Quando nos deitamos, amor,
sobre a cama fofa dos séculos
eu não olho para a lua
nem penso em livros complicados.
Sinto a tua pele, o teu buço
e o fim da história no púbis.
Depois enrolamo-nos, fingimos
que esta vida é nossa
ou que um cronometrado orgasmo
redime a pobreza simples dos dias.
É a altura, amor, em que dou
por mim a acender os cigarros
solicitamente uns nos outros,
à espera que tudo acabe
- os poemas, a vidinha, o mais -
e que o arroto seja teu,
minha ânfora de cetim tão roxa.
ANÓNIMO (?)
de Bardamerda - Poemas Citacionistas Contemporâneos, Lisboa & etc, 1999
in POETAS SEM QUALIDADES 1994-2002, Averno, Novembro de 2002
06/07/2009
05/07/2009
y_
ypslom, xis, zê, como na antiguidade de alfa a omega as
[pestanas
dos
olhos dos deuses caem como grandes pedregulhos
ouvindo-se em todo o universo e a folia
de andar de bicicleta num precipício faz
lembrar o quão relativo é o ser humano na deambulação
desesperada à frente da última versão da
play-station
Vindeirinho
in POETAS SEM QUALIDADES 1994-2002, Averno, Novembro de 2002
[pestanas
dos
olhos dos deuses caem como grandes pedregulhos
ouvindo-se em todo o universo e a folia
de andar de bicicleta num precipício faz
lembrar o quão relativo é o ser humano na deambulação
desesperada à frente da última versão da
play-station
Vindeirinho
in POETAS SEM QUALIDADES 1994-2002, Averno, Novembro de 2002
30/06/2009
Sumo de Laranja
A tarde fria arrasta-nos para dentro da cama.
Aos poucos deixamo-nos ficar... ...por ali.
Fixo a fraca coluna de sol mergulhar pelo vidro da janela
e sustentar-se friamente no soalho silencioso.
As tuas costas flutuam amparadas no colchão.
Lentamente deixas cair o braço para fora da cama.
Sorrio não só por te sentir adormecida
mas também por a tua pulsação ser como uma balada,
- o seu refrão será sempre um refresco -
e as suas melodias ainda que electrónicas
estarão sempre à nossa espera
nos head-phones abandonados
sobre a mesa de cabeceira.
João Miguel Queirós
in POETAS SEM QUALIDADES 1994-2002, Averno, Novembro de 2002
Aos poucos deixamo-nos ficar... ...por ali.
Fixo a fraca coluna de sol mergulhar pelo vidro da janela
e sustentar-se friamente no soalho silencioso.
As tuas costas flutuam amparadas no colchão.
Lentamente deixas cair o braço para fora da cama.
Sorrio não só por te sentir adormecida
mas também por a tua pulsação ser como uma balada,
- o seu refrão será sempre um refresco -
e as suas melodias ainda que electrónicas
estarão sempre à nossa espera
nos head-phones abandonados
sobre a mesa de cabeceira.
João Miguel Queirós
in POETAS SEM QUALIDADES 1994-2002, Averno, Novembro de 2002
27/06/2009
Cantiga
as palavras repousam fermentadas
na geometria do meu lugar
é uma guerra e está dentro de mim
como um bicho emboscado
agora já tenho quatro versos turvos
e uma dor longínqua no intervalo
dos ossos
com o que sobra
invento outra mitologia
Rui Pires Cabral
de Geografia das Estações, Vila Real, Edição do Autor, 1994
in POETAS SEM QUALIDADES 1994-2002, Averno, Novembro 2002
na geometria do meu lugar
é uma guerra e está dentro de mim
como um bicho emboscado
agora já tenho quatro versos turvos
e uma dor longínqua no intervalo
dos ossos
com o que sobra
invento outra mitologia
Rui Pires Cabral
de Geografia das Estações, Vila Real, Edição do Autor, 1994
in POETAS SEM QUALIDADES 1994-2002, Averno, Novembro 2002
25/06/2009
o tamanho e o peso das frases
Chego à janela com palavras românticas
O mar é um azulejo, fecho-a.
As lágrimas, que porra, as lágrimas
Já não sinto os pés.
Bailado de quem tem a cabeça aureolada.
Fala e não ouço senão louça, televisores.
Ruídos que me chegam pela janela
Como se fossem diálogos
Mas que não passam de desprezo
De desprezo, de abreviaturas.
As mãos, para que servem as mãos nesse linguajar
As mãos são preconceitos, abismos, promessas.
Carlos Luís Bessa
de Termómetro-Diário
in POETAS SEM QUALIDADES 1994-2002, Averno, Novembro de 2002
O mar é um azulejo, fecho-a.
As lágrimas, que porra, as lágrimas
Já não sinto os pés.
Bailado de quem tem a cabeça aureolada.
Fala e não ouço senão louça, televisores.
Ruídos que me chegam pela janela
Como se fossem diálogos
Mas que não passam de desprezo
De desprezo, de abreviaturas.
As mãos, para que servem as mãos nesse linguajar
As mãos são preconceitos, abismos, promessas.
Carlos Luís Bessa
de Termómetro-Diário
in POETAS SEM QUALIDADES 1994-2002, Averno, Novembro de 2002
14/06/2009
[queria que me acompanhasses]
queria que me acompanhasses
vida fora
como uma vela
que me descobrisse o mundo
mas situo-me no lado incerto
onde bate o vento
e só te posso ensinar
nomes de árvores
cujo fruto se colhe numa próxima estação
por onde os comboios estendem
silvos aflitos
Ana Paula Inácio
de Vago Pressentimento Azul por Cima, Porto, Ilhas, 2000
in POETAS SEM QUALIDADES 1994-2002, Averno, Novembro de 2002
vida fora
como uma vela
que me descobrisse o mundo
mas situo-me no lado incerto
onde bate o vento
e só te posso ensinar
nomes de árvores
cujo fruto se colhe numa próxima estação
por onde os comboios estendem
silvos aflitos
Ana Paula Inácio
de Vago Pressentimento Azul por Cima, Porto, Ilhas, 2000
in POETAS SEM QUALIDADES 1994-2002, Averno, Novembro de 2002
11/06/2009
[Trago no bolso]
Trago no bolso
os meus tesouros:
Cabeça de Boi
Cabeça de Vaca
Contra-Mundo
e Papa.
Licenças e
Abafadores.
Pequenos
universos
de vidro
à deriva.
Carlos Alberto Machado
de Mundo de Aventuras, Évora, Ataegina, 2000
in POETAS SEM QUALIDADES 1994-2000, Averno, Novembro de 2002
os meus tesouros:
Cabeça de Boi
Cabeça de Vaca
Contra-Mundo
e Papa.
Licenças e
Abafadores.
Pequenos
universos
de vidro
à deriva.
Carlos Alberto Machado
de Mundo de Aventuras, Évora, Ataegina, 2000
in POETAS SEM QUALIDADES 1994-2000, Averno, Novembro de 2002
08/06/2009
[põe um disco a correr. a chuva não demora]
põe um disco a correr. a chuva não demora
mais que o esvaziar das nuvens se te
confessasse as coisas que já atirei ao mar
(o revólver do crime palavras numa garrafa)
não darei nome ao poema seria como quem
coloca legenda aos dias e eu: sou como
água (tomando forma nos lugares que molha)
vou repetir (para quem só agora ligou
este poema:) no cesto de frutos da mãe
as estações do ano sucedem-se e o disco
era um disco tão antigo tão antigo que
a certa alturantigo tão antigo que a
certa alturantigo tão antigo que a certa
alturantigo tão antigo que
João Luís Barreto Guimarães
in ESTE LADO PARA CIMA, Editora LIMIAR, Novembro 1994
mais que o esvaziar das nuvens se te
confessasse as coisas que já atirei ao mar
(o revólver do crime palavras numa garrafa)
não darei nome ao poema seria como quem
coloca legenda aos dias e eu: sou como
água (tomando forma nos lugares que molha)
vou repetir (para quem só agora ligou
este poema:) no cesto de frutos da mãe
as estações do ano sucedem-se e o disco
era um disco tão antigo tão antigo que
a certa alturantigo tão antigo que a
certa alturantigo tão antigo que a certa
alturantigo tão antigo que
João Luís Barreto Guimarães
in ESTE LADO PARA CIMA, Editora LIMIAR, Novembro 1994
03/06/2009
TROCOS
há casas que não ouço, protejo-me
no vão das portas
rua a rua
no bolso dois grãos de trigo
para que o vento pare
João Almeida
in Telhados de Vidro, n.º 11. Novembro. 2008, Averno
no vão das portas
rua a rua
no bolso dois grãos de trigo
para que o vento pare
João Almeida
in Telhados de Vidro, n.º 11. Novembro. 2008, Averno
23/05/2009
O TRISTE
Guardou esta manhã
para chorar longamente,
o que não fazia há muito.
Não porque setembro,
não por um fato específico,
um isto que fosse. Ou,
de tão antigo, seria um motivo que
não recordava e agora o hálito de seu abraço
frio e sem rosto?
Guardou, para tal manhã,
olhos e boca. Mas o rápido,
repentino sumo de uma luz
pelas frestas veio dar nos livros,
o telefone, crianças lá fora, jornais
e talvez, e ainda.
Manhã tão breve.
Quem sabe, depois, outubro.
Hoje, não houve tempo.
Eucanaã Ferraz
in Rua do Mundo, Quasi Edições, Janeiro 2007
para chorar longamente,
o que não fazia há muito.
Não porque setembro,
não por um fato específico,
um isto que fosse. Ou,
de tão antigo, seria um motivo que
não recordava e agora o hálito de seu abraço
frio e sem rosto?
Guardou, para tal manhã,
olhos e boca. Mas o rápido,
repentino sumo de uma luz
pelas frestas veio dar nos livros,
o telefone, crianças lá fora, jornais
e talvez, e ainda.
Manhã tão breve.
Quem sabe, depois, outubro.
Hoje, não houve tempo.
Eucanaã Ferraz
in Rua do Mundo, Quasi Edições, Janeiro 2007
10/05/2009
[entropia]
a vida
nasce
nasce
da vida
e cresce
esbarra
apruma
escora
esfola
e
escava
a cova
que
ao fim
arruma
Domingos da Mota
LAGARTIXA
Corro colada ao chão
um discurso sem pernas
e em busca do calor
ligo o solo e o sol.
Depois de morta mexo.
Mas sei que logo após
a ponta do meu corpo
também se queda morta.
Ergo a cabeça azul
ao azul e ao brilho
e rojo pelo pó
o pó que vou andando.
No frio do meu sangue
tenho a premonição
do lixo que na terra
em terra se fará.
Meneio, pois: meneio
qual se tivesse rins.
Mas de nada me escapo,
nem mesmo do buraco.
Pedro Tamen
in Analogia e Dedos, Oceanos, ASA Editores, 2006
um discurso sem pernas
e em busca do calor
ligo o solo e o sol.
Depois de morta mexo.
Mas sei que logo após
a ponta do meu corpo
também se queda morta.
Ergo a cabeça azul
ao azul e ao brilho
e rojo pelo pó
o pó que vou andando.
No frio do meu sangue
tenho a premonição
do lixo que na terra
em terra se fará.
Meneio, pois: meneio
qual se tivesse rins.
Mas de nada me escapo,
nem mesmo do buraco.
Pedro Tamen
in Analogia e Dedos, Oceanos, ASA Editores, 2006
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