Sob estas pedras jazem os vampiros!
A vida foi-lhes pródiga por séculos;
pisaram sempre a relva; mas agora,
finalmente, banidos, no silêncio,
mergulhados entre vermes e poeiras,
transformaram-se no húmus que não foram.
Os homens amavam sem serenidade;
as mulheres não tinham filhos sem remorsos.
Sob estas pedras jazem. Com o sangue
bebido aos que buscavam as estrelas,
inventaram alguns Deuses protectores,
fizeram sobretudos contra o ódio,
gizaram itinerários de assassínio.
A vida era alguns pássaros, por vezes,
logo engolidos pelo pesadelo.
A morte veio, fulminante, certa,
com os olhos inflexíveis dos famintos.
Violenta, como a Deusa da Vingança,
extinguiu no ar, por uma vez,
o grito de rapina dos seus voos.
É doce a hora
de que os ponteiros já não ceifam sonhos.
Egito Gonçalves
in SONHAR A TERRA LIVRE E INSUBMISSA..., Editorial Inova, Porto, Fevereiro de 1973
29/07/2009
26/07/2009
6. OS LÁBIOS DO TEMPO
Regresso às coisas simples
como se aprendesse o alfabeto
e tu me ensinasses a soletrar
a árvore onde damos sombra
o fruto que alimentamos com os lábios.
Ao meio-dia
o entardecer cavalga sobre nós
e à mesma hora
a noite chega com um traço
que afaga as cores da sombra.
É assim que alimentamos o tempo
e os animais sentam-se à espera das sobras
para escreverem a nossa história.
Rosa Alice Branco
in "O ÚNICO TRAÇO DO PINCEL", Editora LIMIAR, Abril 1997
como se aprendesse o alfabeto
e tu me ensinasses a soletrar
a árvore onde damos sombra
o fruto que alimentamos com os lábios.
Ao meio-dia
o entardecer cavalga sobre nós
e à mesma hora
a noite chega com um traço
que afaga as cores da sombra.
É assim que alimentamos o tempo
e os animais sentam-se à espera das sobras
para escreverem a nossa história.
Rosa Alice Branco
in "O ÚNICO TRAÇO DO PINCEL", Editora LIMIAR, Abril 1997
14/07/2009
TUBO DE ENSAIO
Ponho meu sonho
Dentro do frasco
De vidro. A vida,
No fundo, fica.
Um outro pranto
Quer vir à tona.
Aquela dúvida
Que tanto apronta?
Todo meu mundo
Torna-se visto,
Quando, no filtro
De papel, brilho.
Adriano Nunes
(inédito)
para um melhor conhecimento deste poeta brasileiro, veja-se o seu blog http://astripasdoverso.blogspot.com/ QUEFAÇOCOMOQUENÃOFAÇO, e a entrevista que deu, no blog
http://peneiradorato.blogspot.com/ POEIRA DE SEBO
Dentro do frasco
De vidro. A vida,
No fundo, fica.
Um outro pranto
Quer vir à tona.
Aquela dúvida
Que tanto apronta?
Todo meu mundo
Torna-se visto,
Quando, no filtro
De papel, brilho.
Adriano Nunes
(inédito)
para um melhor conhecimento deste poeta brasileiro, veja-se o seu blog http://astripasdoverso.blogspot.com/ QUEFAÇOCOMOQUENÃOFAÇO, e a entrevista que deu, no blog
http://peneiradorato.blogspot.com/ POEIRA DE SEBO
08/07/2009
QUEBRADA
Hora da alcateia na praça.
Sigo
o hálito transbordante
da desordem.
Uma lua de cobre
em sua órbita pedestre
poderia.
Inscrito na linhagem
do círculo,
salto possibilidades e geometria.
Invado a zona secreta
da casa da intolerância,
turva escrita de decretos
para burla e tédio.
Encurralado no escuro,
derrubo o rumor de qualquer traçado.
Órbita pessoal possível:
à deriva, ao léu, ilegível,
apenas o imprevisto por caminho.
José Antônio Cavalcanti
Retirado, com a devida autorização do autor, do seu blog http://poemargens.blogspot.com/
Sigo
o hálito transbordante
da desordem.
Uma lua de cobre
em sua órbita pedestre
poderia.
Inscrito na linhagem
do círculo,
salto possibilidades e geometria.
Invado a zona secreta
da casa da intolerância,
turva escrita de decretos
para burla e tédio.
Encurralado no escuro,
derrubo o rumor de qualquer traçado.
Órbita pessoal possível:
à deriva, ao léu, ilegível,
apenas o imprevisto por caminho.
José Antônio Cavalcanti
Retirado, com a devida autorização do autor, do seu blog http://poemargens.blogspot.com/
06/07/2009
[Finalmente um poema?]
Quando nos deitamos, amor,
sobre a cama fofa dos séculos
eu não olho para a lua
nem penso em livros complicados.
Sinto a tua pele, o teu buço
e o fim da história no púbis.
Depois enrolamo-nos, fingimos
que esta vida é nossa
ou que um cronometrado orgasmo
redime a pobreza simples dos dias.
É a altura, amor, em que dou
por mim a acender os cigarros
solicitamente uns nos outros,
à espera que tudo acabe
- os poemas, a vidinha, o mais -
e que o arroto seja teu,
minha ânfora de cetim tão roxa.
ANÓNIMO (?)
de Bardamerda - Poemas Citacionistas Contemporâneos, Lisboa & etc, 1999
in POETAS SEM QUALIDADES 1994-2002, Averno, Novembro de 2002
sobre a cama fofa dos séculos
eu não olho para a lua
nem penso em livros complicados.
Sinto a tua pele, o teu buço
e o fim da história no púbis.
Depois enrolamo-nos, fingimos
que esta vida é nossa
ou que um cronometrado orgasmo
redime a pobreza simples dos dias.
É a altura, amor, em que dou
por mim a acender os cigarros
solicitamente uns nos outros,
à espera que tudo acabe
- os poemas, a vidinha, o mais -
e que o arroto seja teu,
minha ânfora de cetim tão roxa.
ANÓNIMO (?)
de Bardamerda - Poemas Citacionistas Contemporâneos, Lisboa & etc, 1999
in POETAS SEM QUALIDADES 1994-2002, Averno, Novembro de 2002
05/07/2009
y_
ypslom, xis, zê, como na antiguidade de alfa a omega as
[pestanas
dos
olhos dos deuses caem como grandes pedregulhos
ouvindo-se em todo o universo e a folia
de andar de bicicleta num precipício faz
lembrar o quão relativo é o ser humano na deambulação
desesperada à frente da última versão da
play-station
Vindeirinho
in POETAS SEM QUALIDADES 1994-2002, Averno, Novembro de 2002
[pestanas
dos
olhos dos deuses caem como grandes pedregulhos
ouvindo-se em todo o universo e a folia
de andar de bicicleta num precipício faz
lembrar o quão relativo é o ser humano na deambulação
desesperada à frente da última versão da
play-station
Vindeirinho
in POETAS SEM QUALIDADES 1994-2002, Averno, Novembro de 2002
30/06/2009
Sumo de Laranja
A tarde fria arrasta-nos para dentro da cama.
Aos poucos deixamo-nos ficar... ...por ali.
Fixo a fraca coluna de sol mergulhar pelo vidro da janela
e sustentar-se friamente no soalho silencioso.
As tuas costas flutuam amparadas no colchão.
Lentamente deixas cair o braço para fora da cama.
Sorrio não só por te sentir adormecida
mas também por a tua pulsação ser como uma balada,
- o seu refrão será sempre um refresco -
e as suas melodias ainda que electrónicas
estarão sempre à nossa espera
nos head-phones abandonados
sobre a mesa de cabeceira.
João Miguel Queirós
in POETAS SEM QUALIDADES 1994-2002, Averno, Novembro de 2002
Aos poucos deixamo-nos ficar... ...por ali.
Fixo a fraca coluna de sol mergulhar pelo vidro da janela
e sustentar-se friamente no soalho silencioso.
As tuas costas flutuam amparadas no colchão.
Lentamente deixas cair o braço para fora da cama.
Sorrio não só por te sentir adormecida
mas também por a tua pulsação ser como uma balada,
- o seu refrão será sempre um refresco -
e as suas melodias ainda que electrónicas
estarão sempre à nossa espera
nos head-phones abandonados
sobre a mesa de cabeceira.
João Miguel Queirós
in POETAS SEM QUALIDADES 1994-2002, Averno, Novembro de 2002
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