Tem o poeta uma fisga
E um caroço de azeitona
E dele ninguém se pisga
Sem levar uma na mona
O poeta é como um puto
Não há muros que não salte
Nem árvore cujo fruto
Lhe negue o sabor de malte
E mesmo que o tempo passe
E na barba nasça neve
Em cada dia ele faz-se
E desfaz-se no que escreve
Xavier Zarco
31/03/2010
13/01/2010
Dobrada à moda do Porto
Um dia, num restaurante, fora do espaço e do tempo,
Serviram-me o amor como dobrada fria.
Disse delicadamente ao missionário da cozinha
Que a preferia quente,
Que a dobrada (e era à moda do Porto) nunca se come fria.
Impacientaram-se comigo.
Nunca se pode ter razão, nem num restaurante.
Não comi, não pedi outra coisa, paguei a conta,
E vim passear para a rua.
Quem sabe o que isto quer dizer?
Eu não sei, e foi comigo...
(Sei muito bem que na infância de toda a gente houve um jardim,
Particular ou público, ou o do vizinho.
Sei muito bem que brincarmos era o dono dele.
E que a tristeza é de hoje.)
Sei isso muitas vezes,
Mas, se eu pedi amor, porque é que me trouxeram
Dobrada à moda do Porto fria?
Não é prato que se possa comer frio,
Mas trouxeram-mo frio.
Não me queixei, mas estava frio,
Nunca se pode comer frio, mas veio frio.
Álvaro de Campos
com a devida vénia, de POEMAS DE FERNANDO PESSOA, selecção, prefácio e posfácio de Eduardo Lourenço, Visão - JL, Fevereiro de 2006
Serviram-me o amor como dobrada fria.
Disse delicadamente ao missionário da cozinha
Que a preferia quente,
Que a dobrada (e era à moda do Porto) nunca se come fria.
Impacientaram-se comigo.
Nunca se pode ter razão, nem num restaurante.
Não comi, não pedi outra coisa, paguei a conta,
E vim passear para a rua.
Quem sabe o que isto quer dizer?
Eu não sei, e foi comigo...
(Sei muito bem que na infância de toda a gente houve um jardim,
Particular ou público, ou o do vizinho.
Sei muito bem que brincarmos era o dono dele.
E que a tristeza é de hoje.)
Sei isso muitas vezes,
Mas, se eu pedi amor, porque é que me trouxeram
Dobrada à moda do Porto fria?
Não é prato que se possa comer frio,
Mas trouxeram-mo frio.
Não me queixei, mas estava frio,
Nunca se pode comer frio, mas veio frio.
Álvaro de Campos
com a devida vénia, de POEMAS DE FERNANDO PESSOA, selecção, prefácio e posfácio de Eduardo Lourenço, Visão - JL, Fevereiro de 2006
05/01/2010
GEOLOGIA
Às vezes são homens de bem
empurrados para esta vida,
resquícios da erosão da montanha,
paisagens antigas
enterradas sob o gelo.
Nada está garantido
numa geologia tão frágil. Este chão
pode virar-se sem aviso.
Ainda assim, sejam bem-vindos,
fiquem tristes à vontade.
Vítor Nogueira
com a devida vénia, de MAR LARGO, &etc, Lisboa, Setembro de 2009
empurrados para esta vida,
resquícios da erosão da montanha,
paisagens antigas
enterradas sob o gelo.
Nada está garantido
numa geologia tão frágil. Este chão
pode virar-se sem aviso.
Ainda assim, sejam bem-vindos,
fiquem tristes à vontade.
Vítor Nogueira
com a devida vénia, de MAR LARGO, &etc, Lisboa, Setembro de 2009
02/01/2010
ENDECHA DOS MAIS NOVOS
Enquanto o nosso coração voraz
bate a descompasso com o da Terra,
não queremos ripostar demais à guerra,
fugimos de apostar demais na paz.
Compêndios de nojo, actas de festa,
são escrita tremida para nós,
mas não se lembrem autores de erguer a voz
a dizer o que purga e o que molesta.
Só a voz do sangue ouvimos bem
quando ao leme do ventre almareámos;
fomos inocentes, já nos naufragámos,
corpos de delito, almas de refém.
Luiza Neto Jorge
com a devida vénia, de A LUME, Assírio & Alvim, Lisboa, Maio de 1989
bate a descompasso com o da Terra,
não queremos ripostar demais à guerra,
fugimos de apostar demais na paz.
Compêndios de nojo, actas de festa,
são escrita tremida para nós,
mas não se lembrem autores de erguer a voz
a dizer o que purga e o que molesta.
Só a voz do sangue ouvimos bem
quando ao leme do ventre almareámos;
fomos inocentes, já nos naufragámos,
corpos de delito, almas de refém.
Luiza Neto Jorge
com a devida vénia, de A LUME, Assírio & Alvim, Lisboa, Maio de 1989
01/01/2010
Calle Principe, 25
Perdemos repentinamente
a profundidade dos campos
os enigmas singulares
a claridade que juramos
conservar
mas levamos anos
a esquecer alguém
que apenas nos olhou
José Tolentino Mendonça
com a devida vénia, de BALDIOS, Assírio & Alvim, Lisboa, Setembro de 1999
a profundidade dos campos
os enigmas singulares
a claridade que juramos
conservar
mas levamos anos
a esquecer alguém
que apenas nos olhou
José Tolentino Mendonça
com a devida vénia, de BALDIOS, Assírio & Alvim, Lisboa, Setembro de 1999
31/12/2009
Outra Despedida
O canto, no momento decisivo,
por surgido espasmo
encalha, pára,
mesmo onde trepa
e a ebriedade
solta obsessão, insipiência.
- como se, ao chamar-se pelo nome,
tivesse tentado um gesto
e tivesse chegado ao centro
de um vazio ilimitado:
de lá, mexendo braços ou brânquias,
detém a orla
de uma terra friável.
- como se o fôlego viesse
de retículos nunca explorados
(e ele, o cantor,
andasse vísceras e pés)
rumo a um bem que já não tem nome
ou a um mal que desse bem
esfomeia e respira.
- como se a voz
fosse um deus solitário
sem mais trono nem aljava
e andasse rumo a lugares apagados
à procura de outras medidas.
- como um vórtice
enroscando-se se desfaz
num meandro
de vidro imponderável.
Elio Pecora
com a devida vénia, de POEMAS ESCOLHIDOS, Edições Quasi, Setembro de 2008
por surgido espasmo
encalha, pára,
mesmo onde trepa
e a ebriedade
solta obsessão, insipiência.
- como se, ao chamar-se pelo nome,
tivesse tentado um gesto
e tivesse chegado ao centro
de um vazio ilimitado:
de lá, mexendo braços ou brânquias,
detém a orla
de uma terra friável.
- como se o fôlego viesse
de retículos nunca explorados
(e ele, o cantor,
andasse vísceras e pés)
rumo a um bem que já não tem nome
ou a um mal que desse bem
esfomeia e respira.
- como se a voz
fosse um deus solitário
sem mais trono nem aljava
e andasse rumo a lugares apagados
à procura de outras medidas.
- como um vórtice
enroscando-se se desfaz
num meandro
de vidro imponderável.
Elio Pecora
com a devida vénia, de POEMAS ESCOLHIDOS, Edições Quasi, Setembro de 2008
16/12/2009
Sob epígrafe de T.S. Eliot - 1
Let us go, through certain half-desert streets,
The muttering retreats
Of retless nights in one-night cheap hotels
T.S. Eliot
1.
vem e desce comigo ao coração
da noite onde os teus sonhos se recolhem
e se dissolvem
como sal na água dos teus olhos
outra é a noite que sentes
como tua
não esta que pulsa na morte
das cegonhas
essoutra que te chama por teresa
inês julieta eurídice
que enfim te nomeia eterna
porque eterno o amor julgas
é uma noite de espelhos
onde o reverso te ilumina
como no verso de ungaretti
de imenso
porque tudo
tudo nela é ilusão
Xavier Zarco
The muttering retreats
Of retless nights in one-night cheap hotels
T.S. Eliot
1.
vem e desce comigo ao coração
da noite onde os teus sonhos se recolhem
e se dissolvem
como sal na água dos teus olhos
outra é a noite que sentes
como tua
não esta que pulsa na morte
das cegonhas
essoutra que te chama por teresa
inês julieta eurídice
que enfim te nomeia eterna
porque eterno o amor julgas
é uma noite de espelhos
onde o reverso te ilumina
como no verso de ungaretti
de imenso
porque tudo
tudo nela é ilusão
Xavier Zarco
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