O canto, no momento decisivo,
por surgido espasmo
encalha, pára,
mesmo onde trepa
e a ebriedade
solta obsessão, insipiência.
- como se, ao chamar-se pelo nome,
tivesse tentado um gesto
e tivesse chegado ao centro
de um vazio ilimitado:
de lá, mexendo braços ou brânquias,
detém a orla
de uma terra friável.
- como se o fôlego viesse
de retículos nunca explorados
(e ele, o cantor,
andasse vísceras e pés)
rumo a um bem que já não tem nome
ou a um mal que desse bem
esfomeia e respira.
- como se a voz
fosse um deus solitário
sem mais trono nem aljava
e andasse rumo a lugares apagados
à procura de outras medidas.
- como um vórtice
enroscando-se se desfaz
num meandro
de vidro imponderável.
Elio Pecora
com a devida vénia, de POEMAS ESCOLHIDOS, Edições Quasi, Setembro de 2008
31/12/2009
16/12/2009
Sob epígrafe de T.S. Eliot - 1
Let us go, through certain half-desert streets,
The muttering retreats
Of retless nights in one-night cheap hotels
T.S. Eliot
1.
vem e desce comigo ao coração
da noite onde os teus sonhos se recolhem
e se dissolvem
como sal na água dos teus olhos
outra é a noite que sentes
como tua
não esta que pulsa na morte
das cegonhas
essoutra que te chama por teresa
inês julieta eurídice
que enfim te nomeia eterna
porque eterno o amor julgas
é uma noite de espelhos
onde o reverso te ilumina
como no verso de ungaretti
de imenso
porque tudo
tudo nela é ilusão
Xavier Zarco
The muttering retreats
Of retless nights in one-night cheap hotels
T.S. Eliot
1.
vem e desce comigo ao coração
da noite onde os teus sonhos se recolhem
e se dissolvem
como sal na água dos teus olhos
outra é a noite que sentes
como tua
não esta que pulsa na morte
das cegonhas
essoutra que te chama por teresa
inês julieta eurídice
que enfim te nomeia eterna
porque eterno o amor julgas
é uma noite de espelhos
onde o reverso te ilumina
como no verso de ungaretti
de imenso
porque tudo
tudo nela é ilusão
Xavier Zarco
29/10/2009
INCUBADORA
Era tão pequena a mão que
Nem o seu dedo mendinho
Conseguia agarrar. Pesava
Quinhentos gramas e respirava
Sem a ajuda do ventilador
O coração da sua mãe quase
Que não batia com receio de
Que ele sufocasse sob o peso
Do seu amor
Jorge Sousa Braga
com a devida vénia, de A FERIDA ABERTA, Assírio & Alvim, Lisboa, 2001
Nem o seu dedo mendinho
Conseguia agarrar. Pesava
Quinhentos gramas e respirava
Sem a ajuda do ventilador
O coração da sua mãe quase
Que não batia com receio de
Que ele sufocasse sob o peso
Do seu amor
Jorge Sousa Braga
com a devida vénia, de A FERIDA ABERTA, Assírio & Alvim, Lisboa, 2001
20/10/2009
Versões do mundo
Se tiveres de escolher um reino
escolhe o relento
a noite tem a brancura do alabastro
ou mais extraordinária ainda
Ao que vem depois de ti
cede o instante
sem pronunciar
seu nome
José Tolentino Mendonça
com a devida vénia, de O VIAJANTE SEM SONO, Assírio & Alvim, Lisboa, Setembro de 2009
escolhe o relento
a noite tem a brancura do alabastro
ou mais extraordinária ainda
Ao que vem depois de ti
cede o instante
sem pronunciar
seu nome
José Tolentino Mendonça
com a devida vénia, de O VIAJANTE SEM SONO, Assírio & Alvim, Lisboa, Setembro de 2009
14/10/2009
PORTO DE ABRIGO
É esta a cidade que o destino
te reservou. Uma cidade de
gente dura cuja maior
extravagância é um vaso
de sardinheiras na janela
de um ou outro edifício.
Tinhas sonhado com uma
cidade branca mais a sul...
Esta cidade não é uma cida-
de é um vício.
Jorge Sousa Braga
com a devida vénia, de PORTO DE ABRIGO, Assírio & Alvim, 2005
te reservou. Uma cidade de
gente dura cuja maior
extravagância é um vaso
de sardinheiras na janela
de um ou outro edifício.
Tinhas sonhado com uma
cidade branca mais a sul...
Esta cidade não é uma cida-
de é um vício.
Jorge Sousa Braga
com a devida vénia, de PORTO DE ABRIGO, Assírio & Alvim, 2005
12/10/2009
Um poema de Álvaro de Campos
...
Dá-me lírios, lírios
E rosas também.
Dá-me rosas, rosas
E lírios também,
Crisântemos, dálias,
Violetas, e os girassóis
Acima de todas as flores...
com a devida vénia, de A RELIGIÃO DO GIRASSOL, uma antologia organizada por Jorge Sousa Braga, editora Assírio & Alvim, 2000
Dá-me lírios, lírios
E rosas também.
Dá-me rosas, rosas
E lírios também,
Crisântemos, dálias,
Violetas, e os girassóis
Acima de todas as flores...
com a devida vénia, de A RELIGIÃO DO GIRASSOL, uma antologia organizada por Jorge Sousa Braga, editora Assírio & Alvim, 2000
09/10/2009
A Era dos Vivos
Os vivos
não desistem
de viver
Os mortos também
Mohammed Al-As'Ad
com a devida vénia, de Pequena Antologia da Poesia Palestiniana Contemporânea, Edições Asa, Fevereiro de 2004
não desistem
de viver
Os mortos também
Mohammed Al-As'Ad
com a devida vénia, de Pequena Antologia da Poesia Palestiniana Contemporânea, Edições Asa, Fevereiro de 2004
Subscrever:
Mensagens (Atom)