Roçagures era palavra que não tinha pouso,
casa-sobrado, avarandados. Roçagures
só tinha canto, recanto, desvão
sob pilares tão ermos, e aranhas
vinham (das bojudas)
fazer da palavra roçagures
o pior dos desmazelos: riam
dela (aqueles risotes das aranhas),
riam da roupagem léxica
da palavra roçagures, riam
da sua impossibilidade para frases.
Paulinho Assunção
com a devida autorização do autor, colhido no seu blogue cidades escritas
19/06/2010
18/06/2010
FRAGMENTOS
I
Assumi a levedura,
o fogo.
E me banhei duas vezes
no mesmo corpo.
II
Nenhuma ciência é maior
que a de estar vivo.
Carlos Nejar
com a devida vénia, de Antologia Poética de Carlos Nejar, prefácio, organização e selecção de António Osório, Editora Pergaminho, Lda., 2003
Assumi a levedura,
o fogo.
E me banhei duas vezes
no mesmo corpo.
II
Nenhuma ciência é maior
que a de estar vivo.
Carlos Nejar
com a devida vénia, de Antologia Poética de Carlos Nejar, prefácio, organização e selecção de António Osório, Editora Pergaminho, Lda., 2003
13/06/2010
MEDITAÇÃO FINAL
Ignoro se avanço ou se parei,
Se volto atrás pra repetir os passos:
O tempo dos cansaços
Chegou com dura lei.
E ainda me pedem um sinal
De novidade:
Se apresentar a certidão de idade,
Cavam a terra, trazem pás de cal.
A pena emperrava na palavra,
O coração nos sentimentos.
Os últimos momentos
Não somos nunca nós, mas Deus, quem lavra.
Irei deixar um livro em branco
(Tanto faz esse ou outro que hoje escreva!).
Ninguém se atreva
A abri-lo, a procurar-lhe a comoção de um canto,
Pois vai doer-lhe a página vazia,
Como doem agora os meus cansaços.
Eu avanço, parei, ou repito os meus passos?
Não sei. Mas sei que a alma é cada vez mais fria.
António Manuel Couto Viana
com a devida vénia, de Prefiro Pátria às Rosas, Vega, Limitada, 1998
Se volto atrás pra repetir os passos:
O tempo dos cansaços
Chegou com dura lei.
E ainda me pedem um sinal
De novidade:
Se apresentar a certidão de idade,
Cavam a terra, trazem pás de cal.
A pena emperrava na palavra,
O coração nos sentimentos.
Os últimos momentos
Não somos nunca nós, mas Deus, quem lavra.
Irei deixar um livro em branco
(Tanto faz esse ou outro que hoje escreva!).
Ninguém se atreva
A abri-lo, a procurar-lhe a comoção de um canto,
Pois vai doer-lhe a página vazia,
Como doem agora os meus cansaços.
Eu avanço, parei, ou repito os meus passos?
Não sei. Mas sei que a alma é cada vez mais fria.
António Manuel Couto Viana
com a devida vénia, de Prefiro Pátria às Rosas, Vega, Limitada, 1998
19/05/2010
RELAÇÃO DE ALGUNS BENS DO POETA
uma pilha de poemas impressos
outra dos que foram perdidos
e mais outra dos que ficaram por escrever
uma prateleira com sonhos queimados
quarenta e cinco amores frustrados
um relógio sem ponteiros
um gato imaginário que mia em silêncio
um pássaro empalhado com a asa esquerda partida
uma mala de couro pronta para a viagem sem volta
17-05-10
Júlio Saraiva
mais poemas do autor, aqui
outra dos que foram perdidos
e mais outra dos que ficaram por escrever
uma prateleira com sonhos queimados
quarenta e cinco amores frustrados
um relógio sem ponteiros
um gato imaginário que mia em silêncio
um pássaro empalhado com a asa esquerda partida
uma mala de couro pronta para a viagem sem volta
17-05-10
Júlio Saraiva
mais poemas do autor, aqui
05/05/2010
Errata
.
Na pág. 81, onde se lê mulher,
Deverá ler-se feitiço.
Tendo em atenção a isso
Ilude-se apenas quem quiser.
Mário Osório
com a devida autorização do autor, de Fumo do Meu Cigarro
Na pág. 81, onde se lê mulher,
Deverá ler-se feitiço.
Tendo em atenção a isso
Ilude-se apenas quem quiser.
Mário Osório
com a devida autorização do autor, de Fumo do Meu Cigarro
31/03/2010
[Tem o poeta uma fisga]
Tem o poeta uma fisga
E um caroço de azeitona
E dele ninguém se pisga
Sem levar uma na mona
O poeta é como um puto
Não há muros que não salte
Nem árvore cujo fruto
Lhe negue o sabor de malte
E mesmo que o tempo passe
E na barba nasça neve
Em cada dia ele faz-se
E desfaz-se no que escreve
Xavier Zarco
E um caroço de azeitona
E dele ninguém se pisga
Sem levar uma na mona
O poeta é como um puto
Não há muros que não salte
Nem árvore cujo fruto
Lhe negue o sabor de malte
E mesmo que o tempo passe
E na barba nasça neve
Em cada dia ele faz-se
E desfaz-se no que escreve
Xavier Zarco
27/02/2010
Antonio Cicero - "GUARDAR"
Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la. Em cofre
não se guarda coisa alguma. Em cofre perde-se a coisa
à vista.
Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por admirá-la, isto
é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.
Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por
ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,
isto é, estar por ela ou ser por ela.
Por isso melhor se guarda o vôo de um pássaro
do que pássaros sem vôos.
Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se
publica, por isso se declara e declama um poema:
Para guardá-lo:
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guardar-se o que se quer guardar.
Antonio Cicero
Com a devida vénia, de Di Versos, Revista semestral de Poesia e Tradução, N.º 9, Primavera de 2006, Edições Sempre-em-Pé
13/01/2010
Dobrada à moda do Porto
Um dia, num restaurante, fora do espaço e do tempo,
Serviram-me o amor como dobrada fria.
Disse delicadamente ao missionário da cozinha
Que a preferia quente,
Que a dobrada (e era à moda do Porto) nunca se come fria.
Impacientaram-se comigo.
Nunca se pode ter razão, nem num restaurante.
Não comi, não pedi outra coisa, paguei a conta,
E vim passear para a rua.
Quem sabe o que isto quer dizer?
Eu não sei, e foi comigo...
(Sei muito bem que na infância de toda a gente houve um jardim,
Particular ou público, ou o do vizinho.
Sei muito bem que brincarmos era o dono dele.
E que a tristeza é de hoje.)
Sei isso muitas vezes,
Mas, se eu pedi amor, porque é que me trouxeram
Dobrada à moda do Porto fria?
Não é prato que se possa comer frio,
Mas trouxeram-mo frio.
Não me queixei, mas estava frio,
Nunca se pode comer frio, mas veio frio.
Álvaro de Campos
com a devida vénia, de POEMAS DE FERNANDO PESSOA, selecção, prefácio e posfácio de Eduardo Lourenço, Visão - JL, Fevereiro de 2006
Serviram-me o amor como dobrada fria.
Disse delicadamente ao missionário da cozinha
Que a preferia quente,
Que a dobrada (e era à moda do Porto) nunca se come fria.
Impacientaram-se comigo.
Nunca se pode ter razão, nem num restaurante.
Não comi, não pedi outra coisa, paguei a conta,
E vim passear para a rua.
Quem sabe o que isto quer dizer?
Eu não sei, e foi comigo...
(Sei muito bem que na infância de toda a gente houve um jardim,
Particular ou público, ou o do vizinho.
Sei muito bem que brincarmos era o dono dele.
E que a tristeza é de hoje.)
Sei isso muitas vezes,
Mas, se eu pedi amor, porque é que me trouxeram
Dobrada à moda do Porto fria?
Não é prato que se possa comer frio,
Mas trouxeram-mo frio.
Não me queixei, mas estava frio,
Nunca se pode comer frio, mas veio frio.
Álvaro de Campos
com a devida vénia, de POEMAS DE FERNANDO PESSOA, selecção, prefácio e posfácio de Eduardo Lourenço, Visão - JL, Fevereiro de 2006
05/01/2010
GEOLOGIA
Às vezes são homens de bem
empurrados para esta vida,
resquícios da erosão da montanha,
paisagens antigas
enterradas sob o gelo.
Nada está garantido
numa geologia tão frágil. Este chão
pode virar-se sem aviso.
Ainda assim, sejam bem-vindos,
fiquem tristes à vontade.
Vítor Nogueira
com a devida vénia, de MAR LARGO, &etc, Lisboa, Setembro de 2009
empurrados para esta vida,
resquícios da erosão da montanha,
paisagens antigas
enterradas sob o gelo.
Nada está garantido
numa geologia tão frágil. Este chão
pode virar-se sem aviso.
Ainda assim, sejam bem-vindos,
fiquem tristes à vontade.
Vítor Nogueira
com a devida vénia, de MAR LARGO, &etc, Lisboa, Setembro de 2009
02/01/2010
ENDECHA DOS MAIS NOVOS
Enquanto o nosso coração voraz
bate a descompasso com o da Terra,
não queremos ripostar demais à guerra,
fugimos de apostar demais na paz.
Compêndios de nojo, actas de festa,
são escrita tremida para nós,
mas não se lembrem autores de erguer a voz
a dizer o que purga e o que molesta.
Só a voz do sangue ouvimos bem
quando ao leme do ventre almareámos;
fomos inocentes, já nos naufragámos,
corpos de delito, almas de refém.
Luiza Neto Jorge
com a devida vénia, de A LUME, Assírio & Alvim, Lisboa, Maio de 1989
bate a descompasso com o da Terra,
não queremos ripostar demais à guerra,
fugimos de apostar demais na paz.
Compêndios de nojo, actas de festa,
são escrita tremida para nós,
mas não se lembrem autores de erguer a voz
a dizer o que purga e o que molesta.
Só a voz do sangue ouvimos bem
quando ao leme do ventre almareámos;
fomos inocentes, já nos naufragámos,
corpos de delito, almas de refém.
Luiza Neto Jorge
com a devida vénia, de A LUME, Assírio & Alvim, Lisboa, Maio de 1989
01/01/2010
Calle Principe, 25
Perdemos repentinamente
a profundidade dos campos
os enigmas singulares
a claridade que juramos
conservar
mas levamos anos
a esquecer alguém
que apenas nos olhou
José Tolentino Mendonça
com a devida vénia, de BALDIOS, Assírio & Alvim, Lisboa, Setembro de 1999
a profundidade dos campos
os enigmas singulares
a claridade que juramos
conservar
mas levamos anos
a esquecer alguém
que apenas nos olhou
José Tolentino Mendonça
com a devida vénia, de BALDIOS, Assírio & Alvim, Lisboa, Setembro de 1999
31/12/2009
Outra Despedida
O canto, no momento decisivo,
por surgido espasmo
encalha, pára,
mesmo onde trepa
e a ebriedade
solta obsessão, insipiência.
- como se, ao chamar-se pelo nome,
tivesse tentado um gesto
e tivesse chegado ao centro
de um vazio ilimitado:
de lá, mexendo braços ou brânquias,
detém a orla
de uma terra friável.
- como se o fôlego viesse
de retículos nunca explorados
(e ele, o cantor,
andasse vísceras e pés)
rumo a um bem que já não tem nome
ou a um mal que desse bem
esfomeia e respira.
- como se a voz
fosse um deus solitário
sem mais trono nem aljava
e andasse rumo a lugares apagados
à procura de outras medidas.
- como um vórtice
enroscando-se se desfaz
num meandro
de vidro imponderável.
Elio Pecora
com a devida vénia, de POEMAS ESCOLHIDOS, Edições Quasi, Setembro de 2008
por surgido espasmo
encalha, pára,
mesmo onde trepa
e a ebriedade
solta obsessão, insipiência.
- como se, ao chamar-se pelo nome,
tivesse tentado um gesto
e tivesse chegado ao centro
de um vazio ilimitado:
de lá, mexendo braços ou brânquias,
detém a orla
de uma terra friável.
- como se o fôlego viesse
de retículos nunca explorados
(e ele, o cantor,
andasse vísceras e pés)
rumo a um bem que já não tem nome
ou a um mal que desse bem
esfomeia e respira.
- como se a voz
fosse um deus solitário
sem mais trono nem aljava
e andasse rumo a lugares apagados
à procura de outras medidas.
- como um vórtice
enroscando-se se desfaz
num meandro
de vidro imponderável.
Elio Pecora
com a devida vénia, de POEMAS ESCOLHIDOS, Edições Quasi, Setembro de 2008
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