Serão ainda teus os objectos sobre a mesa?
A surpresa do pão, a evidência do lápis afiado,
aquele fulgor de pássaro sobrevoando a cama
coexistem sobre a mesa e eu pergunto
de quem são agora: o pão sempre fresco
aparece às vezes coberto de bolor e ao amanhecer
a neblina esconde o rio que passa sob a ponte
por onde passo: alguns quilómetros por hora
e deixas de correr em mim. O pão nos dentes
da saliva será teu, tu outro que rondas
os meus dias? O mesmo caderno e esta tinta
quando anoitece os teus olhos de quem são?
Ainda teus e desse outro que se vai tornando visível
e desarruma tudo o que eu sabia e o meu vestido?
Sobre a mesa o copo nunca bebe a mesma água.
Rosa Alice Branco
in O Mundo Não Acaba no Frio dos teus Ossos (pensa ela), Quasi Edições, Maio de 2009
02/09/2009
01/09/2009
HERODES
para Miguel Viqueira
Gritam, mijam, cheiram a leite
azedo. Andam por aí
pelos colos das mães, montados
em burros poeirentos. E há um
que aqueles pretos dizem que há-de um dia
sentar no meu coxim o cu borrado.
Não sabem nada, uns e outros,
soltam vagidos que ninguém entende.
Dou-lhes na mona a uns
e os outros que passeiem.
Pedro Tamen
in Analogia e Dedos, Oceanos, ASA Editores, 2006
Gritam, mijam, cheiram a leite
azedo. Andam por aí
pelos colos das mães, montados
em burros poeirentos. E há um
que aqueles pretos dizem que há-de um dia
sentar no meu coxim o cu borrado.
Não sabem nada, uns e outros,
soltam vagidos que ninguém entende.
Dou-lhes na mona a uns
e os outros que passeiem.
Pedro Tamen
in Analogia e Dedos, Oceanos, ASA Editores, 2006
31/08/2009
ALDEBARAN
Toda a tarde colhi amoras num poema de Ginsberg,
mastigando-as com alguns pensamentos desordenados
que em ti se detinham - como numa paragem de autocarro.
Depois fizemos café numa velha cafeteira
arruinada
que Allen encontrara ao limpar as ervas
da sua nova casa de campo
em Berkeley. Enquanto bebíamos
expliquei-lhe as razões que tornavam o teu nome
impronunciável
e o escondiam numa estrela. Falei-lhe disso
e da tua indesmentível energia pélvica.
Sentiamo-nos ambos muito sós
a cortar em fatias sanduiches de realidade.
25.3.91
Egito Gonçalves
in E NO ENTANTO MOVE-SE, Quetzal Editores, Lisboa, 1995
mastigando-as com alguns pensamentos desordenados
que em ti se detinham - como numa paragem de autocarro.
Depois fizemos café numa velha cafeteira
arruinada
que Allen encontrara ao limpar as ervas
da sua nova casa de campo
em Berkeley. Enquanto bebíamos
expliquei-lhe as razões que tornavam o teu nome
impronunciável
e o escondiam numa estrela. Falei-lhe disso
e da tua indesmentível energia pélvica.
Sentiamo-nos ambos muito sós
a cortar em fatias sanduiches de realidade.
25.3.91
Egito Gonçalves
in E NO ENTANTO MOVE-SE, Quetzal Editores, Lisboa, 1995
30/08/2009
CORVO
Poderás ralhar nevermore
nos umbrais da poesia
cobiçar a capoeira
ao galo a cantar pelo menos
desde as cantigas de amigo:
de ti os vindouros sem penas
farão arroz de cabidela
ou quem sabe torpe gralha,
de corvo corruptela.
De ruínas farás sempre
uma torre habitada,
viela, balcão, taberna assombrada,
inútil propesto
de utilíssimo nada.
Rui Lage
in Corvo, Quasi Edições, Outubro de 2008
nos umbrais da poesia
cobiçar a capoeira
ao galo a cantar pelo menos
desde as cantigas de amigo:
de ti os vindouros sem penas
farão arroz de cabidela
ou quem sabe torpe gralha,
de corvo corruptela.
De ruínas farás sempre
uma torre habitada,
viela, balcão, taberna assombrada,
inútil propesto
de utilíssimo nada.
Rui Lage
in Corvo, Quasi Edições, Outubro de 2008
26/08/2009
SUB ROSA
para o Herberto Helder
Não somos os últimos, pois se
há coisa que o mundo sempre fez bem
foi acabar. De novo e sempre: acabar.
Mas já não trabalhamos com o ouro
e temos um certo pudor tardio
em falar de deus, do amor ou até do corpo.
As metáforas arrefecem, talvez contrariadas.
São casas devolutas, mães risonhas
ou sombrias cujo grito deixámos de escutar.
Do lixo, porém, temos um vasto
e inútil conhecimento. Possa
ele servir de rosa triste aos
que não cantam sequer, por delicadeza.
Manuel de Freitas
in Telhados de Vidro, N.º 12 . Maio. 2009, Averno
Não somos os últimos, pois se
há coisa que o mundo sempre fez bem
foi acabar. De novo e sempre: acabar.
Mas já não trabalhamos com o ouro
e temos um certo pudor tardio
em falar de deus, do amor ou até do corpo.
As metáforas arrefecem, talvez contrariadas.
São casas devolutas, mães risonhas
ou sombrias cujo grito deixámos de escutar.
Do lixo, porém, temos um vasto
e inútil conhecimento. Possa
ele servir de rosa triste aos
que não cantam sequer, por delicadeza.
Manuel de Freitas
in Telhados de Vidro, N.º 12 . Maio. 2009, Averno
25/08/2009
de andrade
Há muitos no mapa. Esta cidade,
por exemplo: Eugénio.
Os barcos mal despertaram e o arado,
é sempre muito cedo, põe-se a escrever,
entre o vento e o milho,
versos de Shakespeare e Vergílio.
Eucanaã Ferraz
in Cinemateca, Quasi Edições, Fevereiro 2009
por exemplo: Eugénio.
Os barcos mal despertaram e o arado,
é sempre muito cedo, põe-se a escrever,
entre o vento e o milho,
versos de Shakespeare e Vergílio.
Eucanaã Ferraz
in Cinemateca, Quasi Edições, Fevereiro 2009
20/08/2009
DEUS EX MACHINA
Farei ainda mais um decassílabo
e mais um soneto e ainda por cima
invocarei, só por questão de rima,
figuras mitológicas, feito Ícaro,
cativo do labirinto que Dédalo,
seu pai, artífice também das asas
que brindariam ao filho, bipétalo,
seu mergulho no azul, arquitectou.
Dédalo explicou a precariedade
do artefacto de papel e casqueira,
geometria mística e goma-arábica
solúveis ao sol. Mas agora é tarde
e rasga a geringonça o céu à beira
do nada
seu destino
sua dádiva
Antonio Cicero
in A Cidade e os Livros, Quasi Edições, Fevereiro de 2006 (nesta versão, com algumas alterações indicadas pelo poeta)
e mais um soneto e ainda por cima
invocarei, só por questão de rima,
figuras mitológicas, feito Ícaro,
cativo do labirinto que Dédalo,
seu pai, artífice também das asas
que brindariam ao filho, bipétalo,
seu mergulho no azul, arquitectou.
Dédalo explicou a precariedade
do artefacto de papel e casqueira,
geometria mística e goma-arábica
solúveis ao sol. Mas agora é tarde
e rasga a geringonça o céu à beira
do nada
seu destino
sua dádiva
Antonio Cicero
in A Cidade e os Livros, Quasi Edições, Fevereiro de 2006 (nesta versão, com algumas alterações indicadas pelo poeta)
19/08/2009
APANHADOR DE PÉROLAS
Às vezes a noite estende-se através da pele,
mas tu mergulhas até apanhar a pedra
lá no fundo
e uma clareira começa a abrir-se no buraco
por onde esvaziaste a noite.
Rosa Alice Branco
in DA ALMA E DOS ESPÍRITOS ANIMAIS, Campo das Letras - Editores, S.A., Julho de 2001
mas tu mergulhas até apanhar a pedra
lá no fundo
e uma clareira começa a abrir-se no buraco
por onde esvaziaste a noite.
Rosa Alice Branco
in DA ALMA E DOS ESPÍRITOS ANIMAIS, Campo das Letras - Editores, S.A., Julho de 2001
07/08/2009
código de hamurabi
Aos poetas prolixos, um
par de versos como cela.
José Mário Silva
in Luz Indecisa, Oceanos, Abril 2009
par de versos como cela.
José Mário Silva
in Luz Indecisa, Oceanos, Abril 2009
06/08/2009
TERRA NATAL
A bacia range sob o peso da roupa
que há muito a mãe já não lava
nas águas da terra natal.
Rui Lage
in Berçário, Quasi Edições, Maio de 2004
que há muito a mãe já não lava
nas águas da terra natal.
Rui Lage
in Berçário, Quasi Edições, Maio de 2004
01/08/2009
AS SETE BICAS
O silêncio com as suas sete bicas
ou o lume anunciando a neve
sabem da cumplicidade
do sol e da cal, da boca e da sede.
Eugénio de Andrade
in PEQUENO FORMATO, edição da Fundação Eugénio de Andrade, Fevereiro de 1997
ou o lume anunciando a neve
sabem da cumplicidade
do sol e da cal, da boca e da sede.
Eugénio de Andrade
in PEQUENO FORMATO, edição da Fundação Eugénio de Andrade, Fevereiro de 1997
29/07/2009
EPITÁFIO PARA VAMPIROS
Sob estas pedras jazem os vampiros!
A vida foi-lhes pródiga por séculos;
pisaram sempre a relva; mas agora,
finalmente, banidos, no silêncio,
mergulhados entre vermes e poeiras,
transformaram-se no húmus que não foram.
Os homens amavam sem serenidade;
as mulheres não tinham filhos sem remorsos.
Sob estas pedras jazem. Com o sangue
bebido aos que buscavam as estrelas,
inventaram alguns Deuses protectores,
fizeram sobretudos contra o ódio,
gizaram itinerários de assassínio.
A vida era alguns pássaros, por vezes,
logo engolidos pelo pesadelo.
A morte veio, fulminante, certa,
com os olhos inflexíveis dos famintos.
Violenta, como a Deusa da Vingança,
extinguiu no ar, por uma vez,
o grito de rapina dos seus voos.
É doce a hora
de que os ponteiros já não ceifam sonhos.
Egito Gonçalves
in SONHAR A TERRA LIVRE E INSUBMISSA..., Editorial Inova, Porto, Fevereiro de 1973
A vida foi-lhes pródiga por séculos;
pisaram sempre a relva; mas agora,
finalmente, banidos, no silêncio,
mergulhados entre vermes e poeiras,
transformaram-se no húmus que não foram.
Os homens amavam sem serenidade;
as mulheres não tinham filhos sem remorsos.
Sob estas pedras jazem. Com o sangue
bebido aos que buscavam as estrelas,
inventaram alguns Deuses protectores,
fizeram sobretudos contra o ódio,
gizaram itinerários de assassínio.
A vida era alguns pássaros, por vezes,
logo engolidos pelo pesadelo.
A morte veio, fulminante, certa,
com os olhos inflexíveis dos famintos.
Violenta, como a Deusa da Vingança,
extinguiu no ar, por uma vez,
o grito de rapina dos seus voos.
É doce a hora
de que os ponteiros já não ceifam sonhos.
Egito Gonçalves
in SONHAR A TERRA LIVRE E INSUBMISSA..., Editorial Inova, Porto, Fevereiro de 1973
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