13 junho 2010

MEDITAÇÃO FINAL

Ignoro se avanço ou se parei,
Se volto atrás pra  repetir os passos:
O tempo dos cansaços
Chegou com dura lei.

E ainda me pedem um sinal
De novidade:
Se apresentar a certidão de idade,
Cavam a terra, trazem pás de cal.

A pena emperrava na palavra,
O coração nos sentimentos.
Os últimos momentos
Não somos nunca nós, mas Deus, quem lavra.

Irei deixar um livro em branco
(Tanto faz esse ou outro que hoje escreva!).
Ninguém se atreva
A abri-lo, a procurar-lhe a comoção de um canto,

Pois vai doer-lhe a página vazia,
Como doem agora os meus cansaços.
Eu avanço, parei, ou repito os meus passos?
Não sei. Mas sei que a alma é cada vez mais fria.

António Manuel Couto Viana

com a devida vénia, de Prefiro Pátria às Rosas, Vega, Limitada, 1998

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