31/08/2009

ALDEBARAN

Toda a tarde colhi amoras num poema de Ginsberg,
mastigando-as com alguns pensamentos desordenados
que em ti se detinham - como numa paragem de autocarro.
Depois fizemos café numa velha cafeteira
arruinada
que Allen encontrara ao limpar as ervas
da sua nova casa de campo
em Berkeley. Enquanto bebíamos
expliquei-lhe as razões que tornavam o teu nome
impronunciável
e o escondiam numa estrela. Falei-lhe disso
e da tua indesmentível energia pélvica.
Sentiamo-nos ambos muito sós
a cortar em fatias sanduiches de realidade.


                                                                                                   25.3.91


Egito Gonçalves


in E NO ENTANTO MOVE-SE, Quetzal Editores, Lisboa, 1995

30/08/2009

CORVO

Poderás  ralhar nevermore
nos umbrais da poesia
cobiçar a capoeira
ao galo a cantar pelo menos
desde as cantigas de amigo:
de ti os vindouros sem penas
farão arroz de cabidela
ou quem sabe torpe gralha,
de corvo corruptela.


De ruínas farás sempre
uma torre habitada,
viela, balcão, taberna assombrada,
inútil propesto
de utilíssimo nada.




Rui Lage


in Corvo, Quasi Edições, Outubro de 2008

26/08/2009

SUB ROSA

                    para o Herberto Helder




Não somos os últimos, pois se
há coisa que o mundo sempre fez bem
foi acabar. De novo e sempre: acabar.


Mas já não trabalhamos com o ouro
e temos um certo pudor tardio
em falar de deus, do amor ou até do corpo.


As metáforas arrefecem, talvez contrariadas.
São casas devolutas, mães risonhas
ou sombrias cujo grito deixámos de escutar.


Do lixo, porém, temos um vasto
e inútil conhecimento. Possa
ele servir de rosa triste aos
que não cantam sequer, por delicadeza.




Manuel de Freitas


in Telhados de Vidro, N.º 12 . Maio. 2009, Averno

25/08/2009

de andrade

Há muitos no mapa. Esta cidade,
por exemplo: Eugénio.


Os barcos mal despertaram e o arado,
é sempre muito cedo, põe-se a escrever,


entre o vento e o milho,
versos de Shakespeare e Vergílio.




Eucanaã Ferraz


in Cinemateca, Quasi Edições, Fevereiro 2009

20/08/2009

DEUS EX MACHINA

Farei ainda mais um decassílabo
e mais um soneto e ainda por cima
invocarei, só por questão de rima,
figuras mitológicas, feito Ícaro,


cativo do labirinto que Dédalo,
seu pai, artífice também das asas
que brindariam ao filho, bipétalo,
seu mergulho no azul, arquitectou.


Dédalo explicou a precariedade
do artefacto de papel e casqueira,
geometria mística e goma-arábica


solúveis ao sol. Mas agora é tarde
e rasga a geringonça o céu à beira
do nada
              seu destino
                                 sua dádiva




Antonio Cicero


in A Cidade e os Livros, Quasi Edições, Fevereiro de 2006 (nesta versão, com algumas alterações indicadas pelo poeta)

19/08/2009

APANHADOR DE PÉROLAS

Às vezes a noite estende-se através da pele,
mas tu mergulhas até apanhar a pedra
lá no fundo
e uma clareira começa a abrir-se no buraco
por onde esvaziaste a noite.




Rosa Alice Branco


in DA ALMA E DOS ESPÍRITOS ANIMAIS, Campo das Letras - Editores, S.A., Julho de 2001

07/08/2009

código de hamurabi

Aos poetas prolixos, um
par de versos como cela.




José Mário Silva


in Luz Indecisa, Oceanos, Abril  2009

06/08/2009

TERRA NATAL

A bacia range sob o peso da roupa
que há muito a mãe já não lava
nas águas da terra natal.




Rui Lage


in Berçário, Quasi Edições, Maio de 2004

01/08/2009

AS SETE BICAS

O silêncio com as suas sete bicas
ou o lume anunciando a neve
sabem da cumplicidade
do sol e da cal, da boca e da sede.




Eugénio de Andrade


in PEQUENO FORMATO, edição da Fundação Eugénio de Andrade, Fevereiro de 1997

29/07/2009

EPITÁFIO PARA VAMPIROS

Sob estas pedras jazem os vampiros!


A vida foi-lhes pródiga por séculos;
pisaram sempre a relva; mas agora,
finalmente, banidos, no silêncio,
mergulhados entre vermes e poeiras,
transformaram-se no húmus que não foram.


Os homens amavam sem serenidade;
as mulheres não tinham filhos sem remorsos.


Sob estas pedras jazem. Com o sangue
bebido aos que buscavam as estrelas,
inventaram alguns Deuses protectores,
fizeram sobretudos contra o ódio,
gizaram itinerários de assassínio.


A vida era alguns pássaros, por vezes,
logo engolidos pelo pesadelo.


A morte veio, fulminante, certa,
com os olhos inflexíveis dos famintos.
Violenta, como a Deusa da Vingança,
extinguiu no ar, por uma vez,
o grito de rapina dos seus voos.


É doce a hora
de que os ponteiros já não ceifam sonhos.




Egito Gonçalves


in SONHAR A TERRA LIVRE E INSUBMISSA..., Editorial Inova, Porto, Fevereiro de 1973

26/07/2009

6. OS LÁBIOS DO TEMPO

Regresso às coisas simples
como se aprendesse o alfabeto
e tu me ensinasses a soletrar
a árvore onde damos sombra
o fruto que alimentamos com os lábios.
Ao meio-dia
o entardecer cavalga sobre nós
e à mesma hora
a noite chega com um traço
que afaga as cores da sombra.
É assim que alimentamos o tempo
e os animais sentam-se à espera das sobras
para escreverem a nossa história.




Rosa Alice Branco


in "O ÚNICO TRAÇO DO PINCEL", Editora LIMIAR, Abril 1997

14/07/2009

TUBO DE ENSAIO

Ponho meu sonho
Dentro do frasco
De vidro. A vida,
No fundo, fica.


Um outro pranto
Quer vir à tona.
Aquela dúvida
Que tanto apronta?


Todo meu mundo
Torna-se visto,
Quando, no filtro
De papel, brilho.


Adriano Nunes


(inédito)


para um melhor conhecimento deste poeta brasileiro, veja-se o seu blog http://astripasdoverso.blogspot.com/ QUEFAÇOCOMOQUENÃOFAÇO, e a entrevista que deu, no blog
http://peneiradorato.blogspot.com/ POEIRA DE SEBO