12/09/2009

SOU UMA CRIATURA

Como esta pedra
de São Miguel
assim fria
assim dura
assim enxuta
assim refractária
assim totalmente
desanimada


Como esta pedra
é o meu pranto
que se não vê


A morte
desconta-se
vivendo


Giuseppe Ungaretti


com a devida vénia, de Sentimento do Tempo, Publicações Dom Quixote, Fevereiro de 1971

07/09/2009

A UM POETA

Não reveleis o sonho. A luz do dia
fere demais a alma, e oculta
a face esquece a sua chaga rubra.


A dor, amordaçando, purifica:
que ela te dê no sangue o novo alento
para outros voos de que sairás vencido


(mas entretanto vives...). E procura
haurir na solidão a graça, o prémio
daquele instante puro, essencial


a que não chega o vão rumor do tempo
desfigurado e vil... E já liberto
conhecerás tua verdade inteira


ouvindo alguém, sem corpo nem memória,
segredar-te as palavras invisíveis
de que é tecida a Noite - tua esperança.


Luís Amaro


com a devida vénia, de DIÁRIO ÍNTIMO, DÁDIVA E OUTROS POEMAS, &etc, 2006

03/09/2009

A Sagração dos Ossos

            a Bruno Tolentino




Considerai estes ossos
- tíbios, inúteis, apócrifos -
que sob a lápide dormem
sem prédica que os conforte.


Considerai: é o que sobra
de quem lhes serviu de invólucro
e agora já não se move
entre as tábuas do sarcófago.


Dormem sem túnica ou toga
e, quando muito, um lençol
lhes cobre as partes mais nobres
(as outras quedam-se à mostra,


não dos que estão aqui fora,
mas dos ácidos que os roem
ou do lodo que lhes molha
até a polpa esponjosa).


De quem foram tais despojos
tão nulos e sem memória,
tão sinistros quanto inglórios
em seu mutismo hiperbólico?


Onde andaram? Em que solo
deitaram sêmem e prole?
Foram químicos, astrólogos,
remendões, físicos, biólogos?


Ou nada foram? Que importa
não haja um só microscópio
lhes cevado a magra forma
ou a mais ínfima nódoa?


Existiram. Esse é o tópico
que aqui, afinal, se aborda.
E eis que o faço porque, ao toque
de meus dedos em seus bordos,


tais ossos como que imploram
a mim que os chore e os recorde,
que jamais os deixe à corda
da solidão que os enforca,


nem à sanha do antropólogo
que os vê, não como o espólio
do que foi amor ou ódio,
lascívia, miséria e glória,


mas como a lívida prova
de que o sonho foi-se embora
e dele só resta a escória
numa urna museológica.


E então me pergunto, a sós:
por que desdenhar o outrora
se nele é que ecoa a voz
do que, no futuro, aflora?


Não bastaria uma rótula
para atestar este cogito,
ergo sum, aqui e agora,
alheio a qualquer prosódia


ou língua em que se desdobre
essa falácia que aposta
no fundo abismo sem orlas
entre o que vive e que morre?


Baixa uma névoa viscosa
sobre as pálpebras da aurora.
E ali, de pé, sob a estola
de um macabro sacerdote,


sagro estes ossos que, póstumos,
recusam-se à própria sorte,
como a dizer-me nos olhos:
a vida é maior que a morte.




Ivan Junqueira


in Poemas Reunidos, Editora Record, 1999.


colhido, com a devida vénia, no blogue Poeira de Sebo, http://peneiradorato.blogspot.com

02/09/2009

O COPO DE HERÁCLITO

Serão ainda teus os objectos sobre a mesa?
A surpresa do pão, a evidência do lápis afiado,
aquele fulgor de pássaro sobrevoando a cama
coexistem sobre a mesa e eu pergunto
de quem são agora: o pão sempre fresco
aparece às vezes coberto de bolor e ao amanhecer
a neblina esconde o rio que passa sob a ponte
por onde passo: alguns quilómetros por hora
e deixas de correr em mim. O pão nos dentes
da saliva será teu, tu outro que rondas
os meus dias? O mesmo caderno e esta tinta
quando anoitece os teus olhos de quem são?
Ainda teus e desse outro que se vai tornando visível
e desarruma tudo o que eu sabia e o meu vestido?
Sobre a mesa o copo nunca bebe a mesma água.




Rosa Alice Branco


in O Mundo Não Acaba no Frio dos teus Ossos (pensa ela), Quasi Edições, Maio de 2009

01/09/2009

HERODES

                                                     para Miguel Viqueira




Gritam, mijam, cheiram a leite
azedo. Andam por aí
pelos colos das mães, montados
em burros poeirentos. E há um
que aqueles pretos dizem que há-de um dia
sentar no meu coxim o cu borrado.
Não sabem nada, uns e outros,
soltam vagidos que ninguém entende.
Dou-lhes na mona a uns
e os outros que passeiem.




Pedro Tamen


in Analogia e Dedos, Oceanos, ASA Editores, 2006

31/08/2009

ALDEBARAN

Toda a tarde colhi amoras num poema de Ginsberg,
mastigando-as com alguns pensamentos desordenados
que em ti se detinham - como numa paragem de autocarro.
Depois fizemos café numa velha cafeteira
arruinada
que Allen encontrara ao limpar as ervas
da sua nova casa de campo
em Berkeley. Enquanto bebíamos
expliquei-lhe as razões que tornavam o teu nome
impronunciável
e o escondiam numa estrela. Falei-lhe disso
e da tua indesmentível energia pélvica.
Sentiamo-nos ambos muito sós
a cortar em fatias sanduiches de realidade.


                                                                                                   25.3.91


Egito Gonçalves


in E NO ENTANTO MOVE-SE, Quetzal Editores, Lisboa, 1995

30/08/2009

CORVO

Poderás  ralhar nevermore
nos umbrais da poesia
cobiçar a capoeira
ao galo a cantar pelo menos
desde as cantigas de amigo:
de ti os vindouros sem penas
farão arroz de cabidela
ou quem sabe torpe gralha,
de corvo corruptela.


De ruínas farás sempre
uma torre habitada,
viela, balcão, taberna assombrada,
inútil propesto
de utilíssimo nada.




Rui Lage


in Corvo, Quasi Edições, Outubro de 2008

26/08/2009

SUB ROSA

                    para o Herberto Helder




Não somos os últimos, pois se
há coisa que o mundo sempre fez bem
foi acabar. De novo e sempre: acabar.


Mas já não trabalhamos com o ouro
e temos um certo pudor tardio
em falar de deus, do amor ou até do corpo.


As metáforas arrefecem, talvez contrariadas.
São casas devolutas, mães risonhas
ou sombrias cujo grito deixámos de escutar.


Do lixo, porém, temos um vasto
e inútil conhecimento. Possa
ele servir de rosa triste aos
que não cantam sequer, por delicadeza.




Manuel de Freitas


in Telhados de Vidro, N.º 12 . Maio. 2009, Averno

25/08/2009

de andrade

Há muitos no mapa. Esta cidade,
por exemplo: Eugénio.


Os barcos mal despertaram e o arado,
é sempre muito cedo, põe-se a escrever,


entre o vento e o milho,
versos de Shakespeare e Vergílio.




Eucanaã Ferraz


in Cinemateca, Quasi Edições, Fevereiro 2009

20/08/2009

DEUS EX MACHINA

Farei ainda mais um decassílabo
e mais um soneto e ainda por cima
invocarei, só por questão de rima,
figuras mitológicas, feito Ícaro,


cativo do labirinto que Dédalo,
seu pai, artífice também das asas
que brindariam ao filho, bipétalo,
seu mergulho no azul, arquitectou.


Dédalo explicou a precariedade
do artefacto de papel e casqueira,
geometria mística e goma-arábica


solúveis ao sol. Mas agora é tarde
e rasga a geringonça o céu à beira
do nada
              seu destino
                                 sua dádiva




Antonio Cicero


in A Cidade e os Livros, Quasi Edições, Fevereiro de 2006 (nesta versão, com algumas alterações indicadas pelo poeta)

19/08/2009

APANHADOR DE PÉROLAS

Às vezes a noite estende-se através da pele,
mas tu mergulhas até apanhar a pedra
lá no fundo
e uma clareira começa a abrir-se no buraco
por onde esvaziaste a noite.




Rosa Alice Branco


in DA ALMA E DOS ESPÍRITOS ANIMAIS, Campo das Letras - Editores, S.A., Julho de 2001

07/08/2009

código de hamurabi

Aos poetas prolixos, um
par de versos como cela.




José Mário Silva


in Luz Indecisa, Oceanos, Abril  2009