13/01/2010

Dobrada à moda do Porto

Um dia, num restaurante, fora do espaço e do tempo,
Serviram-me o amor como dobrada fria.
Disse delicadamente ao missionário da cozinha
Que a preferia quente,
Que a dobrada (e era à moda do Porto) nunca se come fria.


Impacientaram-se comigo.
Nunca se pode ter razão, nem num restaurante.
Não comi, não pedi outra coisa, paguei a conta,
E vim passear para a rua.


Quem sabe o que isto quer dizer?
Eu não sei, e foi comigo...


(Sei muito bem que na infância de toda a gente houve um jardim,
Particular ou público, ou o do vizinho.
Sei muito bem que brincarmos era o dono dele.
E que a tristeza é de hoje.)


Sei isso muitas vezes,
Mas, se eu pedi amor, porque é que me trouxeram
Dobrada à moda do Porto fria?
Não é prato que se possa comer frio,
Mas trouxeram-mo frio.
Não me queixei, mas estava frio,
Nunca se pode comer frio, mas veio frio.

Álvaro de Campos

com a devida vénia, de POEMAS DE FERNANDO PESSOA, selecção, prefácio e posfácio de Eduardo Lourenço, Visão - JL, Fevereiro de 2006

05/01/2010

GEOLOGIA

Às vezes são homens de bem
empurrados para esta vida,
resquícios da erosão da montanha,
paisagens antigas
enterradas sob o gelo.

Nada está garantido
numa geologia tão frágil. Este chão
pode virar-se sem aviso.
Ainda assim, sejam bem-vindos,
fiquem tristes à vontade.

Vítor Nogueira

com a devida vénia, de MAR LARGO, &etc, Lisboa, Setembro de 2009

02/01/2010

ENDECHA DOS MAIS NOVOS

Enquanto o nosso coração voraz
bate a descompasso com o da Terra,
não queremos ripostar demais à guerra,
fugimos de apostar demais na paz.

Compêndios de nojo, actas de festa,
são escrita tremida para nós,
mas não se lembrem autores de erguer a voz
a dizer o que purga e o que molesta.

Só a voz do sangue ouvimos bem
quando ao leme do ventre almareámos;
fomos inocentes, já nos naufragámos,
corpos de delito, almas de refém.

Luiza Neto Jorge

com a devida vénia, de A LUME, Assírio & Alvim, Lisboa, Maio de 1989

01/01/2010

Calle Principe, 25

Perdemos repentinamente
a profundidade dos campos
os enigmas singulares
a claridade que juramos
conservar

mas levamos anos
a esquecer alguém
que apenas nos olhou

José Tolentino Mendonça

com a devida vénia, de BALDIOS, Assírio & Alvim, Lisboa, Setembro de 1999

31/12/2009

Outra Despedida

O canto, no momento decisivo,
por surgido espasmo
encalha, pára,
mesmo onde trepa
e a ebriedade
solta obsessão, insipiência.

- como se, ao chamar-se pelo nome,
tivesse tentado um gesto
e tivesse chegado ao centro
de um vazio ilimitado:
de lá, mexendo braços ou brânquias,
detém a orla
de uma terra friável.

- como se o fôlego viesse
de retículos nunca explorados
(e ele, o cantor,
andasse vísceras e pés)
rumo a um bem que já não tem nome
ou a um mal que desse bem
esfomeia e respira.

- como se a voz
fosse um deus solitário
sem mais trono nem aljava
e andasse rumo a lugares apagados
à procura de outras medidas.

- como um vórtice
enroscando-se se desfaz
num meandro
de vidro imponderável.

Elio Pecora

com a devida vénia, de POEMAS ESCOLHIDOS, Edições Quasi, Setembro de 2008

16/12/2009

Sob epígrafe de T.S. Eliot - 1

     Let us go, through certain half-desert streets,
     The muttering retreats
     Of retless nights in one-night cheap hotels


     T.S. Eliot


1.


vem e desce comigo ao coração
da noite onde os teus sonhos se recolhem
e se dissolvem
como sal na água dos teus olhos


outra é a noite que sentes
como tua


não esta que pulsa na morte
das cegonhas


essoutra que te chama por teresa
inês julieta eurídice
que enfim te nomeia eterna


porque eterno o amor julgas


é uma noite de espelhos
onde o reverso te ilumina
como no verso de ungaretti
de imenso


porque tudo
tudo nela é ilusão


Xavier Zarco

29/10/2009

INCUBADORA

Era tão pequena a mão   que
Nem o seu dedo mendinho

Conseguia agarrar. Pesava
Quinhentos gramas e respirava

Sem a ajuda do ventilador
O coração da sua mãe quase

Que não batia    com receio de
Que ele sufocasse sob o peso

Do seu amor

Jorge Sousa Braga

com a devida vénia, de A FERIDA ABERTA, Assírio & Alvim, Lisboa, 2001