO PARA CIMA, Editora LIMIAR, Novembro 1994
03/06/2009
TROCOS
há casas que não ouço, protejo-me
no vão das portas
rua a rua
no bolso dois grãos de trigo
para que o vento pare
João Almeida
in Telhados de Vidro, n.º 11. Novembro. 2008, Averno
no vão das portas
rua a rua
no bolso dois grãos de trigo
para que o vento pare
João Almeida
in Telhados de Vidro, n.º 11. Novembro. 2008, Averno
23/05/2009
O TRISTE
Guardou esta manhã
para chorar longamente,
o que não fazia há muito.
Não porque setembro,
não por um fato específico,
um isto que fosse. Ou,
de tão antigo, seria um motivo que
não recordava e agora o hálito de seu abraço
frio e sem rosto?
Guardou, para tal manhã,
olhos e boca. Mas o rápido,
repentino sumo de uma luz
pelas frestas veio dar nos livros,
o telefone, crianças lá fora, jornais
e talvez, e ainda.
Manhã tão breve.
Quem sabe, depois, outubro.
Hoje, não houve tempo.
Eucanaã Ferraz
in Rua do Mundo, Quasi Edições, Janeiro 2007
para chorar longamente,
o que não fazia há muito.
Não porque setembro,
não por um fato específico,
um isto que fosse. Ou,
de tão antigo, seria um motivo que
não recordava e agora o hálito de seu abraço
frio e sem rosto?
Guardou, para tal manhã,
olhos e boca. Mas o rápido,
repentino sumo de uma luz
pelas frestas veio dar nos livros,
o telefone, crianças lá fora, jornais
e talvez, e ainda.
Manhã tão breve.
Quem sabe, depois, outubro.
Hoje, não houve tempo.
Eucanaã Ferraz
in Rua do Mundo, Quasi Edições, Janeiro 2007
10/05/2009
[entropia]
a vida
nasce
nasce
da vida
e cresce
esbarra
apruma
escora
esfola
e
escava
a cova
que
ao fim
arruma
Domingos da Mota
LAGARTIXA
Corro colada ao chão
um discurso sem pernas
e em busca do calor
ligo o solo e o sol.
Depois de morta mexo.
Mas sei que logo após
a ponta do meu corpo
também se queda morta.
Ergo a cabeça azul
ao azul e ao brilho
e rojo pelo pó
o pó que vou andando.
No frio do meu sangue
tenho a premonição
do lixo que na terra
em terra se fará.
Meneio, pois: meneio
qual se tivesse rins.
Mas de nada me escapo,
nem mesmo do buraco.
Pedro Tamen
in Analogia e Dedos, Oceanos, ASA Editores, 2006
um discurso sem pernas
e em busca do calor
ligo o solo e o sol.
Depois de morta mexo.
Mas sei que logo após
a ponta do meu corpo
também se queda morta.
Ergo a cabeça azul
ao azul e ao brilho
e rojo pelo pó
o pó que vou andando.
No frio do meu sangue
tenho a premonição
do lixo que na terra
em terra se fará.
Meneio, pois: meneio
qual se tivesse rins.
Mas de nada me escapo,
nem mesmo do buraco.
Pedro Tamen
in Analogia e Dedos, Oceanos, ASA Editores, 2006
02/05/2009
O SR. LOPES E A PLACA
Raro o dia em que não passam a polir
a placa nova à
porta do gabinete do que agora
é director. Há nome novo na chapa. Nem
um halo embaciado (sequer
uma mancha opaca)
há-de rasurar o brilho que ofusca
o corredor: o
Lopes foi a director.
De tanto afagar a lápide (de a
lamberem com o pano)
o próprio nome se gasta:
já não estará
lá para o ano.
João Luís Barreto Guimarães
in A Parte pelo Todo, edições Quasi, Março 2009
a placa nova à
porta do gabinete do que agora
é director. Há nome novo na chapa. Nem
um halo embaciado (sequer
uma mancha opaca)
há-de rasurar o brilho que ofusca
o corredor: o
Lopes foi a director.
De tanto afagar a lápide (de a
lamberem com o pano)
o próprio nome se gasta:
já não estará
lá para o ano.
João Luís Barreto Guimarães
in A Parte pelo Todo, edições Quasi, Março 2009
28/04/2009
[Azimuto a minha barca]
Azimuto a minha barca
e o porto é onde já estou.
Esta chuva que me encharca
é a que nunca pingou.
Olho pra trás desasado
das asas que nunca tive.
Não há mudanças de estado
na descida do declive.
Pedro que sou, reduzo
o sapato em que me meto
a moído parafuso
e a desgosto secreto.
Desalimento a certeza,
aperto a chave ao sorriso,
lavo a loiça, ponho a mesa,
falo faceto, agonizo.
Pedro Tamen
in Memória Indescritível, Gótica, Lisboa / 2000, Setembro de 2000
e o porto é onde já estou.
Esta chuva que me encharca
é a que nunca pingou.
Olho pra trás desasado
das asas que nunca tive.
Não há mudanças de estado
na descida do declive.
Pedro que sou, reduzo
o sapato em que me meto
a moído parafuso
e a desgosto secreto.
Desalimento a certeza,
aperto a chave ao sorriso,
lavo a loiça, ponho a mesa,
falo faceto, agonizo.
Pedro Tamen
in Memória Indescritível, Gótica, Lisboa / 2000, Setembro de 2000
27/04/2009
[Extingue-se o dia]
Extingue-se o dia
mas não o canto
da cotovia
Matsuo Bashô
in O GOSTO SOLITÁRIO DO ORVALHO, versões de Jorge de Sousa Braga, editora Assírio & Alvim, Fevereiro de 1986
mas não o canto
da cotovia
Matsuo Bashô
in O GOSTO SOLITÁRIO DO ORVALHO, versões de Jorge de Sousa Braga, editora Assírio & Alvim, Fevereiro de 1986
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