05 abril 2009

CARTA DE AMOR

                                                A Eugénio de Andrade




Um dia destes
vou-te matar.
Uma manhã qualquer em que estejas (como de
             costume)
a medir o tesão das flores
ali no Jardim de S. Lázaro
um tiro de pistola e...
Não te vou dar tempo sequer de me  fixares o rosto
Podes invocar Safo, Cavafy ou S. João da Cruz
todos os poetas celestiais
que ninguém te virá acudir
Comprometidos definitivamente os teus planos de
             eternidade
Adeus pois mares de Setembro e dunas de Fão
Um dia destes vou-te matar...
Uma certeira bala de pólen
mesmo sobre o coração


Jorge de Sousa Braga


in DE MANHÃ VAMOS TODOS ACORDAR COM UMA PÉROLA NO CU, Fenda Edições, 1981

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