16/12/2009

Sob epígrafe de T.S. Eliot - 1

     Let us go, through certain half-desert streets,
     The muttering retreats
     Of retless nights in one-night cheap hotels


     T.S. Eliot


1.


vem e desce comigo ao coração
da noite onde os teus sonhos se recolhem
e se dissolvem
como sal na água dos teus olhos


outra é a noite que sentes
como tua


não esta que pulsa na morte
das cegonhas


essoutra que te chama por teresa
inês julieta eurídice
que enfim te nomeia eterna


porque eterno o amor julgas


é uma noite de espelhos
onde o reverso te ilumina
como no verso de ungaretti
de imenso


porque tudo
tudo nela é ilusão


Xavier Zarco

29/10/2009

INCUBADORA

Era tão pequena a mão   que
Nem o seu dedo mendinho

Conseguia agarrar. Pesava
Quinhentos gramas e respirava

Sem a ajuda do ventilador
O coração da sua mãe quase

Que não batia    com receio de
Que ele sufocasse sob o peso

Do seu amor

Jorge Sousa Braga

com a devida vénia, de A FERIDA ABERTA, Assírio & Alvim, Lisboa, 2001

20/10/2009

Versões do mundo

Se tiveres de escolher um reino
escolhe o relento
a noite tem a brancura do alabastro
ou mais extraordinária ainda


Ao que vem depois de ti
cede o instante
sem pronunciar
seu nome

José Tolentino Mendonça

com a devida vénia, de O VIAJANTE SEM SONO, Assírio & Alvim, Lisboa, Setembro de 2009


14/10/2009

PORTO DE ABRIGO

É esta a cidade que o destino
te reservou. Uma cidade de


gente dura cuja maior
extravagância é um vaso


de sardinheiras na janela
de um ou outro edifício.


Tinhas sonhado com uma
cidade branca mais a sul...


Esta cidade não é uma cida-
de é um vício.


Jorge Sousa Braga


com a devida vénia, de PORTO DE ABRIGO, Assírio & Alvim, 2005

12/10/2009

Um poema de Álvaro de Campos

...
Dá-me lírios, lírios
E rosas também.
Dá-me rosas, rosas
E lírios também,
Crisântemos, dálias,
Violetas, e os girassóis
Acima de todas as flores...


com a devida vénia, de A RELIGIÃO DO GIRASSOL, uma antologia organizada por Jorge Sousa Braga, editora Assírio & Alvim, 2000

09/10/2009

A Era dos Vivos

Os vivos
não desistem
de viver
Os mortos também


Mohammed Al-As'Ad


com a devida vénia, de Pequena Antologia da Poesia Palestiniana Contemporânea, Edições Asa, Fevereiro de 2004

03/10/2009

Legenda

Quando a dor se levanta,
ergue o teu rosto:
as estrelas só nascem
a seguir ao sol-posto.


Glória de Sant'Anna

in Música ausente, 1954
com a devida vénia, de DiVersos - Poesia e Tradução: N.º 15 - Junho de 2009