19/05/2010

RELAÇÃO DE ALGUNS BENS DO POETA

uma pilha de poemas impressos
outra dos que foram perdidos
e mais outra dos que ficaram por escrever
uma prateleira com sonhos queimados
quarenta e cinco amores frustrados
um relógio sem ponteiros
um gato imaginário que mia em silêncio
um pássaro empalhado com a asa esquerda partida
uma mala de couro pronta para a viagem sem volta


                                                              17-05-10
Júlio Saraiva

mais poemas do autor, aqui

05/05/2010

Errata

.

Na pág. 81, onde se lê mulher,
Deverá ler-se feitiço.
Tendo em atenção a isso
Ilude-se apenas quem quiser.

Mário Osório

com a devida autorização do autor, de Fumo do Meu Cigarro

31/03/2010

[Tem o poeta uma fisga]

Tem  o poeta uma fisga
E um caroço de azeitona
E dele ninguém se pisga
Sem levar uma na mona

O poeta é como um puto
Não há muros que não salte
Nem árvore cujo fruto
Lhe negue o sabor de malte

E mesmo que o tempo passe
E na barba nasça neve
Em cada dia ele faz-se
E desfaz-se no que escreve

Xavier Zarco

13/01/2010

Dobrada à moda do Porto

Um dia, num restaurante, fora do espaço e do tempo,
Serviram-me o amor como dobrada fria.
Disse delicadamente ao missionário da cozinha
Que a preferia quente,
Que a dobrada (e era à moda do Porto) nunca se come fria.


Impacientaram-se comigo.
Nunca se pode ter razão, nem num restaurante.
Não comi, não pedi outra coisa, paguei a conta,
E vim passear para a rua.


Quem sabe o que isto quer dizer?
Eu não sei, e foi comigo...


(Sei muito bem que na infância de toda a gente houve um jardim,
Particular ou público, ou o do vizinho.
Sei muito bem que brincarmos era o dono dele.
E que a tristeza é de hoje.)


Sei isso muitas vezes,
Mas, se eu pedi amor, porque é que me trouxeram
Dobrada à moda do Porto fria?
Não é prato que se possa comer frio,
Mas trouxeram-mo frio.
Não me queixei, mas estava frio,
Nunca se pode comer frio, mas veio frio.

Álvaro de Campos

com a devida vénia, de POEMAS DE FERNANDO PESSOA, selecção, prefácio e posfácio de Eduardo Lourenço, Visão - JL, Fevereiro de 2006

05/01/2010

GEOLOGIA

Às vezes são homens de bem
empurrados para esta vida,
resquícios da erosão da montanha,
paisagens antigas
enterradas sob o gelo.

Nada está garantido
numa geologia tão frágil. Este chão
pode virar-se sem aviso.
Ainda assim, sejam bem-vindos,
fiquem tristes à vontade.

Vítor Nogueira

com a devida vénia, de MAR LARGO, &etc, Lisboa, Setembro de 2009

02/01/2010

ENDECHA DOS MAIS NOVOS

Enquanto o nosso coração voraz
bate a descompasso com o da Terra,
não queremos ripostar demais à guerra,
fugimos de apostar demais na paz.

Compêndios de nojo, actas de festa,
são escrita tremida para nós,
mas não se lembrem autores de erguer a voz
a dizer o que purga e o que molesta.

Só a voz do sangue ouvimos bem
quando ao leme do ventre almareámos;
fomos inocentes, já nos naufragámos,
corpos de delito, almas de refém.

Luiza Neto Jorge

com a devida vénia, de A LUME, Assírio & Alvim, Lisboa, Maio de 1989

01/01/2010

Calle Principe, 25

Perdemos repentinamente
a profundidade dos campos
os enigmas singulares
a claridade que juramos
conservar

mas levamos anos
a esquecer alguém
que apenas nos olhou

José Tolentino Mendonça

com a devida vénia, de BALDIOS, Assírio & Alvim, Lisboa, Setembro de 1999