31/03/2010

[Tem o poeta uma fisga]

Tem  o poeta uma fisga
E um caroço de azeitona
E dele ninguém se pisga
Sem levar uma na mona

O poeta é como um puto
Não há muros que não salte
Nem árvore cujo fruto
Lhe negue o sabor de malte

E mesmo que o tempo passe
E na barba nasça neve
Em cada dia ele faz-se
E desfaz-se no que escreve

Xavier Zarco

27/02/2010

Antonio Cicero - "GUARDAR"


Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la. Em cofre
não se guarda coisa alguma. Em cofre perde-se a coisa
à vista.
Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por admirá-la, isto
é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.
Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por
ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,
isto é, estar por ela ou ser por ela.
Por isso melhor se guarda o vôo de um pássaro
do que pássaros sem vôos.
Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se
publica, por isso se declara e declama um poema:
Para guardá-lo:
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guardar-se o que se quer guardar.

Antonio Cicero

Com a devida vénia, de Di Versos, Revista semestral de Poesia e Tradução, N.º 9, Primavera de 2006, Edições Sempre-em-Pé




13/01/2010

Dobrada à moda do Porto

Um dia, num restaurante, fora do espaço e do tempo,
Serviram-me o amor como dobrada fria.
Disse delicadamente ao missionário da cozinha
Que a preferia quente,
Que a dobrada (e era à moda do Porto) nunca se come fria.


Impacientaram-se comigo.
Nunca se pode ter razão, nem num restaurante.
Não comi, não pedi outra coisa, paguei a conta,
E vim passear para a rua.


Quem sabe o que isto quer dizer?
Eu não sei, e foi comigo...


(Sei muito bem que na infância de toda a gente houve um jardim,
Particular ou público, ou o do vizinho.
Sei muito bem que brincarmos era o dono dele.
E que a tristeza é de hoje.)


Sei isso muitas vezes,
Mas, se eu pedi amor, porque é que me trouxeram
Dobrada à moda do Porto fria?
Não é prato que se possa comer frio,
Mas trouxeram-mo frio.
Não me queixei, mas estava frio,
Nunca se pode comer frio, mas veio frio.

Álvaro de Campos

com a devida vénia, de POEMAS DE FERNANDO PESSOA, selecção, prefácio e posfácio de Eduardo Lourenço, Visão - JL, Fevereiro de 2006

05/01/2010

GEOLOGIA

Às vezes são homens de bem
empurrados para esta vida,
resquícios da erosão da montanha,
paisagens antigas
enterradas sob o gelo.

Nada está garantido
numa geologia tão frágil. Este chão
pode virar-se sem aviso.
Ainda assim, sejam bem-vindos,
fiquem tristes à vontade.

Vítor Nogueira

com a devida vénia, de MAR LARGO, &etc, Lisboa, Setembro de 2009

02/01/2010

ENDECHA DOS MAIS NOVOS

Enquanto o nosso coração voraz
bate a descompasso com o da Terra,
não queremos ripostar demais à guerra,
fugimos de apostar demais na paz.

Compêndios de nojo, actas de festa,
são escrita tremida para nós,
mas não se lembrem autores de erguer a voz
a dizer o que purga e o que molesta.

Só a voz do sangue ouvimos bem
quando ao leme do ventre almareámos;
fomos inocentes, já nos naufragámos,
corpos de delito, almas de refém.

Luiza Neto Jorge

com a devida vénia, de A LUME, Assírio & Alvim, Lisboa, Maio de 1989

01/01/2010

Calle Principe, 25

Perdemos repentinamente
a profundidade dos campos
os enigmas singulares
a claridade que juramos
conservar

mas levamos anos
a esquecer alguém
que apenas nos olhou

José Tolentino Mendonça

com a devida vénia, de BALDIOS, Assírio & Alvim, Lisboa, Setembro de 1999

31/12/2009

Outra Despedida

O canto, no momento decisivo,
por surgido espasmo
encalha, pára,
mesmo onde trepa
e a ebriedade
solta obsessão, insipiência.

- como se, ao chamar-se pelo nome,
tivesse tentado um gesto
e tivesse chegado ao centro
de um vazio ilimitado:
de lá, mexendo braços ou brânquias,
detém a orla
de uma terra friável.

- como se o fôlego viesse
de retículos nunca explorados
(e ele, o cantor,
andasse vísceras e pés)
rumo a um bem que já não tem nome
ou a um mal que desse bem
esfomeia e respira.

- como se a voz
fosse um deus solitário
sem mais trono nem aljava
e andasse rumo a lugares apagados
à procura de outras medidas.

- como um vórtice
enroscando-se se desfaz
num meandro
de vidro imponderável.

Elio Pecora

com a devida vénia, de POEMAS ESCOLHIDOS, Edições Quasi, Setembro de 2008

16/12/2009

Sob epígrafe de T.S. Eliot - 1

     Let us go, through certain half-desert streets,
     The muttering retreats
     Of retless nights in one-night cheap hotels


     T.S. Eliot


1.


vem e desce comigo ao coração
da noite onde os teus sonhos se recolhem
e se dissolvem
como sal na água dos teus olhos


outra é a noite que sentes
como tua


não esta que pulsa na morte
das cegonhas


essoutra que te chama por teresa
inês julieta eurídice
que enfim te nomeia eterna


porque eterno o amor julgas


é uma noite de espelhos
onde o reverso te ilumina
como no verso de ungaretti
de imenso


porque tudo
tudo nela é ilusão


Xavier Zarco

29/10/2009

INCUBADORA

Era tão pequena a mão   que
Nem o seu dedo mendinho

Conseguia agarrar. Pesava
Quinhentos gramas e respirava

Sem a ajuda do ventilador
O coração da sua mãe quase

Que não batia    com receio de
Que ele sufocasse sob o peso

Do seu amor

Jorge Sousa Braga

com a devida vénia, de A FERIDA ABERTA, Assírio & Alvim, Lisboa, 2001

20/10/2009

Versões do mundo

Se tiveres de escolher um reino
escolhe o relento
a noite tem a brancura do alabastro
ou mais extraordinária ainda


Ao que vem depois de ti
cede o instante
sem pronunciar
seu nome

José Tolentino Mendonça

com a devida vénia, de O VIAJANTE SEM SONO, Assírio & Alvim, Lisboa, Setembro de 2009


14/10/2009

PORTO DE ABRIGO

É esta a cidade que o destino
te reservou. Uma cidade de


gente dura cuja maior
extravagância é um vaso


de sardinheiras na janela
de um ou outro edifício.


Tinhas sonhado com uma
cidade branca mais a sul...


Esta cidade não é uma cida-
de é um vício.


Jorge Sousa Braga


com a devida vénia, de PORTO DE ABRIGO, Assírio & Alvim, 2005

12/10/2009

Um poema de Álvaro de Campos

...
Dá-me lírios, lírios
E rosas também.
Dá-me rosas, rosas
E lírios também,
Crisântemos, dálias,
Violetas, e os girassóis
Acima de todas as flores...


com a devida vénia, de A RELIGIÃO DO GIRASSOL, uma antologia organizada por Jorge Sousa Braga, editora Assírio & Alvim, 2000

09/10/2009

A Era dos Vivos

Os vivos
não desistem
de viver
Os mortos também


Mohammed Al-As'Ad


com a devida vénia, de Pequena Antologia da Poesia Palestiniana Contemporânea, Edições Asa, Fevereiro de 2004

08/10/2009

AS LIVRARIAS

                                      para Alberto Mathias


Ia ao centro da cidade
e me achava em livrarias,
livros, páginas, Bagdad,
Londres, Rio, Alexandria:

Que cidade foi aquela
em que me sonhei perder
e antes disso acontecer
aconteceu-me perdê-la?


Antonio Cicero

in, A Cidade e os Livros, Quasi Edições, Fevereiro de 2006

03/10/2009

Legenda

Quando a dor se levanta,
ergue o teu rosto:
as estrelas só nascem
a seguir ao sol-posto.


Glória de Sant'Anna

in Música ausente, 1954
com a devida vénia, de DiVersos - Poesia e Tradução: N.º 15 - Junho de 2009

17/09/2009

AOS VINDOUROS, SE OS HOUVER...

Vós que trabalhais só duas horas
a ver trabalhar a cibernética,
que não deixais o átomo a desoras
na gandaia, pois tendes uma ética;


que do amor sabeis o ponto e a vírgula
e vos engalfinhais livres de medo,
sem peçários, calendários, Pílula,
jaculatórias fora, tarde ou cedo;


computai, computai a nossa falha
sem perfurar demais vossa memória,
que nós fomos pràqui uma gentalha
a fazer passamanes com a história;


que nós fomos (fatal necessidade!)
quadrúmanos da vossa humanidade.


Alexandre O'Neill

com a devida vénia, de  DE OMBRO NA OMBREIRA, Publicações Dom Quixote, Setembro de 1969

12/09/2009

SOU UMA CRIATURA

Como esta pedra
de São Miguel
assim fria
assim dura
assim enxuta
assim refractária
assim totalmente
desanimada


Como esta pedra
é o meu pranto
que se não vê


A morte
desconta-se
vivendo


Giuseppe Ungaretti


com a devida vénia, de Sentimento do Tempo, Publicações Dom Quixote, Fevereiro de 1971

07/09/2009

A UM POETA

Não reveleis o sonho. A luz do dia
fere demais a alma, e oculta
a face esquece a sua chaga rubra.


A dor, amordaçando, purifica:
que ela te dê no sangue o novo alento
para outros voos de que sairás vencido


(mas entretanto vives...). E procura
haurir na solidão a graça, o prémio
daquele instante puro, essencial


a que não chega o vão rumor do tempo
desfigurado e vil... E já liberto
conhecerás tua verdade inteira


ouvindo alguém, sem corpo nem memória,
segredar-te as palavras invisíveis
de que é tecida a Noite - tua esperança.


Luís Amaro


com a devida vénia, de DIÁRIO ÍNTIMO, DÁDIVA E OUTROS POEMAS, &etc, 2006

03/09/2009

A Sagração dos Ossos

            a Bruno Tolentino




Considerai estes ossos
- tíbios, inúteis, apócrifos -
que sob a lápide dormem
sem prédica que os conforte.


Considerai: é o que sobra
de quem lhes serviu de invólucro
e agora já não se move
entre as tábuas do sarcófago.


Dormem sem túnica ou toga
e, quando muito, um lençol
lhes cobre as partes mais nobres
(as outras quedam-se à mostra,


não dos que estão aqui fora,
mas dos ácidos que os roem
ou do lodo que lhes molha
até a polpa esponjosa).


De quem foram tais despojos
tão nulos e sem memória,
tão sinistros quanto inglórios
em seu mutismo hiperbólico?


Onde andaram? Em que solo
deitaram sêmem e prole?
Foram químicos, astrólogos,
remendões, físicos, biólogos?


Ou nada foram? Que importa
não haja um só microscópio
lhes cevado a magra forma
ou a mais ínfima nódoa?


Existiram. Esse é o tópico
que aqui, afinal, se aborda.
E eis que o faço porque, ao toque
de meus dedos em seus bordos,


tais ossos como que imploram
a mim que os chore e os recorde,
que jamais os deixe à corda
da solidão que os enforca,


nem à sanha do antropólogo
que os vê, não como o espólio
do que foi amor ou ódio,
lascívia, miséria e glória,


mas como a lívida prova
de que o sonho foi-se embora
e dele só resta a escória
numa urna museológica.


E então me pergunto, a sós:
por que desdenhar o outrora
se nele é que ecoa a voz
do que, no futuro, aflora?


Não bastaria uma rótula
para atestar este cogito,
ergo sum, aqui e agora,
alheio a qualquer prosódia


ou língua em que se desdobre
essa falácia que aposta
no fundo abismo sem orlas
entre o que vive e que morre?


Baixa uma névoa viscosa
sobre as pálpebras da aurora.
E ali, de pé, sob a estola
de um macabro sacerdote,


sagro estes ossos que, póstumos,
recusam-se à própria sorte,
como a dizer-me nos olhos:
a vida é maior que a morte.




Ivan Junqueira


in Poemas Reunidos, Editora Record, 1999.


colhido, com a devida vénia, no blogue Poeira de Sebo, http://peneiradorato.blogspot.com

02/09/2009

O COPO DE HERÁCLITO

Serão ainda teus os objectos sobre a mesa?
A surpresa do pão, a evidência do lápis afiado,
aquele fulgor de pássaro sobrevoando a cama
coexistem sobre a mesa e eu pergunto
de quem são agora: o pão sempre fresco
aparece às vezes coberto de bolor e ao amanhecer
a neblina esconde o rio que passa sob a ponte
por onde passo: alguns quilómetros por hora
e deixas de correr em mim. O pão nos dentes
da saliva será teu, tu outro que rondas
os meus dias? O mesmo caderno e esta tinta
quando anoitece os teus olhos de quem são?
Ainda teus e desse outro que se vai tornando visível
e desarruma tudo o que eu sabia e o meu vestido?
Sobre a mesa o copo nunca bebe a mesma água.




Rosa Alice Branco


in O Mundo Não Acaba no Frio dos teus Ossos (pensa ela), Quasi Edições, Maio de 2009