02/10/2010

PERSPECTIVAS

Há uma estranha persistência da vontade
nos dias que correm. Como efeitos dos (ou só a pele!) caminhos bifurcados,
organizamos falsas geometrias.

As nossas janelas dão para outras janelas,
em cidades que não se deixam habitar facilmente. São plácidas as tardes e
existes
no perfeito ponto para
onde fogem
todas as linhas que teimamos em não ver.

Queiras
ou não (há sempre duas passagens!), a rede da melancolia
tem servido também
para inventar o ponto de vista.

Dália Dias

(Inédito)

21/06/2010

"VERSOS SOLTOS DE CADA DIA"

(Excertos)

7.

Hoje, tudo o que escrevo é para ti
e não é preciso
dizer o teu nome:
se digo céu,
rosa,
terra,
Revolução,
ar, mar, poesia...
é a ti que nomeio.

Rafael Alberti

com a devida vénia, de ANTOLOGIA POÉTICA, Selecção e Tradução de Albano Martins, Campo das Letras Editores, S. A., Abril de 1998

19/06/2010

ROÇAGURES

Roçagures era palavra que não tinha pouso,
casa-sobrado, avarandados. Roçagures
só tinha canto, recanto, desvão
sob pilares tão ermos, e aranhas
vinham (das bojudas)
fazer da palavra roçagures
o pior dos desmazelos: riam
dela (aqueles risotes das aranhas),
riam da roupagem léxica
da palavra roçagures, riam
da sua impossibilidade para frases.

Paulinho Assunção

com a devida autorização do autor, colhido no seu blogue cidades escritas

18/06/2010

FRAGMENTOS

I

Assumi a levedura,
o fogo.
E me banhei duas vezes
no mesmo corpo.

II

Nenhuma ciência é maior
que a de estar vivo.


Carlos Nejar

com a devida vénia, de Antologia Poética de Carlos Nejar, prefácio, organização e selecção de António Osório, Editora Pergaminho, Lda., 2003

13/06/2010

MEDITAÇÃO FINAL

Ignoro se avanço ou se parei,
Se volto atrás pra  repetir os passos:
O tempo dos cansaços
Chegou com dura lei.

E ainda me pedem um sinal
De novidade:
Se apresentar a certidão de idade,
Cavam a terra, trazem pás de cal.

A pena emperrava na palavra,
O coração nos sentimentos.
Os últimos momentos
Não somos nunca nós, mas Deus, quem lavra.

Irei deixar um livro em branco
(Tanto faz esse ou outro que hoje escreva!).
Ninguém se atreva
A abri-lo, a procurar-lhe a comoção de um canto,

Pois vai doer-lhe a página vazia,
Como doem agora os meus cansaços.
Eu avanço, parei, ou repito os meus passos?
Não sei. Mas sei que a alma é cada vez mais fria.

António Manuel Couto Viana

com a devida vénia, de Prefiro Pátria às Rosas, Vega, Limitada, 1998

19/05/2010

RELAÇÃO DE ALGUNS BENS DO POETA

uma pilha de poemas impressos
outra dos que foram perdidos
e mais outra dos que ficaram por escrever
uma prateleira com sonhos queimados
quarenta e cinco amores frustrados
um relógio sem ponteiros
um gato imaginário que mia em silêncio
um pássaro empalhado com a asa esquerda partida
uma mala de couro pronta para a viagem sem volta


                                                              17-05-10
Júlio Saraiva

mais poemas do autor, aqui