03 abril 2009

NESTE PRECISO TEMPO, NESTE PRECISO LUGAR

No princípio era o Verbo
(e os açúcares
e os aminoácidos).
Depois foi o que se sabe.
Agora estou debruçado
da varanda de um 3.º  andar
e todo o Passado
vem exactamente desaguar
neste preciso tempo, neste preciso lugar,
no meu preciso modo e no meu preciso estado!


Todavia em vez de metafísica
ou de biologia
dá-me para a mais  inespecífica
forma de melancolia:
poesia nem por isso lírica
nem por isso provavelmente poesia.
Pois que farei eu com tanto Passado
senão passar-lhe ao lado,
deitando-lhe o enviezado
olhar da ironia?


Por onde vens, Passado,
pelo vivido ou pelo sonhado?
Que parte de ti me pertence,
a que se lembra ou a que se esquece?
Lá em baixo, na rua,  passa para sempre
gente indefinidamente presente,
entrando na minha vida
por uma porta de saída
que dá já para a memória.
Também  eu (isto) não tenho história
senão a de uma ausência
entre indiferença e indeferença.


Manuel António Pina


in NENHUMA PALAVRA NENHUMA LEMBRANÇA, editora Assírio & Alvim, Setembro 1999

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